Do alto da montanha fui incomodado com os passos de um brucutu, que mais parecia o Schwarzenegger na época em que concorria no fisiculturismo, com um 17 tatuado no ombro esquerdo e um olhar meio perdido.

Sem entender bem o que o “mito” fez na China, queria me ouvir a respeito. Disse ao rapaz que o primeiro bom sinal de um indivíduo se libertando da condição de primata em política é estar acometido de uma melancolia típica a que percebi nele. “Anime-se rapaz! Não quero crentes, mas me ouça…”. Foi uma longa e destruidora conversa.

O bom rapaz entrou um pouco desolado da caverna e saiu em “terra arrasada”. Disse a ele que a maior economia regida por um governo de partido único e comunista, que não admite que se fale mal de políticos (sob o risco de ser preso) da cúpula do partido, ou seja, se trata de uma ditadura de terceira via pelo modelo de governança que promove globalismo (primatas da política sempre o confunde com a “globalização”).

Conversa vai, conversa vem e falei para ele de um sistema de poder que distorce mercados com expansão monetária e manipulação cambial e faz Big Brother Estatal não apenas com o próprio gado, mas também no planeta através de imensas companhias de altíssima tecnologia que são controladas por membros do partido [1]. Falei ao jovem desolado que tudo isso deixa de ser importante na prática de Bolsonaro, considerando a dissonância cognitiva do discurso, se este mesmo sistema de poder político adota economia de mercado, sempre em termos parciais, claro. Então, o bolsonarismo, que se diz anticomunista (vale lembrar, para ser genuinamente assim tem que ser em vieses político e econômico) não está preocupado com os males que um sistema de poder avesso às liberdades políticas, sempre de terceira via, pode fazer nas sociedades mundo afora, usando a economia de mercado, naturalmente tendente à globalização, para fazer globalismo [2].

Se tiver abertura de mercado, está valendo… Não é isso? Os atos na China deixam isso bem claro. Por quê? Imagino que Bolsonaro espera da China parcerias que façam a economia brasileira crescer mais e assim garantir sua reeleição em 2022. É aquela velha máxima de que os fins justificam os meios…

O moço ainda mais amargurado me pediu um exemplo para ilustrar a questão em um contexto mais familiar… Pois bem, os atos de Bolsonaro em Pequim me suscitam uma outra questão ainda mais perturbadora (aos bolsonaristas): Se o Maduro abrisse o mercado da Venezuela e continuasse sendo um ditador, com uma Venezuela próspera pelas via do mercado, o “mito” anticomunista iria lá, reverenciar o sistema de poder? Se não, então por que a China tem tratamento diferenciado? Se sim, então, é ético tolerar uma ditadura na política? O mesmo cabe questionar se em Cuba os Castros acelerassem o processo de abertura. Certamente, Bolsonaro seria muito mais resistente a tais coisas, devido ao contexto da ignorância que seus eleitores primatas têm em relação aos crimes que os políticos do Partido Comunista da China, enquanto os efeitos de prosperidade da economia de mercado ajudam a encobrir.

Juntando isso ao conhecimento raso, embora suficiente, para serem avessos (bolsonaristas) a uma aproximação com regimes totalitários mais familiares, em especial com o rótulo de “esquerda”, voltando a pensar em uma eventual Venezuela, digamos, mais “liberal em economia” ou em uma Cuba nos mesmos moldes hipotéticos, penso que a coisa certamente seria, em primeira abordagem, sob outro olhar. Vale aqui, novamente, lembrar o peso da estupidez e/ou ingenuidade de “clientes” (de Bolsonaro) mais apaixonados; se eles tivessem um mínimo de ciência das maldades políticas e keynesianas realizadas na China, sob ponto de vista de uma moral comum que se diz “conservadora”, na mesma proporção do que possuem sobre os movimentos políticos esquerdistas na Venezuela e em Cuba (que também gostam de keynesianismo!) penso que Bolsonaro não teria a mesma disposição para reverenciar o sistema de poder em uma visita oficial. Porém, jamais se deve subestimar o poder de uma dissonância cognitiva em meio a doutrinação da massa (Bolsonaro é um mestre nisso em redes sociais) para aceitar contradições tão escandalosas como se fossem avanços de moralidade e bom senso, pois bastaria que tais regimes fossem concebidos como não sendo de esquerda (rótulo usado apenas para enganar a massa) para se tolerar uma ditadura na política em troca de uma vigiada liberdade, com empresários aos pés do sistema de poder político, em parcial economia de mercado. Um termo técnico para isso? FASCISMO.

 

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Notas:
  1. Ver matéria da Bloomberg: Jack Ma Confirmed as Chinese Communist Party Member
  2. Jack Ma, o homem mais rico da China, co-fundador da Alibaba, uma imensa companhia de e-commerce. Jack Ma, membro do Partido Comunista da China, único e que é o governo, lembrando aqui moldes nazifascistas. Não há tolerância para oposição, outra aspecto nazifascista. Na China, muitos empresários são membros do Partido e percorrem o mundo expandindo negócios também a serviço do… PARTIDO! Outro elemento comum ao nazifascismo. O Partido Comunista da China desenvolveu um modelo de expansão do poder no mundo (globalista) através de companhias, tais como a Alibaba, a Huawei, esta última combatida nos EUA por suspeita de usar celulares para fornecer dados ao governo (partido) chinês. É um novo estágio do fascismo, coisa de “gênios do mal”. E o Bolsonaro foi lá, fazer negócio com os chineses.

 

 

 

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Comentário

  1. Leonardo, de vez em quando visito o teu blog e não sou chegado a fazer comentário, mas este texto está demais! Resumiu em poucos parágrafos muitas contradições do populismo bolsonarista. E o conceito de fascismo ficou muito preciso. Parabéns!

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