Olavo de Carvalho em vídeo postado [1] em 15/09/2019:

“A coisa mais urgente no Brasil, vocês têm que criar uma militância bolsonarista agora. Não é conservadora, não é liberal, não é cristã, não é pró-família, não! Ham? Você tem que apoiar o chefe, não é apoiar a ideia, porque se você apoia a ideia, você está toda hora divergindo, hum?”

No mesmo vídeo, Olavo de Carvalho salienta que política não se constitui de ideias e sim de ações. E qual seria o grande propósito desta militância? Analisando o contexto, Olavo de Carvalho entende que o STF não seria o problema maior e sim a militância esquerdista no mundo, que domina a grande mídia e as universidades, sendo o judiciário um reflexo disso. A proposta de Olavo de Carvalho é que seja organizada uma militância que apoie o presidente Bolsonaro “até o fim”. Trata-se de uma militância de obediência incondicional, que esteja disposta a operar na base do custe o que custar. Não se trata de ser, aparentemente, contra a família, contra o conservadorismo, como talvez o analfabetismo funcional possa deduzir rápida e precariamente, se bem que um dos desdobramentos da incondicional obediência estará, na prática, deteriorando princípios conservadores e de família. A questão é que seja um movimento político com foco, totalmente determinado a combater o inimigo maior, entenda-se o esquerdismo globalizado, onde questões conservadoras se tornam periféricas diante da necessidade de todos se unirem no objetivo de superar o inimigo.

E como seria o modus operandi desta militância? O principal elemento que me desperta à atenção está na visão pragmática de Olavo de Carvalho em relação ao papel das ideias na atividade política:

Você tem que apoiar o chefe, não é apoiar a ideia, porque se você apoia a ideia, você está toda hora divergindo.” 

Isso me lembra uma passagem de uma de suas obras cujo título do artigo [2] soa até irônico para o vídeo que motivou esta reflexão:

[2]

Seria possível uma política íntegra de ideias? Talvez no país das maravilhas… O marxismo, enquanto mentalidade pragmática no “vestido de ideias”,  demonstrou que, enquanto economicamente não funciona, na política vem dando as cartas com a “terceira via” justamente onde a consistência de ideias é a última coisa que interessa. Isto posto, Olavo de Carvalho parece subestimar que, na medida em que a consistência com as ideias originais, supostamente motivadoras das “boas intenções” no jogo político, vai se afastando com o pragmatismo de apoiar o “chefe” sem qualquer filtro ético e zelo moral, sem abrir espaço para um debate onde o chefe pode estar em questão, o movimento ou a “militância bolsonarista” que propõe tende a se tornar cada vez mais parecida com a militância adversária que tanto deseja vencer, começando pelo quesito diálogo (se é que posso considerar uma possibilidade) com significativa parte da sociedade que não se identifica com nenhuma das duas visões bipolares de mundo (bolsonarista versus “esquerdista” ou petista/psolista) e então, ao trucidar o filtro das ideias que estariam em periódicas análises para não se perder moralmente, não se tornam surpreendentes certos comportamentos grotescos desta nova militância, dita “bolsonarista”, sendo hoje uma coisa mais tangível, mais fácil de ser percebida, pela truculência e pelo desprezo da consistência em torna das próprias ideias, seja nos “diálogos”, seja nas argumentações, se impondo à sociedade na medida em que confunde a crítica ao politicamente correto (importante) com a mais bestial falta de civilidade no trato com os que divergem de opinião, além do tradicional coletivismo estatizante e dissonante em termos cognitivos também comuns ao petismo), que na verdade deseja trocar uma visão coercitiva, compulsiva e assim totalitária de mundo, por outra.

Percebo que Olavo de Carvalho desceu ao porão e fez um discurso aos mais “simples”, dando um recado aos “mais esclarecidos” para explorar a utilidade das “camadas em que os padrões morais e intelectuais são inferiores e prevalecem os instintos mais primitivos e “comuns””, a fim de multiplicar um entendimento animal, primitivo, acerca deste pragmatismo político, entre fileiras mais críticas de apoiadores de Bolsonaro, certamente para fazer valer o denominador comum da ignorância útil na formação do tabuleiro de peças que serão massificadas na conquista política; seria um esforço para multiplicar a cegueira de seguidores mais manipuláveis sobre os menos manipuláveis, “convertendo outros ao mesmo credo simples”, como sugere Hayek em relação a um dos elementos que explicam como os piores chegam ao poder [3].

