Foto Ilustrativa: Philippe de Champaigne

Santo Agostinho de Hipona (354-430). Identifiquei-me imediatamente com as Confissões e cs diálogos com Adeodato [1] em De Magistro (Do Mestre)  onde há uma belíssima síntese: “Cristo é a verdade que ensina interiormente”.

Outra leitura indispensável do maior ícone da Patrística é De civitate Dei (“Cidade de Deus”): filosofia e teologia em uma resposta aos pagãos que culpavam o cristianismo pela bancarrota do Império Romano do ocidente, inspirada nas teologias bíblicas de Paulo e João, o que remete ao arranjo das “duas cidades” (carnal e espiritual) e seus equivalentes planos terrenos. O desapego a Deus desemboca no pecado e na morte; é a “cidade dos homens”. No final da história, Cristo será o juiz de tudo e todos: a fé triunfa.

A autocrítica de Agostinho no mergulho nas dores do passado costuma prender leitores nas Confissões do outrora professor vaidoso e maniqueísta que após ser catecúmeno em Milão, na igreja de Santo Ambrósio, assim alegrando dona Mônica, mãe, devota e depois santa. Convertido, batizado junto com o filho adolescente, iniciou uma carreira de prelado até se tornar bispo de Hipona cujos sermões impressionavam pela capacidade de análise e reflexão. As Confissões vieram na fase posterior, quando então decidiu abrir o coração e contar suas aventuras intelectuais (e sexuais) antes da conversão, em uma caminhada pessoal expondo tudo aquilo que o afastava do que passou a compreender, na maturidade cristã, acerca de uma autêntica vida espiritual, algo que até pode ser confundido com uma espécie de auto flagelo mental, no entanto, estava meditando sobre seu passado indecoroso, de sedutor, egocêntrico, e assim acabou, penso, encontrando uma forma de amadurecer uma teologia que se tornou a ortodoxia sobre o tema do pecado. Para Agostinho, pecar é uma consequência do homem desligado de Deus; da criatura que dá as costas ao Criador, da rejeição ao bem supremo; em suma, é a negação do amor. Tal desenvolvimento seria aprofundado em De civitate Dei. Envolto em uma visão de fé baseada em autocrítica, em Agostinho a verdade fluiu em um processo endógeno; nasce de dentro para fora. A teologia agostiniana se desenvolveu em tempos dramáticos, em plena crise de decadência do ocidente formatado na ideia de Pax Romana. Seus escritos representam uma síntese da ortodoxia que se estabeleceu na cristandade ao longo dos quatro primeiros séculos da fé cristã.

Influencio-me mais por conta de elementos existenciais. Agostinho e sua teologia estão amalgamados. O tema da graça desenvolvido com a problemática das responsabilidades do ser cristão em uma sociedade cada vez mais devotada aos prazeres materiais, o que, muitas vezes, é caricaturado pelo puritanismo que lhe é atribuído. É preciso sempre estar vigilante  para não se deixa levar pela concupiscentia [2], reproduzindo um clássico ensinamento apostólico. Ao centrar-se na teologia paulina, sua interpretação foi determinante na  controvérsia com Pelágio.

 “O nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em Deus o descanso” [3], assim resume a sua jornada pecaminosa contemplando as Escrituras nas Confissões. Agostinho se expõe, conta segredos de si mesmo  e infames para fazer teologia prática, “no meio do povo”, como diria Karl Barth: não há catequese sem introspecção; não há crítica sem auto crítica; não há libertação espiritual sem a busca do “eu interior”; não há conhecimento sem humildade para ouvir a voz de Deus; não há robustez na razão e na fé sem consciência de carências morais e debilidades espirituais. Há um misto de objetividade na fé ortodoxa com subjetividade romântica no exercício da fé e no auto conhecimento. Percebo traços do que se pode chamar de um “proto existencialismo” filosófico com um viés cristão, lembrando o legado de Soren Kierkegaard, que séculos mais tarde viria a ser considerado “pai” desta filosofia; não por acaso educado em uma tradição protestante luterana que se distanciou do elo entre vida espiritual e material, e então caída em formalismos e hipocrisias, despertou a criticidade do jovem dinamarquês seguindo uma linha teológica que chegará até um controverso monge agostiniano: Martinho Lutero.

