Nessa vida de empreendedor das palavras, a maior amizade que encontrei foi com as aspas.  Com elas posso expressar sentimentos politicamente inadequados, mediante a cultura de “maturidade” que há no cotidiano, em especial quando me deparo com quem é mais sensível aos dilemas da vida como a política é e costuma abraçar mitos personalistas e paixões ideológicas, chegando ao ponto de dividir a humanidade simplisticamente entre certos e errados mediante uma visão moral que não permite à escuta nem a privacidade de ideias do outro; há uma linha a seguir. Entenda-se “certos” os que são a favor de suas convicções políticas que planejam consertar o mundo e a humanidade, e “errados” os que as contestam e/ou preferem outros caminhos. Quem não os apoia está em um [único outro lado: do adversário “comunista” ou qualquer outro “ista” ou “ão” de “isentão”. O mundo dessa gente é binário e impossível de ser vivido com a poesia dos livres pensamentos.

Uma das aspas fez questão de salientar o fato de que dada a “consistência” das ideias que rege este mundo, onde muitos estão sensíveis demais e cheios de certezas, se colocando até no lugar de políticos os amando mais do que Deus, sobretudo quando alguém decide ser mais contundente, duro, crítico, ou simplesmente desabafar em momentos de extrema indignação com suas personalidades tão moralmente “sãs” e “veneráveis”. Percebi de imediato o insight. A outra, que completa o par, me disse que eu tenho que sofisticar mais a liberação de meus sentimentos mais profundos porque muitos estão em uma única e vazia esperança quando há várias à espera de um despertar. Depositam na política e nos políticos o que lhes resta em um mundo complexo demais onde os discursos e as narrativas servem como alucinógenos.

Ah… As aspas conversaram comigo hoje e como amigas de sempre, ofereceram uma nobre ideia. Disseram-me que estão sentido minha falta. De fato, as tenho lembrado pouco. Por que não as apliquei nos momentos mais indignos de meu espírito inquieto com o hospício dos redentores da humanidade construindo o caminho da servidão na face da terra? As minhas amigas aspas têm inúmeras utilidades, não apenas para destacar um termo ou discorrer uma citação de outrem. Então foram cordiais comigo para me lembrar que preciso aplica-las naquele sentido que tanto aprecio e que me aproximou do humor refinado e sarcástico dos eruditos italianos. Chega de ser direto. Aspas para que te quero!

A sagrada língua portuguesa as tem em glória, então, preciso usa-las mais na matrix, aos digamos por demais “consistentes” e “maduros” nas concepções dos problemas fundamentais deste bizarro século; àqueles que enxergam o mundo apenas na medida do próprio olhar e não percebem que a imensidão dos sabedores, a dispersão do conhecimento e dos fatos nos convida a celebrar mais introspecção e reflexão, mais diálogo e menos certezas, porém quando a insensatez ou a radicalização de quem quer salvar o mundo com seus deuses da política de estimação, empurrando todos nos abismos das certezas sem dar opção a outras visões além do “adversário” eterno que se parece consigo mesmo, me cabe então fazer valer a amizade que tenho com as aspas.

 

P.S.: A falta da “pele em jogo” na política

O maior problema dos “maduros” crentes na salvação ou melhoria do mundo tratado pela política empoderando seres humanos é o fato de que quando os planos deles dão errado (e costumam dar com bastante frequência), todos têm que pagar a conta. Se o prejuízo ficasse apenas entre os devotos juntamente com seus redentores políticos, a política definharia como negócio de indivíduos digamos “bem intencionados”; ao socializar prejuízos de planos que são impostos a todos os financiadores (“contribuintes”) assim a política consegue atrair tão-somente os mais “honestos” e “altruístas” da espécie humana (olhem elas aí…). Trata-se essencialmente, e na dura prática do jogo de poder, de uma atividade cujos danos dos riscos efetivos saem dos formadores de planos e são compartilhados com quem apoia e não apoia; pagamos a conta do Mensalão, do Petrolão, e pagaremos assim os próximos escândalos (inevitáveis e fundamentais para o negócio de “fazer política”),só assim a atividade continuará seu caminho para atrair quem deseja viver do dinheiro alheio, arrumando conta para os outros pagarem; é só para isso que foi institucionalizada.

Não há propositalmente a “pele em jogo” na política em termos econômicos, atingindo o órgão mais sensível do corpo humano-econômico: o bolso. Quando um político erra, pagamos todos. Quando um empresário ou investidor sem vícios com o Estado, erra; paga junto com seus parceiros e só. A sociedade apenas assiste. O político exerce uma atividade de risco zero do ponto de vista de um investidor habituado a viver no verdadeiro mundo do capitalismo, correndo riscos diversos, muitos impossíveis de serem mensurados. A essência da política então é o socialismo, uma forma de aversão a riscos, uma maneira de empurrar a conta dos erros nas costas dos outros, os otários chamados de cidadãos ou eleitores.

Em outras palavras… Se um militante apaixonado por algum político tivesse que pagar do próprio bolso pelos erros das políticas que defende, juntamente com seu ídolo e pares da militância, na mesma proporção que um empresário paga quando erra um investimento, fracassa em um negócio, certamente não teria tanta paixão assim em apoiar quem vive de disseminar ideias com o dinheiro dos outros, pela política, Tal militante não seria tão inconsequente, não defenderia político apenas por ego, orgulho ou malandragem; tenderia a ser uma pessoa bem mais realista, crítica, prudente, racional, diria mais lúcida , consideraria mais os fatos, teria repulso por narrativas e assim certamente seria uma pessoa mais madura para refletir acerca de problemas da sociedade.

 

P.S.2: A festa das baleias

Os mercados acionários pelo mundo tiveram um impressionante rali nas últimas semanas em plena pandemia com companhias à beira da falência. S&P 500, Nasdaq,  Dow Jones, DAX, FTSE e até o Ibovespa celebrou o aparecimento do Touro de Ouro, saindo rapidamente de 70k indo até 95k para depois dos efeitos (curtos) das intervenções governamentais, perderem fôlego para uma “correção”.

Bancos centrais emitiram dinheiro e encheram os mercados de liquidez e assim os negócios com ações viram na oferta de recursos financeiros artificializados pelas impressoras o rápido encarecimento dos papéis, após uma brusca desvalorização pela avaliação dos riscos da pandemia. Mais dinheiro, mais demanda, preços de ações sobem de bate pronto. Quem opera no day trader ou utiliza outros métodos de curto prazo para operar, ganhou muito dinheiro desde quando os mercados desabaram em março e as doses de adrenalina foram dadas, dopando mais o “paciente”, a economia global. O mercado clamou e os governos atenderam sobre o pretexto da pandemia para o socorro dos mais pobres…. Será? Já se fala em mais dinheiro sendo jogado pelos bancos centrais e o argumento é de que virá uma segunda onda de contágio do coronavírus (seria em outubro, mais uma conversa mole para provocar ondas de valorização artificializadas) e assim as baleias e a grande mídia “justificam” ou induzem os leigos a “entenderem”  que será necessária mais emissão de dinheiro. Trilhões de dólares jogados que fizeram a alegria dos grandes investidores. Mais quantitative easing a caminho? Provavelmente. Por aqui na Banânia não foi diferente; o Banco Central enchou o mercado de liquidez para ajudas os mais “carentes”.

Em suma, os mercados desabam, as baleias “operam” na grande mídia tocando o terror de que a economia vai colapsar e os pobres vão sofrer, então os bancos centrais jogam trilhões para a liquidez e os lucros de 10, 20, 30 ao dia surgem para serem convertidos em ativos decentes enquanto os Estados vão ficando cada vez mais quebrados, cujo endividamento é útil para emissão de títulos públicos que as baleis vão comprar. E os pobres assistem a tudo bestializados e confortados com o “socorro” do governo.

A emissão de dinheiro dos bancos centrais é defendida por políticos populistas como Lula. Acontece que essa política econômica beneficia muitos mais os RICOS nas bolsas que aproveitam a onda de valorizações que a enxurrada de dinheiro provoca nos ativos e transformam seus lucros em coisas mais consistentes como o ouro, ou dólar americano (tenho minhas ressalvas quanto a este último). Surfam nas curtas ondas de valorizações e depois saem. Voltam, surfam de novo, na medida em que bancos centrais jogam mais dinheiro nos mercados.

Pois bem, a emissão de dinheiro e o consequente aumento do endividamento do Estado vão gerar uma conta monstruosa lá na frente que terá que ser paga através de mais impostos, pior seria com inflação (mais emissão de dinheiro, desta vez impactando índices de preços). O governo brasileiro sugere privatizações para amezinar os impactos de um déficit que pode chegar a 94% na dívida bruta. Bem, no caso de mais impostos talvez muitos pensem que é só fazer uma “boa” reforma para cobrar mais dos ricos, todavia esquecem dos problemas de encarecimento na cadeia produtiva (os grandes empreendedores viciados ou não com o Estado repassam os custos tributários diretos e indiretos aos negócios e no final quem paga mesmo são os consumidores), além da fuga de capitais, um problema que forçaria mais intervenções na expansão da liquidez (inflação). Então, os políticos, sabedores disso, impõem um sistema de tributação sobre o consumo que afeta os mais pobres,  justamente entre mercadorias de primeira necessidade, pois só assim podem ter mais arrecadação garantida. Por isso que remédios, alimentos, combustíveis e outros artigos tão essenciais ficam tão encarecidos com impostos. Tudo isso é PROPOSITAL.

No final de tudo, são os pobres, por meio do sistema tributário no consumo básico, quando forem fazer a feira ou abastecer nos postos, que vão pagar o BEM, o auxílio emergencial e toda impressão de dinheiro do Banco Central quando a pandemia cessar. Esperar pelas privatizações é confiar na combinação dos “russos” do Congresso, além de que é insuficiente. E o Lula, assim como o Guedes, ministro de Bolsonaro e tantos outros que vivem no mundo da política fazendo o povo pensar que riqueza nasce em árvore, defendem tais coisas…

Isso é a MALDADE PURA que só a política é capaz de fazer. As pessoas comemoram a liquidez, a impressão de dinheiro, o aumento da dívida do Estado, que é a própria ida para o abismo, como se fosse solução. Não sabem que estão caminhando para a ruína, para o caminho mais profundo da servidão no custeio mais encarecido do Estado.

 

 

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