Profissionais de serviços contábeis e de TI estão acostumados no Brasil, por décadas, a viverem de ofertar serviços que apenas são contratados por causa de uma cultura de coerção e ameaças que o estado impõe aos empresários. Vivo neste mercado há quase 30 anos e o que mais observo é um ambiente de narrativas e discursos corporativos vazios, combinados com ações de marketing que prometem cuidar das dores de clientes com “soluções” muito dependentes de problemas causados por governos e legisladores, onde só há burocracia e predomina alocação indevida de recursos. Empresas de contabilidade e de TI operam onde quase tudo que ofertam é antieconômico, sob apelos com base na coerção, na obrigação de fazer, por uma cultura de “terrorismo fiscal” que intenta inculcar o medo e estigmatizar os empreendedores que resistem ou não conseguem se adequar aos modelos de “compliance” do manicômio tributário nacional.

Este é o Brasil que muitos profissionais de TI e contábeis acreditam que tem como se manter por muito tempo, com aberrações invasivas em torno do Sped e do eSocial, reinando em uma mentalidade tosca propagada por influenciadores. Não há nada de novo debaixo do céu, pois é o Brasil que foi forjado desde a era “Estado Novo” nos anos 1930, quando os últimos  lampejos de livre iniciativa de grande porte foram destruídos pela mentalidade fascista de Vargas, passou pela expansão de gastos na era JK, pelo consequente aumento do aparato coercitivo e compulsivo nos governos seguintes, tendo como destaque a era da ditadura militar (1964-1985), passando a uma nova perspectiva na era FHC (1995-2002), que trouxe à baila a Lei 9.989/2000 como um instrumento do Programa de Modernização das Administrações Tributárias [1].

O governo FHC serviu então de preparação para o que viria na era petista: a consolidação de um Big Brother Fiscal. Assim o Sped foi formalizado por Lula da Silva em 2007 [2] e em 2014, o eSocial veio ao mundo fascista tupiniquim [3] por Dilma Rousseff. E eis que gerações de profissionais de Contabilidade e de TI foram convertidas em meros zumbis da Receita Federal, escravos dessa visão de sociedade paupérrima de livres trocas, subserviente a um extremo aparato de auditores parasitas do fisco. E nessa cadeia de negócios viciados enriqueceu uma pequena elite de lobistas, todos oportunistas, gente da pior qualidade, apoiadores de pilotos do fisco e manipuladores nas redes sociais. Eles são os instrumentos mais estratégicos do “fascismo digital” que se tornou uma realidade compondo um mercado de serviços contábeis e de TI totalmente distorcido, como mencionei no início deste texto, por estar baseado não na vontade de consumidores, empresários e sim na obrigação de cumprir normas em um ambiente de legislação pensado para gerar insegurança jurídica, forçando a aquisição de “soluções” mediante o medo de ser fiscalizado, autuado e multado.

Os mercados de Contabilidade e de TI são, portanto, forjados em elementos de uma visão mais anticapitalista no sentido da liberdade econômica. Trata-se de uma anomalia do Custo Brasil jogado por players viciados em vender coisas que seriam descartadas se não existisse a coerção em leis, normas e ameaças pelo aparato compulsivo do estado. Quase tudo nesta mentalidade doentia está intoxicado pela ideia de que a burocracia do fisco promove empregos, é oportunidade, sem levar em conta a relação custo/benefício da coisa degenerada, em face do meio produtivo.

No entanto, desde pelo menos 2013, quando o petismo iniciou uma crise profunda nos escândalos do capitalismo de laços (Lava Jato), abriu-se um espaço para uma visão comum menos positivista e mais laissez faire em mercados de trabalho, ainda discreta, contudo cada vez mais atuante na sociedade e o meio contábil, penso, não escapará desse processo, embora tenha enormes dificuldades para compreende-lo dada a educação socialista que seus profissionais receberam. Junto com a crise petista veio Bolsonaro, que pegou carona e representou um golpe na dominância esquerdista e, embora o agora presidente, como todo político que está no topo do poder, não seja e não possa ser um bom exemplo de defensor de uma autêntica liberdade de mercado, tem em seu governo influências nesse sentido que começam a agir  em torno de problemas crônicos do estado sobre a economia brasileira, juntamente com forças liberais que operam no Congresso que, em um passado recente, seriam consideradas utópicas do ponto de vista da capacidade de fazer militância e de ter alguma credibilidade perante uma população que ainda está bastante domesticada, digo educada, no estatismo, com todas as doenças relacionadas: crença deliberada em intervencionismos, protecionismos e diversas formas de coletivismo anticapitalista que violam a liberdade e caem na dissonância cognitiva de ver a coerção do estado como forma de se praticar justiça.