Experiências introspectivas, um ato derradeiro, imperfeito, impreciso, extenuante, por um complexo processo de aprendizado não pautado pela fria razão, mas, sobretudo, pelo mistério da sabedoria divina é, em Santo Agostinho, pautada por um juízo refinado, sempre mediante o aparato da fé. A força das palavras não consegue mostrar nem sequer o pensamento de quem fala” [4], porque a palavra tem uma função sintética e não é definitiva em si mesma. A fé tempera uma relação de sinais; é uma redução de teores que viabiliza um caminho para entendimentos sobre o mundo interior, tudo para um encontro com a verdade, que só vem de Deus. Todo o esforço desse encontro é um mistério que se torna visível e humanamente transformado pela palavra como síntese, ainda que imperfeita: é a condição humana, “ver em parte”, como escrevera Paulo aos coríntios.

Quando Lutero publicou as famosas 95 teses, diretas e breves, fomentou um processo crítico como um convite à reflexão de todos, a princípio, sem quaisquer interesses separatistas; tão somente, o reformador alemão propôs um mergulho da Igreja em busca de verdades que cabem a cada cristão em seu foro íntimo; nada é mais agostiniano! Também não é por acaso que um dos mais importantes teólogos do século XX, Paul Tillich [5], tenha considerado Lutero um “mestre da redução” [6], na elaboração de sínteses, seguindo o melhor estilo agostiniano.

Vejo os escritos de Agostinho carregados de uma paixão pela busca e comunhão com o Criador; são contagiantes por se pautarem em experiências pessoais que muitos religiosos do nosso tempo dificilmente compartilhariam publicamente. Agostinho enfrenta o passado sem restrições, com a segurança que, pela fé, dispõe, na busca de uma constante auto compreensão do passado em uma tênue linha entre o exercício intelectual de elaborar juízos de valor sobre si mesmo com base na verdade que entende ser absoluta em Deus e a imutável graciosidade em Cristo, o centro do amor derradeiro de suas confissões, até o Cristo como modelo de santidade, de moral, a ser imitado, seguindo a tradição do apóstolo São Paulo [7], rumo aos maiores propósitos que dão o grande sentido da vida cristã:  amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo  [8]. Agostinho aplicou tais princípios em sua própria existência, como padre, bispo, articulador da vida monástica, teólogo, voluntarista, escritor, filósofo e pregador. Deixou uma congregação determinada a seguir seus passos de desprendimento material em favor dos mais necessitados.

Com o meu lado agostiniano que pulsa, para entender o que se tornou ortodoxo na fé cristã nos quatro primeiros séculos, é imprescindível conhecer o pensamento dele, inclusive para compreender Lutero e o protestantismo clássico. Grande privilégio ter visitado o local onde o bispo Santo Ambrósio acolheu Agostinho em Milão, logo após a conversão. Onde hoje está o Duomo, pode ser encontrado o Battistero di San Giovanni, onde o jovem ex-maniqueu e ex-professor-profano-namorador teria sido batizado. Logo abaixo das vigas da catedral permanece um sítio arqueológico como traço da história em um misto da eterna fé, dos tempos da Patrística, penetrando em minhas memórias de leituras cristãs. É a Itália, de cidades-museus que nos conectam a raízes profundas e quase sempre esquecidas.

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Notas:
  1. Filho de Agostinho com uma concubina, antes de se tornar padre. Em De Magistro se demonstra o brilhantismo de Adeodato e a empolgação de Agostinho com a inteligência do filho adolescente que morreria dois anos depois, aos 17 anos.
  2. Concupiscência, um desejo interminável seja por bens materiais (móveis) ou de conotação sexual, ambos pelo orgulho. É um tema recorrente nas obras de Agostinho.
  3. Confissões. Capítulo I.
  4. De Magistro. Capítulo XIII.
  5. Um dos mais lidos teólogos protestantes do século XX.
  6. Em História do Pensamento Cristão.
  7. I Coríntios 11.1.
  8. Marcos 12.30-31.
  9. Imagem de Milão nas Mãos: As igrejas de Milão e seus ‘tesouros’ 

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