Não me apetece qualquer necessidade de tomar partido pelo filósofo Olavo de Carvalho, como observo nos assim chamados “olavetes”, sobretudo naqueles meios “que  deram voz a uma legião de imbecis”, aqui lembrando a precisa definição para “redes sociais” dada por um outro filósofo que também tenho apreço: Umberto Eco (1932-2016).

Sou um leitor e ouvinte de Olavo de Carvalho e minha consciência manda registrar neste que não é de hoje que ele vem emitindo severas críticas sobre militares brasileiros.

Geisel adota uma política econômica socializante da qual pagamos o prejuízo até hoje, tolera a corrupção, inscreve o Brasil no eixo terceiro-mundista anti-americano e ajuda Cuba a invadir Angola, um genocídio que não fez menos de 100 mil vítimas (o maior dos crimes da ditadura e o único autenticamente hediondo — contra o qual ninguém diz uma palavra, porque foi a favor da esquerda). Figueiredo prossegue na linha de Geisel e nada lhe acrescenta – mas não se pode negar-lhe o mérito de entregar a rapadura quando já não tinha dentes para roê-la.” [1].

A visão que Olavo tem do período, dividida em quatro momentos distintos, é interessante para se ter uma melhor compreensão do que aconteceu em 1964 e como algo que foi apoiado por uma significativa parte da sociedade, acabou se degenerando:

“É uma estupidez acreditar que esses quatro regimes formem unidade entre si, podendo ser julgados em bloco. Na minha opinião pessoal, Castelo foi um homem justo e um grande presidente; Médici foi o melhor administrador que já tivemos, apesar de mau político. Minha opinião sobre Costa, a Junta Militar, Geisel e Figueiredo não pode ser dita em público sem ferir a decência.” [1].

Quando comecei a me inteirar do pensamento de Olavo sobre um viés “esquerdista”, eu diria socialista, que há no meio militar, a sensação imediata que tive foi de alívio,  pois me achava um louco solitário que via predominando nas forças armadas, um propósito de  combater aqueles que tinham um similar espírito anticapitalista, mas que estavam sob propósitos alinhados com Moscou, e isso se deu pela via que eles (os militares) bem conhecem: o confronto puramente armado, policiesco, físico-intimidador,  enquanto o movimento de ocupação se dava em universidades, igrejas e, sobretudo, em meios de comunicação e entretenimento,  tudo correndo bem debaixo dos narizes empinados dos generais.

O regime militar 64-85 fez muito mal ao Brasil por ter descambado para ser uma guerra entre facções de anticapitalistas: socialistas militares versus socialistas sovietes, enquanto os socialistas de Gramsci corriam por fora, e esse entendimento teve um importante desdobramento em minha visão econômica que se consolidou assim que comecei a aprender economia com a Escola Austríaca, sendo a crítica de Olavo, um passo inicial, o suficiente para promover a continuidade de um despertar para leituras fora do eixo acadêmico.

Estamos em 2019, governo Bolsonaro, cujo apoio de Olavo foi muito importante e eis que o sábio da Virgínia optou pela coerência em vez de simplesmente fazer o jogo da política. Ele tem uma interessante crítica negativa aos militares da metade para o final do regime, e outra crítica ácida para o comportamento passivo, subserviente e até de cúmplices por parte de militares durante os anos 1990 e, especialmente, na era petista, durante as tentativas do PT em criminalizar apenas o lado estatal face aos acontecimentos da ditadura.

Bolsonaro venceu as eleições e uma pergunta que martelava meu juízo encontrou resposta nestes dias conturbados para o governo. Com apoio olavista e militarista, Bolsonaro está entre duas forças que não se dão muito bem, é público e notório, e Olavo então, se pautando pela coerência que lhe é peculiar, segue um posicionamento crítico alinhado com sua visão de  mundo, sem se deixar levar pelas vantagens do poder, agindo com independência quanto ao governo; ele continua a dar suas marteladas em militares enviesados que os olavetes podem até chamar de “comunistas”.

Não gosto da forma com que Olavo se expressa em redes sociais; ele é rude, agressivo, sem qualquer cortesia, se porta distante de um espírito de diálogo respeitoso que, assim entendo, deveria pautar aqueles que prezam pelo livre pensamento. Passa a sensação de alguém arrogante com aqueles que discordam de sua visão de mundo. Imagino que ele deva ter seus motivos para ser assim, mas não compreendo tamanha agressividade, no entanto, Olavo está sendo coerente, a ponto de ter que pagar um preço caríssimo por isso, sendo perseguido por uma imprensa canalha que o ignorava enquanto ele produzia obras importantes e agora o menciona apenas porque está provocando muito desconforto no governo Bolsonaro. Isso me faz continuar a considera-lo como um autêntico filósofo, muito embora tenha discordâncias de algumas visões que manifesta em seus livros e vídeos, em especial, a que se pauta em promover um estado nacionalista, supostamente defensor da liberdade dos indivíduos, enquanto, paradoxalmente, combatente de pensamentos rotulados como de “esquerda”. Olavo deixa nas entrelinhas que prefere ficar na arena política, sem necessariamente ter pretensões de estar formalmente no governo, o que não me surpreende, em se tratando de uma visão de poder além das coisas que os medíocres enxergam, contudo, seus olavetes, na medida em que amplificam a ideia do combate ostensivo a outros que pensam diferentes, usando a batuta do estado, parecem ignorar que estão no mesmo caminho de truculência, imposição, coerção, dos assim chamados “esquerdopatas”.

A grande contribuição de Olavo na minha vida intelectual está na crítica dele ao marxismo, que a meu ver é excelente, assim como a leitura que ele faz dos acontecimentos em torno das crises políticas do estado brasileiro e o conceito de “economia fascista” que tange a cultura empresarial brasileira no clientelismo com a política e o corporativismo no estado, outro tema que me atrai. Destarte, suas contribuições são enormes diante de coisas que me incomodam e não aprovo. Assim, seguindo o espírito do texto que rege um conselho de São Paulo, examino tudo e pelo discernimento, procuro reter o que é bom [2].

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Notas:
  1. Resumo do que penso sobre 1964. Bah! (jornal universitário gaúcho), maio de 2004.
  2. I Tessalonicenses 5:21

 

 

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