Causa-me sempre apreensão quando vejo políticos explorando, com ardil peculiar, sentimentos coletivos de uma massa que os libertários, como este que vos escreve, chamam jocosamente de “gado”. Ultimamente têm se intensificado as ações de Bolsonaro no sentido de arrogar para si uma condição de líder carismático, suscitado por alguma força maior (divina?), escolhido pelo que considera ser o “povo”, para ser o grande representante de algo que sugere ser superior a todas as demais forças temporais do poder estatal. O presidente não poupa publicações onde aparece reverenciado pelo “povo”; explora grandes eventos, e nada melhor do que partidas de futebol, visitas oficiais a estados com recepções supostamente apoteóticas, e replica tudo em suas redes sociais para retroalimentar a massa.

Bolsonaro parece flertar com o velho populismo que fez o fascista Vargas ser adorado pelo povo enquanto implantava uma ditadura; é o populismo que forjou JK e o habilitou para vender a construção de Brasília dando aquele boom no endividamento público; é o populismo sempre mequetrefe que elegeu Jânio Quadros de uma direita “de porre” e que clamou por uma intervenção militar em 1964, tendo na “marcha da família” o seu grande momento de afirmação. Já nos tempos da chamada “abertura”, foi o populismo que deu sustentação à “anistia ampla,  geral e irrestrita” de torturadores do estado e terroristas sovietes e fez logo adiante, o socialismo de Sarney formar fiscais do tabelamento de preços, o que até hoje replica na ignorância econômica de grande parte da população, para depois ser capaz de levar o galã “caçador de marajás “Collor ao Palácio, e tirá-lo no primeiro impeachment da história tupiniquim, quando ele se achou pronto para assumir o papel de supremo líder, talvez pensando que seria maior do que Vargas. Este populismo em seguida teve seu coração conquistado pelo Plano Real e por um esquerdista sem sal, o doutor FHC, que acabou ficando oito anos porque fez crescer ainda mais a economia fascista brasileira, do velho compadrio vosso de cada dia.

Lula chegou em 2002 graças a este mesmo poder do populismo em mudar por emulação, sem promover reais mudanças, e ungido pelo mesmo, enquanto aprofundava o fascismo econômico e toda a corrupção que o populismo ajuda a fortalecer sem saber, colocou um poste asno chamado Dilma que, por conta do mesmo populismo, deu guarida ao impeachment ao notar nela fraquezas mentais imperdoáveis que colocavam em risco o sistema de poder. Agora surge Bolsonaro, o primeiro grande político doutor em redes sociais que acena para o que Lula, Collor, FHC, Dilma, JK, Jânio Quadros, Vargas, e até os militares de 64-85, protagonizaram no poder; o desejo de conquistar sempre mais a massa de incautos ou o “gado”, como assim chamam os membros do meu clã.

Um agravante que denota o populismo de Bolsonaro está na forma como ameaça demitir Joaquim Levy, fritando publicamente um profissional que, do meu agrado ou não, merece ser tratado com respeito, mediante regras políticas previamente esclarecidas e não por recados via imprensa, a mesma que Bolsonaro costuma depreciar; o presidente demonstra falta de um mínimo zelo por pessoas do seu governo quando parte para dar satisfação à massa, não sabendo tratar de assuntos internos com a devida discrição e honradez. Outro ponto incongruente está em posar de “liberal na economia” enquanto defende protecionismo. Um “conservador nos costumes” que defende um viés político (embora muitos não percebam) em escolas públicas enquanto denuncia as doutrinações de esquerda (o que é verdade); um defensor da liberdade que defende a CLT? O que penso? Bolsonaro não passa de um “remake” de algum momento do velho populismo brasileiro, não sei se será de forte cunho (Vargas) ou moderado (FHC), mas sempre sob traços fascistas, para entorpecer o que Ortega y Gasset chamou de “homem-massa”. Resta saber para onde Bolsonaro pretende ir com essa velha receita embriagante de idiotas úteis, agora de uma direita que milita contra os idiotas úteis da esquerda, ou seja, se almeja com todo esse desejo de expressar carisma, atropelar o Congresso e tudo o quanto se oponha livremente à ele, com apoio da arquibancada ignara enquanto discursa em favor do que entende por “democracia”.

É apenas um alerta de coisas que a história está aí para ensinar.

 

 

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