O episódio do ministro Enrique Ricardo Lewandowski, no ano passado, provocado em um voo comercial por um indivíduo que se disse “envergonhado” com a corte suprema brasileira, serve para ilustrar como a ética do coletivismo, em torno do estado, tem um grande poder no imaginário popular.

O resultado do julgamento de ontem (14), cujo desdobramento pode ser desfavorável à continuidade da Operação Lava Jato como se encontra, retomou o sentimento nas redes sociais. Em qualquer esquina, imagino, posso encontrar indivíduos que se dizem “envergonhados”, não apenas com o STF, mas também com outras instituições do estado, assim assumindo sentimentos íntimos relacionados a coisas pelas quais não participaram ativamente, envolvendo atributos que não produziram. Compartilho da mesma visão suscitada pelo professor Adriano Gianturco, no Twitter.

Como posso sentir vergonha de algo onde não tenho participação?

Como posso me envergonhar daquilo que não fiz?

Faz sentido ter vergonha de uma coisa que não me pertence?

Posso sentir vergonha de qualquer coisa que eu tenha produzido ou que possua algum grau de relação moral ou sentimental comigo. Sinto vergonha por uma autocrítica que possa me apontar de uma consciência de culpa direta ou indireta, participação ou responsabilidade por ato que tenha provocado dano a terceiros ou a mim mesmo.

Posso também sentir vergonha de outras pessoas, mas isso requer um envolvimento pessoal e profundo  com quem (ou o quê) provocou a desonra. Posso ter vergonha de algo cometido por alguém ou por alguma instituição que tenho grande estima, respeito, afetividade. Um pai pode ter vergonha de um filho; posso me envergonhar de um parente, um mestre pode se envergonhar de um discípulo, posso ter vergonha do meu clube do coração, e até da empresa onde trabalho, da igreja que porventura comungo fé religiosa, ou seja, de alguém ou qualquer coisa que venha a provocar alguma consciência de que eu faço parte e que tenha produzido algo que considero desonroso. Isso ocorre porque o coletivismo é um fenômeno natural envolvendo seres humanos, que são emocionais, capazes de desenvolver afeto e promover interação social. A questão maior, a meu ver, está em como o coletivismo é formado e mantido. Há um coletivismo baseado na livre e espontânea vontade de indivíduos que se associam entre si, em busca de interesses comuns ou que mantêm certo grau de afinidade com valores ideológicos, familiares, morais, culturais, enfim, de coisas que possam gerar elos éticos e sentimentais.

O STF está muito distante de minhas afinidades; é um elemento estranho, não me representa. Trata-se de um arranjo estatal que me é imposto por monopólio e coerção como parte do “contrato social”, partindo de valores que não coaduno. O STF é um desdobramento de uma corporação de indivíduos indicados e aprovados no bojo do sistema político que usa o mesmo aparato para “legitimá-lo”. Então, sentir vergonha do STF seria assumir uma intimidade com um estado de coisas coisa que, na verdade, me remetem a outros sentimentos: repúdio, indignação, repugnância e até nojo.

Quanto ao comportamento do ministro Lewandowski diante do advogado  que manifestou insatisfação com a corte suprema, nada me surpreende: apenas revela a situação em que “autoridades supremas” do estado costumam atuar; como se fossem “deuses” entre subservientes mortais, e destarte, o que sobra é uma sociedade de envergonhados catatônicos e apegados com o aparato que os oprime, me fazendo pensar no “homem-massa” de Ortega y Gasset.

Ter vergonha do STF, para mim, não faz mesmo o menor sentido.

 

 

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