Se eu pudesse fazer uma cidade privada do “meu jeito”, tendo todos os recursos ao meu dispor, fatalmente seria um desastre; não a realizaria.

Sabedor de que o ser humano tem insondáveis elementos de imprevisibilidade e o conhecimento na sociedade está disperso, como sugere o sábio Hayek, se eu insistisse na ideia, cairia na mesma ilusão do “interventor ingênuo” de Taleb. Seria mais um planejador central a entrar na lista dos fracassos; a única diferença é que seria um fiasco bancado com os meus próprios recursos.

A questão de pensar uma sociedade de “governo” privado, partindo de uma mente ou um conjunto de “notáveis”, cairia no mesmo problema que faz o Estado atual ser tão falho em seus parlamentos e palácios. A construção de uma gestão comum no âmago social  deve ser dinâmica, de baixo para cima na vertical e sob dialética horizontal, formando bases sólidas por meio de maturidades entre negócios e regulamentos dependentes de livres trocas, sendo assim efetivamente participativa e derivada de relações tensas e concomitantemente consistentes entre um considerável volume de agentes sociais.

Quanto mais positividade  com apelo unilateral ou de cima para baixo, não importa se for de um planejamento privado que banca toda a infraestrutura, e dela estima auferir seus lucros, ou que seja de um determinado grupo de interesse (esse último problema é inevitável), o problema da dispersão do conhecimento estará no tabuleiro das intenções e mais efeitos colaterais, ou “iatrogenias” como sugere Taleb, ocorrerão no processo de configuração do “software” de um “auto governo”. Não há como prever como a teia imensa de comportamentos das pessoas formariam uma dinâmica de reações comuns a uma mudança de sistema no modo de governo (de estatal para privado) tampouco como funcionaria, precisamente, em aspectos culturais, econômicos, sociais, uma sociedade sob compliance privada, e considerar isso também me parece ser importante, inclusive como uma barreira complexa a ser vencida. Tudo isso não quer dizer que eu deva desistir do tema pela sua recente e complicada demanda ou que seja algo utópico do tipo “tem que ter estado e pronto”. Muito pelo contrário! É uma questão que não compromete o sentido do estudo; e sim indica um aspecto fundamental que não devo ignorar, enriquecendo o processo de compreensão dos fatores envolvidos.

Estudos em projetos que estão ocorrendo em Honduras sugerem a importância de uma normatização objetiva e prudente, mas ainda há presença estatal dando a legalidade dos contratos e termos essenciais, embora a proposta de lá seja inclinada a um sistema de leis comuns (common law). Uma coisa me parece evidente: o Estado, como o conhecemos, depois das monarquias, baseado em um sistema de democracia republicana sob sufrágio universal, monopólio territorial, benefícios sociais com base em impostos, integração forçada e regulações políticas em serviços essenciais, entrou em processo de deterioração das sociedades (problema já há um bom tempo suscitado por Hans-Hermann Hoppe em “Democracia, o deus que falhou”) e é possível que partes dessas sociedades se reorganizem para formularem outras formas de gestão e esse processo pode ser longo, demorado ou não tão complicado assim como imagino; não é possível prever. É possível estudar e agir, digo se arriscar investindo nos projetos e participando das formulações de compliance.

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