Do alto da montanha acordei com meus amiguinhos silvestres e eis que um jovem bocó atormentado entrou em minha caverna com a seguinte aberração:

– Bom dia mestre Abdoral! Grande fonte de conhecimentos, sempre faço das suas as minhas palavras, por causa da inefável sabedoria que habita em vós…Ó grande homem de Deus, pastor e mestre!

E assim foi derramando elogios que cada vez mais se pareciam com bajulações… Logo após pedir apoio a um projeto político, tive que o interromper para lhe falar que há dois tipos de elogios:

O primeiro é raro e consiste na mais pura e sublime admiração cedida, sem nada esperar. Funciona como um amor platônico e se permite externar sentimentos autênticos para com o outro, sendo pura admiração em si. Este elogio também pode ser notado quando serve de referência para quem deseja encontrar inspiração no próprio viver. Ao perceber que alguém é extraordinariamente hábil ou virtuoso em algo, e que tal condição o inspira para bons pensamentos e boas ações, é natural o elogio. Também acontece quando olhamos um ente querido se esforçando em algo e conseguimos enxergar a virtude do desenvolvimento humano. É quando uma mãe elogia um filho que está aprendendo a ler enquanto comete erros que fazem parte do processo de aprendizado. É quando expressamos amor as pessoas do nosso círculo íntimo como as natureza as fez e não como as idealizamos. De alguma forma, aprendemos a ama-las como são e começamos a trabalhar as dificuldades evidenciando as conquistas, por meio de elogios, por menores que sejam, reconhecendo a benção do viver cada momento, de celebrar a superação assim como o ato de viver em si. É o elogio ágape.

O segundo tipo de elogio é este que fizeste a mim. Tão somente para massagear o meu ego visando obter uma abertura comigo objetivando um desejo pessoal que sequer tens interesse em me revelar na integralidade. Estás cobiçando o meu apoio político e não simplesmente em reconhecer supostas virtudes que tenho. Bem sei que é muito provável que, se me disseres tudo o que se passa na tua cabeça, nesse projeto político, o desprezarei. Por si só este elogio é uma afronta à minha inteligência. Trabalhaste como o diabo tentou ao Senhor, a fim de me converter a um caminho para tua satisfação pessoal, enquanto sou tratado como um idiota para a servidão.  Este é o elogio de gente mesquinha, falsa, invejosa, que tem um conceito de si mesmo sempre muito acima do que realmente é; teu elogio é uma fraude que visa manipular o elogiado para as coisas que cobiças. Trata-se de um elogio meramente político, de coisas questionáveis. Neste tipo de elogio também encontramos aquela situação quando alguém “enche a nossa bola” sobre algo infeliz que estamos fazendo (e não percebemos) e que espera assim mais motivação de nossa parte para continuar a nossa auto destruição. É o elogio que nos ilude até um grave transtorno como instrumento de manipulação para que o nosso circo pegue fogo. Enquanto nos perdemos em nossas próprias ações, ouvimos um “você é top!” ou “você é show!” e então, quando nos damos conta, o dano está feito. Tem gente que se diverte vendo a infelicidade alheia travestida de bem estar. E como isso acontece em redes sociais, sobretudo em pessoas com necessidade de auto afirmação que se expõem postando a própria imagem em momentos visivelmente constrangedores sob “curtidas” de quem na verdade está se divertindo com o ridículo. É o que chamo de “elogio diabólico”.

Chega! Aparta-te de mim!

 

 

 

 

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