1. Por que preços de serviços burocráticos estão em declínio?

1.1 A toxina “Walking Dead” Contábil

Século XVIII, dois fatos: uma figura positivista do mundo político, secretário dos negócios estrangeiros no ministério do rei Dom José I entre 1750 e 1777 e um terremoto em Lisboa cuja calamidade pública sobrou para a colônia na América bancar. Reformas para financiar que o Marquês de Pombal, o homem forte do rei, decidiu resolver importando o iluminismo francês para a coroa portuguesa e, consequentemente, para a colônia na América do Sul. Para explorar a vida econômica colonial, a coroa portuguesa se impôs ampliando seu escopo entre os geradores de riqueza e esse processo iniciou uma forte burocracia forçada pelo Estado, além de incrementar a já presente cultura nefasta dos “amigos do rei”, inaugurada ainda nas caravelas de Cabral.

A maior centralização no Estado da vida econômica na era pombalina foi rudimentar, falha, com raio de ação bastante limitado; um pequeno passo rumo ao estatismo de nossos dias, longe da perversidade que é Big Brother Fiscal da atualidade, porém, tornou-se a principal herança positivista maldita que nos atormenta até hoje, um produto medonho dessa ideia de manicômio fiscal de uma sociedade cujos membros que sustentam o Estado viram zumbis e saem por aí tentando sobreviver e não mais viver. São os escravos multiculturais da pós alforria africana; servos de políticos e compadres da coroa e, depois, do Estado Republicano.

Essa toxina de um estado centralizador, com a tutela das organizações sociais nas mãos do aparato de burocratas estatais e políticos, provocou uma epidemia na mentalidade popular; por séculos se entranhou na sociedade, promovida pelo sistema de poder positivista, foi injetada nas repartições e órgãos estatais, contaminando empresas e profissionais nos séculos seguintes, sendo a matrix do comportamento dos agentes econômicos. Provocou uma doença epidêmica: a BUROCRACIA do governo e a histeria dos controles do fisco que nos inferiorizam perante o Estado como eixos reguladores, fiscalizadores e arrecadadores em seus núcleos infestados por parasitas.

1.2 Mentiram para você: “The Walking Dead” se agiganta no Fascismo Digital com Sped e eSocial

Não há nada de novo debaixo do céu… O Sped e o eSocial, muitas vezes apontados como causas de problemas do manicômio tributário, na verdade são consequências de um longo processo histórico de cultivação da mentalidade de Estado na vida em sociedade e na consequente transformação de contadores em despachantes.

Depois do pequeno passo do positivista pombalista colonial, veio a separação da coroa de Portugal, a queda da monarquia no golpe de 15 de novembro, o fracasso da Primeira República e a refundação do Estado dito “Novo” com algumas coisas bem arcaicas, outras copiadas do que se tinha de pior na Europa, pelos anos 1930, quando os últimos lampejos de livre iniciativa de grande porte foram destruídos pela mentalidade fascista de Getúlio Vargas, o Brasil passou pela expansão de gastos na era JK, pelos consequentes endividamento e aumento do aparato estatal que tomaria um novo impulso durante a ditadura militar (1964-1985).

Qual seria o “DNA” das principais “bases legais” da legislação trabalhista brasileira? Tirando o IR, criado na “República Velha” (a proclamação de 1889 foi um golpe), o que corre no “DNA” regulatório trabalhista brasileiro é o legado de ditaduras civil e militar. A CLT, inspirada na Carta del Lavoro, obra do fascismo italiano, foi instituída por um decreto na ditadura de Getúlio VargasA obrigação do CAGED foi imposta na ditadura militar, no governo Castelo Branco, que também criou o INPS, uma fusão dos “dos institutos de aposentadoria e pensões do setor privado então existentes — o dos marítimos (IAPM), o dos comerciários (IAPC), o dos bancários (IAPB), o dos industriários (IAPI), o dos empregados em transportes e cargas (IAPETEC) e o dos ferroviários e empregados em serviços públicos (IAPFESP) — e dos serviços integrados e comuns a todos esses institutos — entre os quais o Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU) e o Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS)”. Estão notando o “espírito pombalino” centralizando as coisas?

Na gestão de Castelo Branco veio o FGTS, a princípio opcional, como alternativa à indenização por tempo de serviço prevista na CLT. É aquela história do governo corrente encontrando “soluções” piores que os problemas que os governos anteriores criaram… Para não cair no conto de perda de “direitos (positivos) adquiridos”, o FGTS serviu para relativizar as coisas do manicômio trabalhista. E desde então tentam dar um jeito no FGTS, que virou, junto com o BNDES, um grande centro de atração para corruptos e compadres que querem juros subsidiados por quem produz riqueza. A Lava Jato que o diga…

Dando sequência às “maravilhas” que os militares nos deixaram como heranças, no governo Costa e Silva foi instituído o grande centro de arrecadação fascista moderno tupiniquim, mais conhecido como “Receita Federal” (1968). Os benefícios do PIS e do PASEP foram então instituídos no governo Garrastazu Médici, como medida redistributiva de rendaO socialismo da ditadura militar foi de dar inveja aos petistas..

Como consequência dos programas de benefícios PIS e PASEP, a dupla dinâmica do Estado-Babá Militar-dos-Lambedores-de-Botas, surgiu a RAIS, para também substituir a antiga RAS (essa história de substituir obrigações é coisa das antigas…), sendo uma invenção do governo Geisel, uma espécie de “Dilma de farda” ou seria a Dilma o “Geisel de vestido”? Bem, não importa, dadas as semelhanças das políticas econômicas entre os dois, em especial, na ânsia da mentalidade de monitoramento social de empresas, o proto-esocial de Geisel é a base do eSocial petista, conservado pelo antipetista Bolsonaro. Mas, voltando aos tempos dos fardados, dos porões da ditadura à democrática em vertigem, sacramentaram tudo na Constituição de 1998; uma espécie de catacumba da liberdade no Brasil, pronta para a modernidade e também para soltar os zumbis contadores dos anos 1990… As declarações digitais começaram a se intensificar, pois uma agenda social do Estado estava posta na Carta Magna e os sistemas de contabilidade então foram enormemente intoxicados pelo “Walking Dead” fiscal. Os zumbis contadores e programadores estavam migrando para a era digital…

