Uma deficiência para lidar e aceitar qualidades e posses de algo ou outro semelhante. Do latim invida ou invidere. Sufixo negativo (in) sobre  “vida” ou “videre”, no sentido inicial de “negar o que se vê”, olhar contrariamente, observar incondicionalmente com ar de reprovação.

O invejoso não enxerga nada além de si mesmo, estando assim em uma condição de idiotes [2]; só contempla o próprio ego, exercendo juízo sobre o outro apenas pela sua própria (e sempre limitada) dimensão, por certo incomodado com o que porventura demonstre atributos e apropriações que perceba ser melhores, superiores, de alguma forma, quando os compara consigo mesmo. Na medida em que esse olhar é tão somente regido por uma concepção para massagear o ego, satisfazendo sua invida como  “visão” particular para repulsa sobre o outro.

Sendo incapaz de lidar com uma realidade que evidencia algum valor, condição ou posse alheia que o incomoda, acaba preso a um sentimento que, ocasionalmente se externa através de dissonâncias, fantasias, quase sempre travestidas de “críticas”, criando narrativas com o único intuito de distorcer fatos e depreciar o invejado. A crítica em si não está imediatamente associada à inveja, quando realizada com fundamentos razoáveis que venham a estabelecer questionamentos sérios e impessoais.

A toxina da inveja, seja no foro íntimo ou externada por opiniões e/ou atos, foi sintetizada de forma genial por Tommaso d’Aquino: tristitia de alienis bonis, “tristeza em relação às coisas boas dos outros”.

A inveja como uma cegueira egocêntrica está ilustrada magistralmente por Dante Alighieri na (Divina) Comédia, quando no purgatório (Canto XIII), os invejosos estão com os olhos costurados [3] com fio de ferro:

ché a tutti un fil di ferro i cigli fóra
e cusce sì, come a sparvier selvaggio
si fa però che queto non demora.

A tristeza em relação às coisas alheias que são admiradas, consiste no primeiro passo para se chegar rapidamente a outro sentimento doentio: a cobiça, desejo incontrolável em possuir o que diz respeito a outrem por expropriação. De um sentido que evidencia uma moléstia do espírito, então pode haver uma evolução que desenvolve o ato, a materialização, que vai fazer uso da violação do outro, da propriedade ou no que tange ao particular, privado, evidenciando um comportamento tão danoso para a humanidade, pela visão judaica, que foi inserido no Decálogo:

Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. [1]
Êxodo 20:17

Lamento informar aos que gostam de cobiçar ou invadir o que é dos outros: A propriedade privada está consagrada nos Dez Mandamentos.

Talvez alguns tentam “desqualificar” a Escritura Sagrada por inserir a mulher como patrimônio, no entanto o conceito não se limita a posse de coisas materiais; vai até o que está no universo de valores, relacionamentos, afetividades, enfim ao imaterial no meio particular de uma pessoa.

A inveja é um “insumo”, um ingrediente ético para a cobiça que, se não for tratada, degenere o ser até a prática, as ações. Serve de sensor de alerta para nos avisar que precisamos dar mais atenção aos valores e as carências que cultivamos para o bem de nossa própria saúde espiritual.

No entanto, a inveja e a cobiça externadas em atos constrangem pelo senso de moralidade que o ser humano tem sobre o que tão-somente lhe diz respeito e deve ser considerado como privado: os bens materiais e imateriais, além das pessoas que preza e tem compromissos fazem parte de coisas a serem respeitadas. E se a cobiça pode ser uma coisa muito incômoda, constrangedora para quem a externa, então foi inventada uma forma de faze-la parecida até mesmo com a justiça. Tal instrumento pode ser observado facilmente no cotidiano, de forma sutil, quase imperceptível, mascarando desejos do mais mesquinhos, em ares de satisfação quando a riqueza alheia é vista como “pecado”, e então passa a ser “legalmente” violada.

O socialismo é um disfarce que o humano encontrou da inveja e da cobiça; é uma máscara da política para se esconder de seus sentimentos e desejos mais mesquinhos como uma unidade autônoma enquanto coparticipe da vida social.

Quando um despossuído invade a propriedade de quem cometeu o “pecado” de acumular patrimônio e assim age por estar “legitimado” por um aparato estatal legalista que impõe uma legislação, em nome de uma abstração coercitiva, compulsiva e arbitrária chamada “justiça social”?  A máscara da inveja e da cobiça opera quando a geração de valor econômico é indigesta para quem tem dificuldades em lidar com a liberdade econômica. E eis que a taxação compulsória passa a ser o meio comum da máscara onde a inveja e a cobiça se escondem.

Taxações diretas ou embutidas em tudo o que se consome é o tipo de celebração coletiva que se tornou um lema na vida de muitos dentro da matrix do Estado, o aparato coercitivo legalista da violação e da redistribuição forçada, atropelando o prévio consentimento [4], supostamente em favor de despossuídos que, diga-se de passagem, são cada vez mais incentivados a verem a riqueza alheia, a capacidade de consumo e o sucesso na vida até mesmo como “ofensas pessoais”, aqui tomando por empréstimo um pensamento de Tom Jobim.

Sob essa máscara legalista do socialismo embutido no estado democrático de direito, a inveja então ganha cada vez mais força no imbecil coletivo, em uma sociedade onde quem não produz é mais incentivado e quem produz, investe, se arrisca na coisa chamada “capitalismo”, é amaldiçoado.

Sem a propagação da inveja como meio de impulso para uma cobiça voltada à violação do outro por simplesmente possuir mais por ser mais eficiente no processo de cooperação econômica livre, não haveria qualquer espaço para ideais socialistas de “justiça” materializados hoje em taxações e regulações do Estado que não aceita a liberdade e a meritocracia, apelando para punir o sucesso alheio como forma de compensação aos fracassados. Tal fenômeno é subliminar na rejeição ao Mandamento que sacraliza a propriedade privada.

 

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Notas:
  1. A sociedade do Decálogo está baseada na propriedade familiar. Não é comunal, como em estágios mais primitivos da humanidade. Os elementos destacados dizem respeito ao que é privativo, de responsabilidade determinada e delineada por famílias;
  2. Idiota vem de “idiotes”, cuja raiz “idios” em grego, significa “o mesmo”;
  3. Lembrando a raiz do termo invidere para destacar a cegueira peculiar à inveja;
  4. Embora se apele ao “contrato social” onde o suposto assinante fica a mercê de decisões “legitimadas” por representantes eleitos por uma relativa maioria.

 

 

 

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