Taleb conceitua um “Cisne Negro” [1] como um evento com três características elementares: é imprevisível, tem consequências impactantes e após sua ocorrência, criam-se formas de torná-los menos aleatórios. O “Cisne Negro” mais conhecido (e dramático), para ilustrar o conceito, foi o ataque terrorista de “11 de setembro” nos EUA.

As manchas de óleo que vem atingindo o litoral nordestino, pelo menos, desde o final de agosto, parecem chegar um tanto próximas ao temor em torno do conceito tabeliano, se forem considerados os possíveis impactos nos negócios envolvendo atividades de pesca e de turismo na região, sobretudo para os segmentos de hotelaria. Além disso, há efeitos no meio ambiente que podem ser incalculáveis, em se tratando de uma área repleta de locais de reprodução e recifes de corais.

É cedo para avaliar consequências em torno do evento ser um “Cisne Negro” do Taleb, mas é razoável imaginar, de imediato, alguns impactos em hotéis, pousadas e outros serviços ligados ao turismo, enquanto se pensa imediatamente em praias poluídas. Aqui o termo “poluídas” tende a ganhar uma dimensão muito além da realidade, mas não deixa de ser uma preocupação para quem explora negócios típicos do verão e não sabe se o processo de chegada de manchas está no fim ou se trata apenas de um começo; é preciso aguardar mais estudos a respeito. É um exagero falar em praias impróprias para o banho, porque os registros do Ibama [2] são de oleadas que denotam determinada incidência de manchas em pequenas quantidades, quando considerada a área atingida; em suma, as praias, em geral, não estão tomadas por óleo cru, longe disso, embora o problema seja relevante e de cuidados emergenciais. O vídeo abaixo, nesta matéria, parece sugerir uma enxurrada de petróleo, mas são casos pontuais. O melhor é o “caso a caso”.

A partir do momento em que reservas em massa forem canceladas, perdidas (por clientes que desistiram da viagem e não podem recuperar o que pagaram) ou remarcadas, gerando contratempos com a gestão de materiais de consumo (muitos deles perecíveis), dependendo de como foram feitas, se pode falar em “Cisne negro”. Se as manchas atingirem determinadas localidades de reprodução e/ou pesca, como na foz do São Francisco, pode impactar centenas ou milhares de empreendedores de pesca. Milhares de famílias que vivem da pesca seriam prejudicadas. Voltando para o setor turístico, um forte choque na demanda pode gerar um efeito em cadeia em outros segmentos, como os de mergulho, de serviços gastronômicos e de entretenimento.

Um Cisne Negro” é um evento devastador e não descartável, por enquanto. Como lidar com o atual cenário? Tentar propagar, por simples marketing, que o pior já passou ou que as praias não foram atingidas, como vi em um relato de um prefeito pernambucano, pode até atrapalhar uma boa gestão de um gabinete de crise, tirando o foco no tratamento intensivo de algo que não se sabe a intensidade e a duração, além de que não vai convencer turistas sobre o que, de fato, está ocorrendo. Vivemos em uma era onde informações fluem rapidamente e de diferentes fontes quase sempre autônomas e sob diversos interesses. Um turista que vê um relato de um prefeito ou empresário de turismo, vai checar outras fontes, não necessariamente íntegras, e este dilema faz parte do problema. O discurso meramente político, nesses momentos, atrapalha ainda mais o tratamento de uma questão que exige transparência e técnica.

Intensificar o que já está sendo feito é uma boa estratégia; refiro-me a mutirões comunitários para remover as manchas e aguardar na expectativa de que o fenômeno esteja no final, eis a parte que gera a maior ansiedade; não se sabe exatamente o tamanho do problema, nem sua duração.

Penso que manter os turistas bem informados sobre os trabalhos de limpeza com vídeos e fotos, com parecer de especialistas é a melhor forma de tratar a questão. Transparência total é algo sempre muito bem visto em qualquer ramo e no turismo isso é imperativo.

Sobre o que pode ter ocorrido quanto a origem do óleo, a Petrobras soltou uma nota reforçando que o material não foi extraído no Brasil:

“Reforçamos que o óleo nas praias do Nordeste não tem origem nas nossas operações. A análise das amostras realizadas pelo nosso Centro de Pesquisas atestou que o petróleo cru encontrado em praias do Nordeste não é produzido no Brasil nem comercializado ou transportado pela companhia… O nosso Centro de Pesquisas (Cenpes) mantém um banco de resultados das análises geoquímicas realizadas em todos os nossos campos produtores de petróleo. Quando há a necessidade de investigar a procedência de uma amostra de óleo, nossos pesquisadores comparam os resultados deste banco com o da amostra, no que é chamado de geoquímica forense. Este foi o trabalho realizado a partir do óleo coletado nas praias do Nordeste.[3]

Já o Ibama informou que “em análise feita pela Petrobras, a empresa informou que o óleo encontrado não é produzido pelo Brasil. A investigação da origem das manchas de óleo está sendo conduzida pela Marinha, enquanto a investigação criminal é objeto da Polícia Federal.” [4]. A UFRJ “trabalhando com imagem de satélite, computação de alto desempenho e modelo matemático” [5], concluiu que o óleo foi despejado em águas internacionais na fronteira entre Sergipe e Alagoas, em uma área distante da costa brasileira entre 600 km e 700 km. Não me parece um acidente. O petróleo não sendo de origem extrativa do território brasileiro, de onde então foi captado?

A Época publicou uma matéria afirmando que “a Petrobras encaminhou um laudo sigiloso ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em que aponta a hipótese de ser venezuelano o petróleo que contaminou o litoral nordestino.” [6]. Sempre sou muito reticente a matérias de mídia convencional, sobretudo quando falta documento para atestar uma afirmação, mas não de ser intrigante cogitar o petróleo como sendo venezuelano, considerando o atual contexto político no Brasil, marcado por um radicalismo, cujo lado perdedor nas últimas eleições tem fortes ligações com a ditadura sanguinária de Maduro e quando a extração na Venezuela é totalmente realizada pela estatal PDVSA, que emitiu uma nota [7], negando ter relações com o fato.

Se for um despejo criminoso, então aumenta a probabilidade de ter sido feito para sabotar a economia brasileira, em meio a dois acontecimentos importantes: a abertura do verão que, para os nordestinos, é um período estratégico e, em escala macroeconômica, tentar atrapalhar o leilão do pré-sal.

Sendo criminoso, forças políticas arruinadas em um projeto de poder que fracassou, em oposição, causando sérios danos a uma população, sabotando a economia, semeando o terror, não é uma novidade na história e então fica no ar a pergunta: a quem interessaria um “Cisne Negro” Nordestino?

 

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Notas:
  1. A lógica do Cisne Negro. De Nassim Nicholas Taleb;
  2.  Balanço do Ibama atualizando em 18/10/2019 19h27
  3. Recolhemos mais de 200 toneladas de resíduos de óleo nas praias do Nordeste, que não tem origem em nossas operações;
  4. Manchas de óleo no litoral do nordeste;
  5.  Pesquisadores da UFRJ detectam origem de óleo no Nordeste;
  6.  Laudo sinaliza que mancha de óleo no Nordeste pode ser petróleo da Venezuela;
  7. COMUNICADO DE PRENSA

 

 

 

 

 

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