Por que considero sagrados os hábitos da leitura e da reflexão?

Em uma sociedade em que predominam hábitos de distração, entretenimento e diversão, sobretudo em redes sociais, a carência de leitura e reflexão sobre o que se pode conhecer, em objetos considerados importantes para a sociedade, pode acarretar em graves problemas de espírito. Entenda-se aqui “leitura” não apenas como o hábito de ler um determinado objeto, livro ou texto. A “leitura” aqui envolve a capacidade de compreender o significado das coisas identificadas, lidas, ouvidas, observadas. O verbo “significar” vem de signa facere, sendo signa “sinais” e facere “fazer”; fazer sinais. E os sinais existem para comunicação e compreensão, então, a leitura só tem sentido se tiver o componente da comunicação funcionando e isso implica em compreensão. Um analfabeto funcional lê mas não exerce “leitura” ou seja, não compreende minimamente o que está lendo.

Leitura então implica em compreensão e isso é um processo. Lê-se uma vez, outra, e mais outra até que ocorra uma compreensão do “fazer sinais”, o significado. A leitura se torna mais rica na medida em que vamos até as fontes mais próximas, envolvendo o que determinados autores realmente disseram, até dados mais analíticos possíveis. Leitura envolve apreender textos, falas, fontes primárias, dados analíticos, fenômenos experimentais, conhecimentos a prior e a posteriori para, sobretudo, interpretar. E o exercício de interpretação carece da lógica formal, para que ocorra uma mínima construção sustentável entre elementos de uma comunicação, formando um saber ou uma dialética.

A falta de interesse pela leitura, nos termos em que defini, pode acarretar em problemas crônicos de compreensão mínima sobre o mundo que nos cerca em meio a enorme dispersão do conhecimento. É evidente que ouvir opiniões de diversas pessoas é um hábito também importante, e faz parte da leitura, até mesmo para análise comparativa, mas apenas ouvi-las pode limitar, a quem decidiu assim “entender ” certas coisas, a ter uma visão do mundo tão-somente pelos olhos dos outros e não pela própria consciência.

Quem se recusa a leitura do mundo, se rendeu a uma cegueira intelectual que tende a tornar maior o risco de sofrer manipulação.

Quem se limita a entender coisas periféricas sobre o mundo, optou pela auto exclusão ou pela mediocridade e como tudo tem um preço, tenderá a pagar por esta escolha sendo limitado a compreender coisas essenciais no mundo, passando a ser meramente manipulado pelos outros, não raramente a partir daqueles que costumam explorar, entre incautos, o medo de contestar.

Ir atrás de fontes primárias, lendo, ouvindo, observando, assim como atestar elementos analíticos, praticar mais método de indução, fazer da argumentação um costume a partir de dados concretos, tudo a partir de uma apuração mais livre, analítica e responsável do mundo, além de ser um exercício fundamental de saúde mental, pode servir de mecanismo de segurança contra as inevitáveis tentativas de manipulação que estão por aí, prontas para nos tragar, incluindo aqueles que temos como “mentores”. Não se deve esquecer que tais “mentores” são igualmente humanos como nós assim somos; estão passivos de cometerem deslizes, equívocos, enganos e até mesmo atos eticamente questionáveis, sobretudo quando tratam de termos ideológicos.

Quem apenas se importa em saber a opinião dos outros sobre algo e busca atalhos para explicações rápidas, por mero comodismo, está se abstendo de participar ativamente de um processo mais rico e dinâmico de compreensão do mundo, onde o entender algo implica em mergulhar e desbravar as coisas, podendo assim criar condições para atuar criticamente, além de se voltar a si  mesmo para avaliar melhor as próprias ideias.

Por isso, para mim, são sagrados os hábitos da leitura e da reflexão diante de um mundo onde a manipulação se tornou um grande negócio.

 

 

1. O desespero humano.

Filosofia. Fé cristão. Existencialismo.

De Søren Aabye Kierkegaard (Dinamarca, 1813-1855)

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2. Sermões escolhidos.

Homilías. Fé cristã. Catolicismo Romano.

De Padre Antônio Vieira (Portugal, 1608-1697)

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3. Confissões.

Fé cristã. Autobiografia.

De Aurelius Augustinus Hipponensis. Santo Agostinho de Hipona (Tagaste, 354-430)

 


 

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