A mentalidade que formou o “Walking Dead” Contábil passou por uma nova perspectiva na era FHC (1995-2002), que trouxe à baila a Lei 9.989/2000 como um instrumento do Programa de Modernização das Administrações Tributárias. Isto posto porque o governo FHC serviu de preparação para o que viria na era petista: a consolidação de uma mentalidade de Big Brother Fiscal. Assim o Sped foi formalizado por Lula da Silva em 2007 e em 2014, o eSocial veio ao mundo encantado fascista brasileiro pela presidente Dilma Rousseff. Tudo isso foi visto como uma galinha dos ovo de ouro na elite contábil, mas para funcionar gerando lucros,  carecia de um imenso gado contábil, ou seja, indivíduos manipulados e bem educados, com mestrado e doutorado, pós graduados em bizarrices tributárias, para espalhar a ideia de que a burocracia na era digital seria uma grande oportunidade para contadores. E eis que surgiram termos como “empreendedorismo tributário”, uma coisa tão ridícula pela contradição que ao ouvi-la pela primeira vez de um douto “pensador do Sped” tive uma crise de riso.

Esse “empreendedorismo tributário” carecia de linhas auxiliares e as entidades, em especial, o Conselho Federal de Contabilidade e os Conselhos Regionais vieram bem à calhar, primeiro porque congregam, por força de coerção, profissionais que vão escoar os processos de controles sociais e produtos do capitalismo de laços de TI travestidos de “obrigações acessórias”. Segundo porque dispõem de dois tipos de “instrumentos” humanos em suas fileiras de líderes e colaboradores; o primeiro tipo é o bocó, imbecil corporativo, que não tem noção do que está acontecendo, ignorante com a história política do Brasil e serve como “idiota útil” na militância em favor dos projetos do fisco e das empresas de TI e consultoria. O bocó pode ser visto em redes sociais na defesa dos projetos do Sped e do eSocial em eventos e redes sociais, fazendo coro contra os poucos que questionam as coisas. O segundo tipo é o espertalhão, o lobista, o “empreendedor tributário de grande escala”, um sujeito que tem um certo conhecimento do que está ocorrendo e só pensa em tomar vantagem no jogo de laços das coisas do fisco. É raro encontrar alguém culto, lúcido e suficientemente sincero nesse meio; sem esses dois tipos seria inviável o projeto de exploração das entidades que são propícias a produzirem tais “instrumentos” porque são baseadas em coerção e não na liberdade de vinculação dos profissionais ou seja, contadores são obrigados a se manterem registrados no CRC, que é submetido ao CFC, que é linha auxiliar da Receita Federal, que é braço de apoio dos controles sociais do governo. Todo contador é obrigado a pagar anuidades para poder exercer legalmente a profissão e dada a falta de estímulo adequado à livre vontade destes profissionais, tais entidades não poderiam ser senão grandes centros de atração para os mais oportunistas, parasitas, e ansiosos por gastar o dinheiro dos outros, assim lutando para se manterem no poder. A única forma que vejo para acabar com isso é tirando os privilégios de tais entidades em relação à cobrança de anuidade, ao registro obrigatório e à exclusividade de regulação de procedimentos contábeis, esvaziando a fonte que dispensa a busca por satisfação real dos profissionais. Os conselhos profissionais estão na caixa do comodismo que os privilégios proporcionam.

Esquema pronto, bocós e espertalhões devidamente instruídos, resta dissemina-lo entre a massa de contadores, e para essa empreitada contam também com experts em lixo tributário e parasitologia consultiva na arte de vender coisas inúteis para o meio produtivo, ao mesmo tempo em que aliena plateias das “empresas do bem”. Eis a essência do atual fascismo brasileiro que permeia marqueteiros de contábeis e de TI em áreas afins: um coletivismo compulsivo em torno do Estado, por indivíduos influenciadores para formar gerações de mortos-vivos sob a toxina do “Walking Dead” de DNA pombalino, incrementado com o fascismo de Vargas e o socialismo dos militares e ambidestros da política contemporânea, multiplicando vacas de presépio em fóruns de Sped e eSocial, um público leigo que assiste à tudo passivamente… Eles espalham, com grande eficiência e efeitos especiais, a curiosa ideia de que a burocracia em arquivos digitais vai fazer o empresário respeitar mais o contador, com base em produtos de coerção, na obrigação de fazer coisas visivelmente pensadas para não serem cumpridas com razoáveis praticidade e segurança jurídica. Vi isso in loco, em 2014 e 2015.

Fato é que essa prosperidade é para poucos nesse meio; refiro-me a componentes de uma elite contábil que aprendeu a explorar em larga escala o negócio de viver das dificuldades criadas em comitês e grupos de trabalho, fazendo lobby com o fisco ao longo de todos esses anos, em parceria com as entidades aparelhadas, enquanto que a massa que banca o Estado com impostos e as entidades com anuidades, vive como zumbi, produzindo arquivos do Sped e do eSocial, seguindo modelos operacionais perversamente construídos para passarem a imagem de modernidade com coisas que se baseiam em muita repetição de dados que o fisco já tem, com complexidade exagerada em leiautes, combinadas com terrorismo fiscal para disseminar o medo das multas e das auditorias do fisco, tudo para empoderar compadres de corporações de TI, consultorias tributárias e entidades; todos esses “mestres” da burocracia-digital-estatal-fascista , vistos como “tutores” de contadores perdidos, que fazem tudo menos contabilidade, “capacitados” em cursos e treinamentos caros, inclusive envolvendo áreas que não são de competência de contadores e que não interessam aos empresários por gerarem alocação indevida de recursos no meio produtivo.

Mentiram para você: Sped e eSocial foram vendidos para a massa de contadores como caminhos de valorização da profissão com a estratégia de se aliar ao discurso do fisco. São dois grandes negócios para pouquíssimos players que enriquecem rapidamente fazendo lobby nos grupos de trabalho gerenciados pelo fisco federal, às custas do setor produtivo e de contadores anônimos obrigados a adquirirem seus produtos enquanto são transformados em zumbis. Contadores que trocam o dia por intermináveis noites, fechando declarações, sonhando com prorrogações de prazos e simplificações que apenas dão mais asas às cobras da Receita Federal, de burocratas ministeriais, dos conselhos de Contabilidade e demais ntidades mestras em formarem parasitas e influenciadores em redes sociais que não cansam de imbecilizar seus seguidores.

“The Walking Dead” Contábil é a negação do contador enquanto contador. É a transformação desse importante profissional encarregado de apurar, registrar e demonstrar fatos que envolvem o patrimônio de entidades, em mero despachante em favor do aparato fiscal e da indústria do Custo Brasil, capitaneada por uma elite de contadores que atuam como líderes oportunistas, além de proprietários de grandes empresas de consultoria e TI em “parceria” com o fisco para vender “soluções” que só existem por causa da mentalidade perversa, doentia, compulsiva do Estado Brasileiro Burocrático de Direito e da coerção que dele se deriva.

1.3 Serviços commoditizados e a lei natural da oferta e da procura: Por que os preços desabam?

O processo histórico lento, gradual, de centralização do Estado na vida em sociedade e a consequente alienação do contador como contador para uma categoria de despachante do fisco, garoto de recado da Receita Federal, lançou uma enorme massa de profissionais para o mundo de serviços da burocracia confundidos com serviços de contabilidade.

Tais serviços foram inevitavelmente commoditizados por processos de padronização das tarefas impostas pelo fisco e pelo uso massivo de TI como reação na busca por redução dos custos que a teia de obrigações acessórias impõem. Na medida em que os mais antigos contadores foram deixando de exercer contabilidade para se tornarem ofertantes de serviços fiscais e que as novas gerações foram também estimuladas a seguirem no caminho de capacitações no mesmo segmento, a TI avançou para eliminar ou reduzir o agente humano em processos repetitivos, onde justamente tais serviços exercidos por contadores são mais impactados.

Com esse processo de distanciamento em massa de contadores da Contabilidade, o primeiro fator que considero é que o agente econômico que verdadeiramente exerce contabilidade passou a ser raro com a concentração alta de ofertantes em serviços da burocracia; o contador que exerce contabilidade é mais caro, por ser mais escasso, diante do mercado concentrado em burocracia. Sendo mais escasso, vive sob baixa concorrência e pode barganhar por melhores honorários e salários. Contador que faz contabilidade pode ser visto em companhias com ações na  Bolsa de Valores que obrigatoriamente adotam processos plenos de gestão contábil, com apuração, registro e demonstrações minuciosas dos resultados para análise de investidores e cumprimento de normas da CVM. Também pode ser observado em companhias de médio e grande porte que possuem determinadas condições financeiras e de gestão para adotar trabalhos de contabilidade plena e, ao mesmo tempo, arcando com os custos de “compliance” que a intoxicação do aparato fiscal provoca. A intoxicação do “manicômio tributário” é muito importante para identificar razões de a contabilidade plena não ser adotada em larga escala no Brasil. Empresas sem recursos financeiros e humanos suficientes correm para o Simples ou o lucro presumido por necessidade de sobrevivência.

O lucro presumido é um peso que se paga como aberração da mentalidade “Walking Dead” do aparato estatal que tributa o lucro como se fosse um evento futuro garantido, tudo isso para fugir do Big Brother Fiscal mais intenso que o lucro real impõe. Empresários e contadores se escondem da contabilidade plena por sinais que a Receita Federal, o “conselho de contabilidade”  na prática lhes dá, primeiro ao transformar contadores, que poderiam elaborar genuínos trabalhos contábeis, em delatores. Segredos industriais e comerciais são entregues regularmente ao fisco por meio do Sped. Dados nos livros diários e auxiliares podem servir de fontes para expor empresários, investidores e outras pessoas físicas a um sistema de legislação pensado para provocar litígios. Em segundo lugar, há efeitos colaterais que carga tributária provoca incentivando a informalidade que fica mais fácil de ser administrada fora do lucro real (fora do Sped Contábil e da ECF), e terceiro, pelo fato de a Receita Federal não exigir livros e demonstrações que caberiam a uma contabilidade plena, seguindo tratamento diferenciado que as obrigações acessórias devem dar a quem está no Estatuto da Micro e Pequena Empresa, onde se reduz a intoxicação que o Estado Brasileiro Burocrático de Direito impõe aos empresários. Enquanto isso, o “conselho de direito”, ou seja, o CFC,  tem planos e demonstrações “simplificadas” que são desprezadas por quase todos, levando em conta que profissionais que ofertam serviços fiscais, mesmo que quisessem fazer uma contabilidade de fato, com livro diário, se encontram quase sempre por demais ocupados atendendo às exigências do fisco. Em outras palavras, o fisco, por força do aparato estatal multiplicador do toxina  “Walking Dead”, engole o tempo mínimo que poderia ser dispensado a trabalhos genuinamente contábeis. Muitos contadores podem até querer, mas não têm tempo e/ou recursos para serem contadores de verdade.O segundo aspecto reflete um desdobramento do primeiro e envolve o que no mercado financeiro se entende por “manada”. Multidões de agentes econômicos, no caso contadores, fazendo a mesma coisa; oferecendo um pacote de serviços fiscais padronizados que viraram commodities. Acontece que agora estão mais sujeitos a substituição de recurso humano por TI, em funão da necessidade natural que o meio produtivo força por redução de custos operacionais com burocracia, tornando mais intenso na medida em que agentes do meio produtivo precisam buscar por mais eficiência econômica e menos favores com o Estado.

O terceiro fator consiste em muitos serviços commoditizados que são realizados fora da “reserva de mercado”, ou seja, ofertas que não exigem CRC por parte de quem realiza. Mesmo que uma reserva fosse adotada para serviços fiscais tais como cálculos de impostos, folhas de pagamentos e elaboração de guias de recolhimentos, certamente seria uma medida ineficaz e sujeita a efeitos colaterais (iatrogenias) que os intervencionistas ingênuos (Taleb manda lembranças) não conseguem levar a sério: os agentes que tomam serviços, consumidores, reagirão naturalmente a qualquer reserva imposta em um ambiente menos restrito ou aberto e isso não significa necessariamente que vão seguir as regras determinadas por aqueles que impõem privilégios. A economia é um jogo de realidade e não uma máquina segura na mesa de um burocrata. Demandantes tendem a buscar alternativas que envolvam desde um mercado paralelo, que seria impossível de ser contido, fiscalizado, até outras ações envolvendo terceirização de registro por parte de profissionais com CRC que poderiam repassar carteiras a quem não tem registro e tem economia de escala ou adotar de vez processos robotizados, ou seja, contratar processadores de dados inteligentes para grandes carteiras as quais não teria como darem conta sozinhos nos métodos atuais, entre outros desdobramentos que a espécie humana tem capacidade de proporcionar no desejo de buscar melhores soluções econômicas que os demandantes sinalizam com a competição.

O resultado é que, independente da vontade de contadores e daqueles que não compreendem os fenômenos de mercado, a TI em serviços commoditizados continuará forçando o processo de fazer mais com menos, e se a oferta permanecer vasta de profissionais de contábeis que atuam mais como despachantes, então não ficarei admirado se os preços continuarem em queda por empresários e pessoas físicas que naturalmente desejam pagar com o menor preço possível.

Fato é que contadores que atuam em serviços fiscais agora estão sob forte pressão concorrencial envolvendo fatores humanos em serviços burocráticos e, sobretudo, os não  humanos, que fazem os preços desabarem por excesso de oferta em meio a sistemas que usam inteligência artificial, métodos robotizados para cálculos, geração automatizada de arquivos digitais, emissão de documentos e para atendimento a clientes, juntando com outros profissionais terceirizados, incluindo de TI e processamento de dados, que também ofertam direta ou indiretamente.

O melhor indicador para atestar o que estou afirmando aqui é o PREÇO. Há 25 anos era comum uma escrita fiscal começar com base no “salário mínimo”. Escuto com frequência lamentos de profissionais com saudade do tempo em que o salário mínimo era a base e hoje nem o teto consegue ser. Serviços fiscais podem ser contratados facilmente na internet abaixo de R$ 100. Em qualquer esquina é possível encontrar pequenos escritórios ou profissionais que atuam apenas com um notebook realizando tarefas que há 20 anos exigiam empregados e uma estrutura física maior. Isso não é ruim para a economia. Quanto menos se gasta com burocracia, melhor e a TI é uma ferramenta nesse sentido. No entanto, há muitos profissionais de contabilidade que reclamam, falam em “uberização” de serviços e até desejam algo como uma intervenção para lhes favorecer, seja com imposição de preços mínimos, seja com algum tipo de regulação que proíba o uso massivo de tecnologia, enquanto outros apelam para mais reservas de mercado, desejando mais fiscalização sobre quem atende pela internet, sem perceber que estão ignorando o fato de que os consumidores, os clientes, estão tendo acesso a serviços com preços melhores e talvez o problema esteja em que oferta com custos inadequados ao contexto tecnológico atual. Parecem ignorar que serviços contábeis estão sujeitos às leis de mercado como quaisquer outros e clamam na verdade por socialismo, ou seja, por planificação da economia via preços ao consumidor partindo de uma autoridade central que opera na base da coerção e da intimidação, minando a liberdade alheia para favorecer grupos de privilegiados, passando por cima dos desejos livres dos que pagam pelos serviços. Parecem desconhecer, ou resistem a reconhecer, que os que tem melhores rendimentos como contador estão no lado dos recursos escassos, são os que fazem contabilidade de alto nível; são mais caros por estarem sob menos concorrência, participando ativamente da vida econômica dos clientes que fazem juízo de valor e definem o quanto estão dispostos a pagar. Contadores mais valorizados fazem parte das soluções do meio produtivo, porém, os mais abundantes, operam por preços bem mais em conta, com rendimentos modestos e/ou escritórios em crise financeira, porque vivem pela forte competição em face de terem optado em oferecem o comum, o que está em abundância. No mercado, o juízo do consumidor é o principal elemento que define o quanto algo vale e o contador não está imune a isso, assim como qualquer outra profissão. Compreender as leis de mercado é fundamental para encontrar um diagnóstico e uma forma de lidar melhor com a realidade.

Em suma, a combinação de serviços que foram padronizados nas normas das obrigações acessórias com o avanço da internet e da TI em geral, proporcionando fazer cada vez mais com menos recursos, substituindo recurso humano em muitas tarefas, aliviando custos operacionais, proporcionando preços finais menores aos consumidores, tudo isso impulsionado por uma maioria de profissionais que atuam neste mercado, cada vez mais robotizado, evidenciam o fenômeno de queda nos preços provocado por ofertantes que atuam em economia de escala, aproveitando ao máximo o que a TI pode fazer para reduzir custos e atender cada vez mais clientes. Enquanto isso, ocorre o falimento de escritórios que não revisaram suas estruturas de TI, nem de pessoal, mantendo um quadro ora com excesso, porém ineficiente diante das novas ferramentas de atendimento, ou no desespero partiram para uma redução de pessoal, porém cometendo os mesmos erros daqueles que mantêm os escritórios inchados de pessoas inaptas, sem qualificação adequada para lidarem com as novas demandas de TI. Além de caírem em um dos erros que menciono, cometem outro ainda mais grave: investem em especializações que estão sendo engolidas por trabalhos robotizados, aplicando recursos que terão baixíssima taxa interna de retorno e reduzido payback.

Profissionais que se concentraram nos mercado de serviços burocráticos e se afastaram do trabalho genuíno de contador, ao se confrontarem com concorrentes que aprenderam a usar economia de escala com TI em serviços commoditizados, enfrentam a realidade do mercado em expansão de oferta enquanto ficaram presos na armadilha do sistema estatal disseminador de “Walking Dead”.

1.4. Economia de escala, robotização de atendimento e Inteligência Artificial: Pode isso, Arnaldo?

Um vídeo circulou em grupos de redes sociais de contadores mostrando um chatbot atendendo um empresário, fornecendo rapidamente dados de faturamento e realizando uma rotina de departamento pessoal. Alguns viram neste vídeo o “fim da profissão de contador”. Será mesmo? O que os mais temerosos entendem como “profissão de contador”? Preencher declaração de imposto de renda? Efetuar cálculo e gerar guias de impostos? Emitir documentos trabalhistas? Transmitir arquivos do Sped e do eSocial?

Percebo que a  distorção sobre o conceito do que é ser contador começa entre profissionais de contabilidade que, parece, alguns, talvez  Muitos, perderam a noção da essência que rege a profissão: apurar, registrar e demonstrar, com tecnicidade, fatos que dizem respeito ao patrimônio de entidades. Esse “apurar, registrar e demonstrar” não é algo meramente mecânico, repetitivo.

O contador pode se enxergar até como um tipo de “cientista de dados”  que envolve o patrimônio de pessoas e é também responsável pela interpretação dos efeitos que os fatos provocam. Cada pessoa uma história, um contexto, um processo para ser conhecido e tratado. Isto posto porque o contador analisa “caso a caso”, partindo de uma “política contábil” para fazer contabilidade e apontar consequências que os fatos provocaram usando TI de alto rendimento.

No entanto, quando há a confusão entre contador e despachante, tudo o que envolve economia de escala em serviços burocráticos que, inevitavelmente se relacionam com fatos contábeis, passa a ser visto como um sério problema para a profissão de contador quando, na verdade, faz parte de soluções para dar ao profissional mais recursos para captar, processar e apurar fatos que dizem respeito aos fenômenos patrimoniais nas entidades visando um trabalho contábil mais rápido, eficiente e eficaz. Um robô atendendo a um cliente é uma ferramenta que comunica um resultado que foi produzido por um trabalho contábil que exige sofisticação na produção ao consumidor, processo carente de recursos humanos.

O maior concorrente do contador que se fixou em serviços burocráticos não é outro contador e sim o avanço inevitável do aparato tecnológico (recurso não humano) que substitui recursos humanos em processos repetitivos por força das necessidades do mercado sob forte competição. Quem se incomoda com um robô está na verdade se incomodando com um trabalho repetitivo que não explica o que faz, essencialmente, um autêntico contador. Documentos e dados escriturados carecem de um teor técnico-interpretativo, desde a análise do significado do fato em questão, passando pela origem e aplicação dos recursos, pesando fatores peculiares à entidade em análise, até a apuração valorativa das variações patrimoniais decorrentes, onde o papel humano ainda tem (e imagino que por muito tempo terá) peso decisivo no trabalho interpretativo. Então, se um contador vive como contador nesse sentido que estou apresentando, verá as ferramentas de economia de escala, como robotização e Inteligência Artificial, como coisas oportunas, importantes para deixar o que é repetitivo com a TI e ficar no foco do que exige sua imprescindível ANÁLISE CRÍTICA.

Outro aspecto do uso de tecnologias que agilizam e reduzem custos com trabalhos repetitivos está no fato de que, com a oferta tão abundante, a diferença para se ter uma boa margem de lucro na exploração de serviços está nos CUSTOS. Aplicar economia de escala é FUNDAMENTAL para poder competir com preços em queda. Não adianta jogar pedra no mercado e sim entender o que está acontecendo. Se um escritório usando tecnologias X, Y e Z consegue oferecer um pacto de serviços por um preço W e surge outro com tecnologias mais rápidas, mais precisas e que substituem custos de recursos humanos, quem, com o passar do tempo, o consumidor tende a contratar em uma singular análise de preços competitivos?

Outra coisa que atrapalha o amadurecimento sobre a realidade de mercado, para serviços envolvendo impostos e normas, é a percepção da importância exagerada que muitos contadores da burocracia demonstram ter sobre os serviços que oferecem. Impostos, aplicação de normas tributárias e a burocracia são problemas cujas soluções para o empresariado passam, impreterivelmente, por soluções que envolvam custos cada vez menores. Esperar valorização de algo que atrapalha negócios é, no mínimo, muita ingenuidade. Para o empresário, investidor, todo agente de economia, burocracia é CUSTO e o contador que vive apenas de explorar burocracia será sempre visto como um CUSTO. Outro ponto: Na medida em que custos com burocracia caem, a economia passa a ser beneficiada no contexto geral, tendo mais oportunidades de alocar recursos em coisas produtivas e não em processos sem retorno econômico. E quem disse que contador não tem espaço no meio produtivo? Contador pode ser visto como INVESTIMENTO a partir do momento em que faz parte de soluções para fazer companhias funcionarem com mais eficiência através da aplicação da contabilidade como ferramenta de gestão para apontar problemas sob precisão matemática nos investimentos, nos custos, nas alocações de recursos em geral, possibilitando soluções efetivas. Para isso, só com contabilidade de verdade. Calcular impostos e apresentar guias de recolhimento não são tarefas relevantes nesse universo onde contadores deixam enormes contribuições na vida econômica e nas tomadas de decisões mais importantes na história de uma empresa.

Contadores que acreditam que máquinas de IA e bots são ameaças, precisam compreender que a ameaça mesmo está no trabalho rudimentar que o mercado, sempre impessoal, pune, ao não ver custos sendo ajustados às novas realidades de competição. Então,  o uso de tecnologias onde recursos não humanos substituem humanos não só pode, como deve fazer parte de todo contador que queira se dar bem no mercado.

A Inteligência Artificial vai ocupar totalmente as funções de análise crítica de um contador e assim os empresários poderão comprar ou alugar um “robô-contador” como se fosse um produto em uma prateleira ? Não sei, não sou futurólogo. Pode ser que a profissão de contador, como a conhecemos, desapareça mesmo, assim como as de economista, engenheiro, advogado, etc. Contudo, na extinção de profissões por obsolescência, outras costumam surgir como derivações dos avanços tecnológicos.

Talvez,  contadores possam migrar para áreas de TI e de economia,  aproveitando conceitos que dominam para participarem de trabalhos que envolvam processos avançados em software e outros artefatos com uma vasta gama de aplicações em finanças, análise de custos, evolução patrimonial, análise de mercados, avaliação de ativos, retorno de investimentos, CRIPTOMOEDAS, CRIPTOATIVOS, ensino à distância, bolsas de valores, entre outras coisas que conhecimentos em Contabilidade NUNCA deixarão de ser necessários.

2. Volta às raízes  ou saindo do Walking Dead: Pode o contador voltar a ser contador? O problema é bem mais complexo do que se pode imaginar…

2.1 O problema da ineficiência econômica na cultura empresarial de compadrio

Nesses quase 30 anos convivendo profissionalmente com contadores, vi alguns poucos casos de profissionais que se recusaram ao rótulo de “darfistas”. Hoje os classifico como “românticos”, por tentarem implementar trabalhos muito interessentes de contabilidade com objetivo de servirem de ferramentas de gestão, porém, inviáveis do ponto de vista das barreiras culturais que permeiam a mentalidade de muitos empresários.

Contabilidade no Brasil é coisa morta, exceto na Bolsa e em grandes empresas, mas os românticos estão aí para mostrarem que estou enganado… Uma empresa pequena pode até ter contabilidade nos processos de registro, apuração e demonstração, porém, não me surpreenderei se forem grandes obras de ficção do ponto de vista que servem para atender às exigências da Receita Federal enquanto não são usadas para análise plena da realidade.

Como se explica a falta de interesse, por parte de empresários, em colaborar para que a “compliance” contábil dos românticos possa virar realidade? Tirando o problema do manicômio tributário que por si só pesa bastante na evasão fiscal, onde tratarei no próximo tópico, penso agora no enorme despreparo administrativo tão comum em muitos empresários, sobre questões básicas de finanças, partindo das que são de cunho pessoal até a confusão corriqueira entre o que é da pessoa física (do indivíduo) e o que é da empresa  (PJ), atropelando o “princípio da entidade”. Vejo também um empirismo que despreza o agente técnico; muitos empresários são excelentes homens de negócio enquanto analfabetos em administração que costumam ter resistência a um tratamento profissional onde a contabilidade tem espaço e é indispensável. Outro problema é o medo de ser muito transparente com a contabilidade, em parte, porque o empresário em geral, percebeu que o contador trabalha como uma espécie de delator do fisco. Isso é comprometedor! Não existe uma segura ética de sigilo, na prática, entre as partes, pois o Estado se intrometeu e está no meio, intoxicando um relacionamento que carece sempre de ser pautado por extrema confiança.

Tais problemas denotam causas da falta de “compliance” com obrigações fiscais que engolem o espaço da contabilidade nas empresas e desembocam no velho problema do CAIXA DOIS, mas os românticos da contabilidade não desistem e tentam contornar os empecilhos com palestras que apelam até para a auto ajuda e outras técnicas visando fazer com os empresários fiquem bonzinhos cumpridores das leis. Tão simples.. Como não pensaram nisso antes? Precisamos de “empresas do bem”, tomando aqui por empréstimo um dito de uma eSocialite, figura contábil do “estatismo-pombalista-varguista-nacional”. Lembro aqui também de um outro dito,  muito inteligente, de autoria do professor de ciências políticas Adriano Gianturco de que “se todas as leis no Brasil fossem cumpridas, o país pararia”. Empresários sabem muitíssimo bem dessa verdade e os românticos contábeis fingem não saber e esbarram em uma coisa chamada REALIDADE do mundo econômico, bem diferente dos slides de palestras motivacionais em meio a um caixa estourado no final do exercício para resolver antes de fechar o balanço…

Contudo, o termo “mudança cultural” me interessa. É importante porque percebo que de fato há uma cultura nefasta que compromete seriamente a visão da contabilidade como instrumento fundamental de gestão: o capitalismo de laços, uma epidemia no Brasil. Doença que acomete muitos empresários que confiam mais em serem “amigos do rei” ou terem “políticos de estimação” do que em tocar seus negócios na busca de uma melhor eficiência econômica dentro de uma genuína competição de mercado. 

Certa vez estava em uma belíssima praia no litoral nordestino, águas impressionantemente azuis, peixinhos coloridos no fundo e uma boa conversa com um empreendedor de mergulho de uma cidade muito carente e eis que perguntei a ele sobre o que pensava se investimentos estrangeiros chegassem na região, de maneira que pudesse proporcionar novos negócios turísticos com mais competição entre agentes  para melhorar a qualidade dos serviços. A reação dele foi de total desprezo: o mergulhador-empresário em seu barco barulhento e fumacento me disse que prefere as coisas como estão, aos cuidados de “pessoas da cidade”, entenda-se, empresários e políticos da região com conexões em Brasília, que impedem que investimentos estrangeiros cheguem à cidade e à “sua” praia “tomar o emprego” dos nativos, entenda-se, comprometer quem vive sob certas exclusividades na exploração de serviços turísticos através de alvarás e outras licenças especiais bizarras. O empreendedor que pensa assim, jamais verá a contabilidade como ela merece; ferramenta indispensável para busca da eficiência econômica em meio a um mercado cheio de competidores. Para quê pensar em eficiência se há o atalho dos favores da política? Quem pensa como o mergulhador-empresário que conversei estará sempre priorizando privilégios, se associando a grupos de empresários para viver em conluio com grupos de políticos de estimação, que atuarão para atender a interesses de quem não quer viver sob a necessária competição, tudo em troca de apoio político nas eleições, entre outros favores indecorosos.

A mentalidade que detesta o jogo limpo de mercado livre pelo jogo viciado de um mercado de cartas marcadas com “amigos na política”, quiçá contando com algum privilégio de governantes, são entraves para que a contabilidade possa ser vista como coisa da economia, da realidade; ou o sujeito adota para saber para onde está indo, não contando com favores políticos, ou vai à falência por operar no escuro. Isso precisa ter espaço na mentalidade empresarial brasileira e, creio, só será possível quando o Estado deixar de sufocar o meio produtivo e a sociedade perceber que há vida além de Brasília.

O capitalismo de compadrio ou de laços é um problema cultural bem maior, a meu ver, que está nas raízes de um “faz de conta”, onde empresários fingem que cumprem as normas e pagam todos os impostos que a legislação impõe, e contadores fingem que fazem contabilidade, porque o sistema normativo foi pensado por políticos que têm total interesse de criar dificuldades para vender facilidades visando fortalecer o papel deles no jogo de poder por trocas de favores e não pela busca da eficiência econômica. 

Claro que outros fatores complexos que comprometem a contabilidade, mas entendo que estão na cadeia desse grande evento chamado “capitalismo de laços” e o principal está nos noticiários do cotidiano: a corrupção. De fato, não há como ser levada a serio uma ciência que aponta origem e aplicação de recursos, por quem tem coisas a esconder.

2.2  A tragédia do manicômio tributário e do fascismo da legislação trabalhista entre contadores

A sociedade produtiva no Brasil carrega nas costas o manicômio tributário e o fascismo da legislação trabalhista. Se são tão danosos à sociedade, então, por que não foram superados? Tratam-se de dois grandes negócios para o mundo da política e para aqueles que exploram o Custo Brasil, formando uma estrutura corporativa fortíssima e muito difícil de ser destruída.

O manicômio tributário e a legislação trabalhista fascista proporcionam um ambiente tóxico de negócios que sempre força o direcionamento de agentes econômicos ao meio político na busca emergencial por “soluções” que ocasionam em mais oportunidades para a cultura de capitalismo de laços e adoração a “políticos de estimação”. São dois vetores fundamentais conservados por políticos e burocratas do Estado  para “justificarem” mais intervenções no meio produtivo, os deixando sempre em evidência, sob promessas de aprimoramentos ou “simplificações”. O fisco serve de braço para um duplo interesse no aparato estatal: preservar o escopo do aparelhamento da Receita Federal e demais entes fiscais nas empresas e demais organizações enquanto, em paralelo, atende a interesses daqueles que vivem de vender as “soluções” para os problemas inventados, onde atuam os burocratas e influenciadores do meio privado, também explorando os litígios que a insegurança jurídica propositalmente cria, formando um fascismo típico da cultura de compadrio no Brasil.

Fascismo é coletivismo em torno do Estado, explorado por grupos dos meios privados e “públicos” de privilegiados, sempre baseado em coerção, para criar coisas que funcionarão na base da “obrigação de fazer”; é o poder de mandar dentro de uma estrutural de planejamento central fazendo uso de meios coercitivos gerando privilégios a grupos que formam as elites do esquema de poder.

Em segundo lugar, para que os negócios corporativos em torno desse fascismo funcionem, é necessário usar métodos de “lavagem cerebral” em contadores. O principal meio chamo de “terrorismo fiscal” sob o rótulo suavizado de “riscos fiscais”, apresentados como se fossem coisas naturais, de genuínas relações de mercado. A lavagem cerebral em contadores reforça o marketing de guerrilha dos que vivem de aplicar o velho golpe que a classe política explora com maestria no plano de poder superior: vender facilidades para as dificuldade criadas através do Estado. Contadores da burocracia são estimulados a se comportarem como os lobistas que estão no corpo da exploração do Custo Brasil. Quanto a isso, observei como formadores de opinião, em eventos como “fóruns do Sped” e coisas do tipo, fazem para alienar plateias de contadores no objetivo de transformar cada ouvinte em um militante cuja devoção aos controles do fisco e ao temores com os “cruzamentos” de Big Brother são de dar inveja às devoções de petistas e de bolsonaristas em campanhas de redes sociais, atuando em empresas para encherem a cabeça (e a paciência) de gestores e empresários visando a aquisição de determinados produtos e serviços de “compliance” supostamente preventivos às multas e demais instrumentos coercitivos do fisco envolvendo a cultura de “vigiar e punir” do Estado sobre o meio produtivo.

Contadores convertidos a essa mentalidade passam a vivem em função das obrigações fiscais. Suas agendas ficam totalmente comprometidas com as bizarrices acessórias do fisco e com uma militância em favor dos controles que só interessam aparato da indústria que explora o Custo Brasil. Vejo dois efeitos dessa visão doentia sobre o papel do contador nesse “negócio” de dar à burocracia um fim em si mesma: Primeiro, não é por acaso que muitos contadores, em especial aqueles que estão na base da exploração e na ponta de relacionamento com empresários, se sentem exaustos, sem tempo para mais nada, angustiados. O esquema foi pensado exatamente para os converterem em escravos ou instrumentos de “Walking Dead” em troca de migalhas de honorários que “garantem” a permanência deles em um mercado cada vez mais pulverizado, inchado, sob forte competição em economia de escala. O segundo aspecto é a quase total exclusão do contador de debates sobre questões essenciais da sociedade produtiva brasileira. Contadores estão estigmatizados como serviçais da burocracia pelo sistema de poder do corporativismo do Custo Brasil. Para isso, em qualquer evento que se proponha a discutir o Brasil, há economistas, advogados, sociólogos, cientistas políticos, mas contadores são incomuns para não dizer inexistentes.

Voltando ao primeiro ponto, nesse processo, contadores convertidos como instrumentos do Big Brother Fiscal lembram até um marketing de rede dos mais apelativos, como aqueles sujeitos inconvenientes que batem de porta em porta insistindo na venda de produtos caríssimos sem que houvesse uma demanda, servindo como formigas operárias ou “carregadores de piano” produzindo vendas para o enriquecimento de quem está no topo do esquema: donos de empresas de TI e consultoria, parceiros nos entidades, além dos marqueteiros, os palestrantes.

Os eventos disseminadores ou os “fóruns do Sped”, “congressos” e encontros alinhados, funcionam como “cultos” de  “igrejas” organizadas por fiéis fundamentalistas onde o “deus” é o Estado da burocracia, “pastores” são palestrantes do meio privado e auditores da Receita Federal, e a “Bíblia” é uma coletânea de obras do manicômio, começando pela Constituição de 1988, passando pela CLT, por leis, decretos, instruções normativas em uma enorme teia de coisas impossíveis de serem cumpridas com razoável segurança jurídica, até chegar em leiautes, manuais, notas técnicas e outras publicações compondo dezenas de milhares de páginas de um imenso lixão tributário produzido pela extorsão do Estado. Eles apresentam os problemas que os políticos criaram, e os burocratas do fisco aumentaram propositalmente, como se fossem “soluções” para o meio produtivo, combinadas com produtos viciados, aplicativos e história de trabalhos de consultoria que mais parecem “contos de fadas”, todos feitos por seus patrocinadores, que são empresas de TI e consultoria, quase todas participantes de pilotos do fisco, este último funcionando como um clube de privilegiados, uma espécie de “capitalismo de laços fiscais” onde agentes privados têm acesso e poder de influência sobre modelos operacionais para criarem projetos que forçarão a aquisição de seus produtos, como se fossem ferramentas que toda empresa moderna deve ter para inovar e reduzir custos. Invertem tudo para fazer com que os contadores da plateia se voltem contra quem não demandou os problemas e são obrigados a cobrir toda a festa de extorsão travestida de legalidade: os clientes, pagadores de honorários e, claro, todos nós, jocosamente chamados de “contribuintes”.

O manicômio tributário e o fascismo da legislação trabalhista atingem a todos, contudo, na análise que faço aqui, me restrinjo aos danos que provocam entre contadores: a conversão de profissionais de contabilidade em zumbis, escravos “Walking Dead”, massa de manobra por agentes privados e estatais de um esquema de vícios com as coisas do Estado, totalmente baseado em coerção, compulsão, intimidação e as demais práticas legalmente aceitas que caracterizam uma mentalidade de “fascismo fiscal”.

 2.3 É possível desatar esse nó?

Contadores foram empurrados em massa por uma estrutura política para servirem em mercados de serviços burocráticos e fiscais que foram commoditizados enquanto ficaram distanciados de suas verdadeiras atribuições com a Contabilidade.

Os que decidiram se pautar com contabilidade, auditoria, foram recompensados, em meio a dedicação e estudo, inclusive das toxinas do Estado Brasileiro Burocrático de Direito, e hoje operam em um mercado onde são bastante escassos e muito mais valorizados. Empresas de grande porte, companhias com ações negociadas na Bolsa e alguns poucos casos, estimo, envolvendo empresas de médio porte.

Os que seguiram a tendência de massa em oferecer serviços baseados apenas na burocracia, sem se pautar com trabalhos de contabilidade, hoje têm que lidar com um mercado inchado, com baixo reconhecimento de valor por parte dos consumidores (empresários e contratantes pessoas físicas), onde a economia de escala se tornou estratégica para manter um negócio sob uma razoável margem de lucro.

Não se trata de uma simples opção. O mercado de contadores elitizados foi forjado com enorme influência do Estado na medida em que dificultou o trabalho de contabilidade nas empresas poluindo o ambiente normativo com o manicômio tributário e o fascismo trabalhista.

Não vejo mudanças significativas no Brasil que sinalizem, até médio prazo, fatores que possam dar mais espaço para que a contabilidade se torne um trabalho popular em micros, pequenas e médias empresas. Os românticos que ainda insistem em implementar contabilidade em empresas sem estrutura para arcarem com os custos do manicômio tributário e do fascismo da legislação trabalhista, continuarão tentando e a realidade sempre será a parte vencedora.Não vejo dias melhores para a contabilidade porque a indústria do Custo Brasil está entranhada no Congresso e nas entidades que servem de linhas auxiliares do fisco e o que sobra, me parece insuficiente para promover medidas efetivas que reduzam o peso do aparelhamento do fisco nas empresas e aumentem o interesse pela genuína oferta de serviços contábeis à gestão. A reforma tributária em discussão no Congresso tende a ficar limitada à esfera federal, conservando os hospícios tributários estaduais e municipais, o que manterá boa parte das toxinas que poluem trabalhos contábeis, além de que tem um longo período de transição. O governo Bolsonaro, que se declara antissocialista, decidiu conservar o Big Brother Fiscal da era petista, avançando com o Sped e tentando salvar o eSocial. Até o partido Novo que se diz “liberal”, decidiu apoiar a “simplificação” do eSocial em vez de se opor em favor de sua destruição, sem falar que seus parlamentares ficam apenas nos discursos vagos e sem efeitos práticos em relação ao Sped, se restringindo ao “Bloco K”.

O cenário de toxinas que produzem contadores “Walking Dead” está sendo mantido. Estimo que a contabilidade seguirá morta na vida da maioria de escritórios e de micros, pequenas e médias empresas por um longo tempo. Enquanto as toxinas do Custo Brasil, do manicômio tributário e do fascismo da legislação trabalhistas não forem superados, não haverá espaço para a contabilidade fluir verdadeiramente nas empresas brasileiras de pequeno a médio porte.

Uma sociedade que não prioriza a contabilidade, estará fadada a produzir empresas operando às cegas e com maior potencial de falência. Muitos empresários quebram por falta de conhecimento dos números de suas empresas e de tratamento adequado cujo diagnóstico passa, impreterivelmente, pela contabilidade. Sem contabilidade real, como será possível administrar bem um negócio?

Em relação aos que se queixam sobre a “desvalorização”, como desatar esse nó? Contadores na manada podem aprender com o mercado a disseminar em seus negócios modelos de economia de escala, robotizando atendimento, aproveitando ao máximo as bases de dados de seus sistemas para integrar com portais, chatbots e aplicativos para celulares. Com isso, reduzirão custos, entrarão no rali, e poderão criar condições para aumentar a carteira de clientes, sobretudo daqueles que não têm o menor interesse em desenvolver contabilidade, enquanto aumentarão as chances de terem um espaço mínimo para clientes com um perfil que possibilite maior envolvimento do escritório em áreas produtivas. São os ditos “trabalhos consultivos”, envolvendo análise de mercado, verificação de custos e margens de retorno em determinados itens ou segmentos, apesar de não aplicar a contabilidade plena, verificação de opções de crédito no mercado, fazer o manjado planejamento tributário e até mesmo oferecer avaliação ou estudos sobre recursos humanos para agregarem valor. Com um escritório mais robotizado e ofertando trabalhos que interessam mais aos empresários, aumentarão a probabilidade de incrementarem melhores mensalidades inclusive nos trabalhos repetitivos, commoditizados.

Se persistirem, certamente chegarão a um mercado onde a manada não ousa explorar. Ainda não serão “contadores”, no sentido técnico do termo, mas estarão abrindo horizontes para possibilidades com maior dinamismo que o limitado mercado de serviços fiscais commoditizados tem. A volta às origens será para pouco, imagino, no entanto os trabalhos consultivos servem como meio termo.

Em outras palavras, sugiro a contadores que se perguntam, angustiados, como vão sobreviver com preços em declínio e tanta desvalorização, a repensarem a lógica da pergunta e então meditarem no seguinte problema:

Como vou tirar proveito desse mercado usando tecnologias de alto rendimento com as bases de dados que tenho de maneira que posso encontrar espaço para explorar outros negócios com clientes especiais?

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3 Replies to “The Walking Dead Contábil”

  1. Antonio Do Nascimento
    Olá !, eu Sou o Antonio do Nascimento, …; codinome, “Toninho Contador”; …, Este Artigo é “MUITÍSSIMO INTERESSANTE”; …, Ainda Não o LÍ, por Completo, … porém, …, Só de Ler os Quatros Últimos Parágrafos, …; Já se Tem um IDÉIA do Quão este Artigo é “Interessante, Proveitoso, e Necessário, para Àquele Contador que Esteja “DISPOSTO” à “INOVAR”; …, “AGREGAR VALOR” aos Serviços que presta Atualmente !, … Ah !, … à Propósito, … meu ÚNICO filho se Chama LEONARDO Brunelli; ,,,, Recém-Formado, …; Dr em Engenharia Química, pela UEM – Universidade Estadual de Maringá – Paraná. – Parabéns !!!, Sr Leonardo Amorin !, … Parabéns !!!!!!!!!!

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