Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. [1]

Êxodo 20:17

Uma deficiência para lidar e aceitar qualidades e posses de algo ou outro semelhante. Do latim invida ou invidere. Sufixo negativo (in) sobre  “vida” ou “videre”, no sentido inicial de “negar o que se vê”, olhar contrariamente, observar incondicionalmente com ar de reprovação.

O invejoso não enxerga nada além de si mesmo, estando assim em uma condição de idiotes [2]; só contempla o próprio ego, exercendo juízo sobre o outro apenas pela sua própria (e sempre limitada) dimensão, por certo incomodado com o que porventura demonstre atributos e apropriações que perceba ser melhores, superiores, de alguma forma, quando os compara consigo mesmo. Na medida em que esse olhar é tão somente regido por uma concepção tão somente para massagear o ego, satisfazendo sua invida como  “visão” particular para repulsa sobre o outro.

Sendo incapaz de lidar com uma realidade que evidencia algum valor, condição ou posse alheia que o incomoda, acaba preso a um sentimento que, ocasionalmente se externa através de dissonâncias, fantasias, quase sempre travestidas de “críticas”, criando narrativas com o único intuito de distorcer fatos e depreciar o invejado. A crítica em si não está imediatamente associada à inveja, quando realizada com fundamentos razoáveis que venham a estabelecer questionamentos sérios e impessoais, penso.

A toxina da inveja, seja no foro íntimo ou externada por opiniões e/ou atos, foi sintetizada de forma genial por Tommaso d’Aquino: tristitia de alienis bonis, “tristeza em relação às coisas boas dos outros”.

A inveja como uma cegueira egocêntrica está ilustrada magistralmente por Dante Alighieri na (Divina) Comédia, quando no purgatório (Canto XIII), os invejosos estão com os olhos costurados [3] com fio de ferro:

ché a tutti un fil di ferro i cigli fóra
e cusce sì, come a sparvier selvaggio
si fa però che queto non demora.

Ter desejos por conquistas é algo perfeitamente normal mediante a natureza humana, mas, pode se transformar em uma coisa doentia quando combinada com a inveja alavancada para degenerar pensamentos e ações. A inveja é um sensor de alerta que temos para nos avisar que precisamos cuidar melhor de nossa saúde espiritual.

E quando não se consegue ceder à inveja e há uma forma ou um instrumento comum e legal que possa dar ao invejoso meios para atender o despeito de quem o perturba? Tal instrumento de violação pode ser observado facilmente no cotidiano de forma sutil, quase imperceptível, mascarando desejos do mais mesquinhos, em ares de satisfação quando a riqueza alheia é violada.

Quando despossuído invade a propriedade de quem cometeu o pecado de acumular patrimônio (enriquecer) e o invasor assim age por estar “legitimado” por um aparato legalista que impõe legislação em nome de uma abstração coercitiva, compulsiva e arbitrária chamada “justiça social”?  Quando a geração de valor é  tributada na fonte, castrando a liberdade pelo aparato que comete a taxação compulsória, e se vê prazer nessa violação por parte de quem concebe a riqueza alheia como motivo de injustiça na sociedade?

Taxações diretas ou embutidas em tudo o que se consome é o tipo de violação que se tornou banal, justamente porque aceitar o ter e o não ter passou a ser um problema, em especial a quem não se conforma com a natureza humana em torno da propriedade privada, e então prevalece a crença no aparato coercitivo legalista da redistribuição forçada sem prévio consentimento [4], supostamente em favor de despossuídos que, diga-se de passagem, são cada vez mais incentivados a verem a riqueza alheia, a capacidade de consumo e o sucesso econômico, como ofensas pessoais. A inveja então ganha cada vez mais força em uma sociedade onde quem não produz é mais incentivado do que quem produz.

Sem a propagação da inveja como meio de impulso para uma cobiça voltada à violação do outro por simplesmente possuir , não haveria qualquer espaço para ideais de “justiça” em torno das taxações, evidenciando uma moral coletivista coercitiva que explora a deficiência para aceitar a prosperidade individual, que não aceita a liberdade e a meritocracia, apelando para punir o sucesso alheio como forma de compensação que nunca se satisfaz.

Tal fenômeno político e social atende pelo nome de socialismo e é a rejeição subliminar do mandamento que sacraliza a propriedade privada.

 

_______________

Notas:
  1. A sociedade do Decálogo está baseada na propriedade familiar. Não é comunal, como em estágios mais primitivos da humanidade. Os elementos destacados dizem respeito ao que é privativo, de responsabilidade determinada e delineada por famílias;
  2. Idiota vem de “idiotes”, cuja raiz “idios” em grego, significa “o mesmo”;
  3. Lembrando a raiz do termo invidere para destacar a cegueira peculiar à inveja;
  4. Embora se apele ao “contrato social” onde o suposto assinante fica a mercê de decisões “legitimadas” por representantes eleitos por uma relativa maioria.

 

 

 

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *