Estamos em um fogo cruzado: de um lado o corporativismo estatal do deus-judiciário, ou a “senhora obesa nos ombros do famélico” do dinamarquês Jens Galschiot (imagem), para mim uma perfeita ilustração do que é a justiça do Estado sobre aqueles que a custeiam, muitas vezes chamado de “povo”, enquanto atua como um Estado sobre o Estado tutelado por um pequeno grupo de indivíduos que se comportam como “semideuses”. Os tais lá no STF estão legalmente ativos em um poder paralelo que se assume como bem intencionado zelador de todas as coisas ditas constitucionais em um negócio onde se pode ser, concomitantemente, vítima, investigador, acusador e julgador em última instância.

Quis custodiet ipsos custodes?

O viés é naturalmente canhoto, progressista, arrogantemente ignorante do mundo da vida, parasitando sobre as costas de quem é chamado jocosamente de “contribuinte”, a ralé desnutrida pelos sanguessugas dos privilégios, a plebe republicana pagadora de impostos.

Do outro lado está o bolsolavismo, uma seita radical, formada nos porões do populismo de direita, resultado de décadas de uma mentalidade de sociopatas “conservadores” salvadores da pátria que pretendem destituir a “senhora gorda” em nome de uma suposta liberdade muito particular, cuja concepção de mundo é exclusivista e igualmente arrogante, semelhantemente ao adversário, se apresenta como tutora de uma ideia de democracia que serve para esconder outro totalitarismo que visa estabelecer uma ordem social restrita ao que o seu guru, no caso Olavo de Carvalho, doutrina.

Evidentemente, nem o deus-judiciário nem o bolsolavismo consideram a possibilidade de uma convivência pacífica em busca de um verdadeiro diálogo com a sociedade, tampouco dar algum espaço para quem pensa diferente. São incapazes de abrir mão de ideias compulsivas que ferem a liberdade tendo em vista que possuem a mesma natureza de coerção que só a mentalidade de estado pode satisfazer. Tratam-se de duas desgraças antagônicas que querem nos “salvar” ou melhor, nos tragar para o abismo de suas conveniências ideológicas.

O deus-judiciário quer o poder puro sobre as redes sociais, em suma, “a senhora obesa” quer ajuizar a vida pensante e conta com o apoio de grande parte da máfia política “isentona”, sempre oportunista, diabólica, cujo destino está “profetizado” no romance de Orwell vivendo sob uma corporação partidária sob regência única e que não admite a verdadeira liberdade a não ser da que vem de um poder central, a espera de um “grande irmão”; um mundo onde o que é entendido como fato ou mentira está definido no aparato estatal de um “miniver” ou ministério da verdade cujo indivíduo nada tem a fazer senão acreditar no quem vem de cima para baixo. A imprensa convencional também parece seduzida pela ideia de um grande controle social do Estado sobre as redes sociais em nome do combate às “fake news” até porque assim poderá sufocar o seu maior concorrente e ameaça desde o advento da internet: a informação descentralizada de grupos e livres pensadores que expõem a própria mídia mainstream quando erra, e como corriqueiramente falha, até por intenções ideológicas… Nada mais conveniente do que controlar todos, onde quem é pequeno não pode arcar com os riscos de quem construiu um império nos laços com o Estado.

Então o bolsolavismo reage, parecendo um baluarte da verdadeira justiça, mas isto está posto não porque deseja um mundo realmente livre, e sim porque almeja substituir a visão de mundo da “senhora obesa” gramcista que forja a vida em sociedade, pela sua particular, fazendo uso de táticas políticas similares ao que vê no entende ser o esquerdismo globalista norte do deus-judiciário, inserindo uma visão que combina a massificação de fake news com culto à personalidade do seu guru, passando pelo presidente que serve com espécie avatar no tabuleiro do poder para aglutinar imbecis seguidores tão alienados quanto aqueles que militam no mundo esquerdista e endeusam o ex-presidente Lula.

Estamos em um fogo cruzado onde se conhecermos um vencedor, seja quem for, irá consolidar um caminho de servidão onde muitos já vivem como vítimas conformadas enquanto outros tantos caíram na síndrome de Estocolmo; defendem apaixonadamente um dos lados, se ufanando por agredir quem prefere outros caminhos. A humanidade para esse tipo de gente se divide entre os que são da tribo e os que não são e os que não são fazem parte do mal a ser extirpado; é o inimigo seja “isentão”, esteja ou não no outro lado e não há outros; se você não está comigo, só há um lado para estar. Então todos estão “certos” com um lado que escolheram em louvor à democracia ou ao deus que falhou.

Para mim não há opção que nos livre dessa escuridão, onde os dois lados que arrogam o destino de nossas vidas e se travestem de luz enquanto trazem a espada da miséria e da mais absoluta morte da liberdade. Não há verdadeira esperança se entrarmos nesse jogo e a pior coisa que se pode fazer é tomar partido, assumir um lado, ou decidir, como se o tabuleiro da vida dependesse exclusivamente de assumirmos um mal necessário. O melhor é se afastar dessas duas trevas, para que a verdadeira luz brilhe de dentro para fora, para fazer brotar uma fé que supere forças tão diabólicas que tentam nos dominar a partir do que pensamos. A história da liberdade é feita por cada um que decide pela autoconsciência; não pode ser contada com legitimidade pelo coletivo, não subsiste por um aparato de poder estatal que se arroga detentor da definição sobre o verdadeiro e o falso; tão-somente é uma obra de cada indivíduo que decidiu buscar a verdadeira liberdade e se encontrar para sentir a força da natureza que sempre triunfa no final que elegemos quando levamos a sério nosso próprio juízo: a verdade.

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