Pode-se cogitar  agora uma possível abertura da economia brasileira e uma discreta desconstrução de alguns elementos tóxicos da burocracia fiscal. E não seria de outra forma, lenta, gradual, sujeita a sabotagens dos que querem conservar as coisas do estatismo, inclusive em entidades caducas, tais como CFC, CRC, SESCON, Fenacon, Fenainfo e Brasscom. Se há alguma mudança por mais liberdade entre agentes econômicos em curso, penso que está em bases advindas de segmentos de uma sociedade cansada de servir a um aparato de parasitas estatais (governos e demais entes) e privados (agentes que vivem em conluio com governos e políticos). Seria uma afirmação natural da economia real, emergindo forças produtivas mais baseadas na espontaneidade, na informalidade, na competitividade e na sagrada LIBERDADE, sem apelar para legalismos do estado e assim, penso, contadores e profissionais de TI, tão acostumados com a cultura de serviços burocráticos quase inúteis ao meio produtivo, terão que começar a aprender mais sobre esse fenômeno, identificando seu real valor e o seu funcionamento, ou seja, seus modos de ser um tanto subversivos ao aparato estatal, desde os ditos agentes “informais” até os negócios menos obstruídos, passando pelos que seriam transformados, pelo liberalismo econômico em curso, digo, menos “regulados”, para oferecerem serviços muito além de exigências burocráticas do fisco, isso se quiserem agregar mais valor aos seus negócios e se tornarem relevantes na sociedade.

Esta suposta “nova era”, não é uma construção política de cima para baixo, como bolsonaristas parecem propagar, partindo de um líder como Bolsonaro. É um processo de baixo para cima, onde Bolsonaro recebeu uma certa influência, e enquanto segue para uma eventual consolidação, não será facilmente digerido pela maioria de profissionais de Contabilidade e de TI, acomodados com a cultura de vender burocracia em facilidades para dificuldades inventadas. Creio que apenas uma minoria perceberá este sutil processo de mudança e assim, transformará suas empresas contábeis e de TI em agências de apoio à inovação e ao empreendedorismo, se distanciando de comportamentos áulicos e arcaicos com o fisco. A outra parte, a manada que opera nas entidades do mainstream, permanecerá esperançosa no velho fascismo digital, confundindo coerção com justiça, esperando por ações de líderes parasitas, reclamando bastante de preços de serviços que viraram commodities (já há sinais claros dessa queixa),  e como tem se mostrado incapaz de aprender alguma coisa com a ética da liberdade econômica em curso, reagirá brutalmente para tentar dar sobrevida ao velho estado brasileiro de regulações e controles centrais do fisco.

Em suma, essa possível “nova era” para serviços contábeis e de TI contemplará profissionais mais pautados aos interesses da eficiência econômica de clientes em uma visão global; uma era laissez faire para profissionais de serviços com muitas inovações, sob um ambiente mais competitivo, mais aberto ao investimentos estrangeiros, ao comércio exterior, às práticas contábeis internacionais e menos enrijecido com escolas de pensadores contábeis que pararam no tempo, positivistas, varguistas, intervencionistas, decadentes.

 

 

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Notas:
1. YOUNG, Lucia Helena Briski. Sped: Sistema Público de Escrituração Digital. ed. Juruá: Curitiba, 2009. Ver também Lei 9.989/2000.
2. DECRETO Nº 6.022, DE 22 DE JANEIRO DE 2007.
3. DECRETO Nº 8.373, DE 11 DE DEZEMBRO DE 2014 

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