Também me parece uma falta de zelo, no mínimo, para não dizer outra coisa, por parte de Olavo de Carvalho, em não considerar na sua argumentação tão pragmática, que foi por militâncias por demais  devotas, determinadas a irem até às ultimas consequências, encharcadas de uma visão binária, violenta, violadora do indivíduo, onde a humanidade costuma ser dividida entre o “nós”, que seriam os verdadeiros heróis da história que vão fazer a “justiça” e “eles”, o lado falso, fraudulento, analfabeto funcional, “comunista”, mentiroso, a liga dos vilões, que figuras como Hitler, Mussolini, Stalin, Kim Il-sung, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro, Hugo Chávez e tantos outros chegaram ao poder, instituindo um novo terror político no lugar das coisas que denunciavam. Ao dividir a humanidade em duas opções igualmente coletivistas e coercitivas, não aceitando outras visões de mundo, e condenando toda oposição ao “outro e único lado”, tanto bolsonaristas como petistas almejam um controle social acima da condição humana, como se, em seguida, fossem abdicar, abrir mão, do poder conquistado após supostamente superarem o “mal” que combateram, como se tudo se resumisse a uma luta virtuosa em dicotomia na política, ao mesmo tempo em que é o tablado da coerção e da compulsão, como se tal luta fosse capaz de eliminar ou anular as ações onde opera o lixo moral da humanidade, atraído justamente pela oportunidade que a mesma política proporciona em violar a menor das minorias: o indivíduo.

Na Alemanha nos anos 1920, um país destroçado pelas mazelas da pobreza, da inflação e da recessão, recém saído da Primeira Guerra, vivendo à sombra do comunismo se agigantando em instituições basilares, o movimento do nacional socialismo acabou sendo uma resposta igualmente coletivista e autoritária no vazio moral e logo se tornou outra tragédia social, ainda maior que aquela que desejava superar. O mesmo pode ser considerado na Itália onde Mussolini rompeu [4] com o Partido Socialista Italiano (PSI) após adaptar a doutrina socialista (internacionalista) para o nacionalismo, prometendo um “novo homem”, que deveria crer, obedecer e combater.

Credere, obbedire, combattere [5]Crer no movimento (no contexto olaviano, bolsonarismo enquanto movimento) e no “chefe” ou no “duce”, obedecer sem discutir ou polemizar e combater as diferenças a todo custo, para manter o homogeneidade da militância e, sobretudo, o foco. Semelhantemente a Hitler, que o tinha como mestre, Mussolini contou com uma militância de soldados crentes, obedientes e combatentes (os “camisas pretas”) que começaram marcando o passo no mesmo estilo onde se apregoa aos devotos do bolsonarismo: fechados totalmente com o “chefe” na batuta do aparato estatal de compulsão e coerção. Só está faltando um categórico  “Me ne frego” [6] nesta paixão de militante que pode descambar facilmente para a consolidação de uma sociedade organizada por uma força política monopolística, intolerante, onde a luz está no “chefe”; a verdade, em última instância, está no líder e quem contraria-lo não passa de um “mentiroso” ou um “judas”. Sergio Moro que o diga… O mais novo “comunista” descoberto pelas tropas da curiosa releitura do “credere, obbedire, combattere” sob viés bolsonarista.

No Brasil, a militância petista representou, até há pouco tempo, o maior destaque de toda a idolatria ao ex-presidente Lula, um culto de personalidade que foi desde ridicularizado, até comparado com outros que geraram as tais figuras ditatoriais no século passado, enquanto Olavo de Carvalho sinaliza crer em um confronto político meio apocalíptico, contando com o mesmo arsenal de “idiotas úteis”, desta vez enfileirados à destra. E se os alienados do “2+2=5” orwelliano podem ser usados como ilustrações do cotidiano de “militontos” sobre como funciona o jogo de explorar o imbecil coletivo, tão denunciado na mentalidade petista e nos ensaios olavianos, o que dizer desta militância bolsonarista tão apaixonada, de brucutus que são estimulados a seguirem uma “verdade” que depende totalmente da figura do “chefe”?

Bolsopetismo.

 

 

 

 

 

 

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Notas:
  1. Todo apoio ao Bolsonaro
  2. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Artigo “A vitória do fascismo”.
  3.  O caminho da servidão, de F. A. Hayek, capítulo X: Por que os piores chegam ao poder;
  4.  Il Primo Fascista, de Hans Woller, em especial no capítulo “Il socialista totalitario”;
  5. Credere obbedire combattere. Storia, politica e ideologia del fascismo italiano dal 1919 ai giorni nostri, de Giogio Galli. Ver também “Me ne frego”, de Benito Mussolini, textos organizados por David Bidussa;
  6.  “Eu não me importo”, “eu não ligo”, o que se tornou um lema de Mussolini e asseclas à época da consolidação do fascismo na Itália.

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