Do alto montanha, um belo sábado interrompido por um olhar contrito com a peculiar “rasgação de seda” que acomete visitantes inesperados e indesejados. Notei que se tratava de um devoto do que passei a chamar de “Igreja Bolsonarista dos Últimos Dias”, composta por crentes que se dizem “conservadores nos costumes e liberais em economia”, devidamente cativados por uma tribo de trogloditas e animais selvagens também conhecidos por “políticos”, cuja ciência mais apropriada seria a zoologia, muito bem disfarçados de gente “bem intencionada”.

O jovem-massa rompeu o agradável silêncio proporcionado pela ausência humana de um ambiente bucólico, harmonizado com o fundo musical de cantos suaves de passarinhos e do som agradável do vento chacoalhando arbustos, sendo tudo o que me basta… “Mestre, o que é o socialismo?”.  Que pergunta infeliz, pensei. E nada mais curioso me ocorreu neste lindo sábado, com um beato da Igreja Bolsonarista querendo saber o que é “socialismo”. “É o produto de maior sucesso nos mercados”, respondi de bate-pronto e me afastei para fora da caverna, como quem não queria mais conversa.

A resposta breve parece ter decepcionado o rapaz, que esperava alguma explanação alongada começando com Marx, Lênin, Croce, Gramsci, Theodor Adorno,  Max Horkheimer, Olavo de Carvalho, um pouco de Friedman e Sowell, só para enaltecer o “capitalismo” dos liberais, passando por meus queridos da Escola Austríaca, Mises, Hayek, Rothbard, Hoppe etc e tal. Autores entre tantos mencionados quando o termo vem à baila entre apaixonados defensores e contestadores. Nada disso; apenas uma superação de tese e antítese para o momento me pareceu suficiente como uma síntese hegeliana caindo como uma bomba nuclear na cabeça daquele mancebo mais perdido que o até então advogado do Queiroz.

Mudo, desci até o vale seguido pelo insistente bolsonarista, confuso com a resposta; adentramos em um bar e enquanto apreciava um Rosé Piscine, ao fundo musical de um show de Chico Buarque de Holanda no telão que animava um grupo de “irmãos” da outra igreja, onde o famoso cantor e compositor anima os cultos e concorre com a confissão bolsonarista, a Igreja Lulista, em uma empolgada discussão sobre a paternidade das obras de transposição do velho Chico. E eis que rompi o silêncio, talvez pelo efeito do francês etílico. Iniciei a pós-síntese:

Jovem, olhe para o telão. O artista, o que deseja em termos práticos no que faz para ganhar a vida? Vender mais as músicas que produz, os livros que escreveu; quer vender mais ingressos caros para os shows…Enquanto isso, quem sabe, uma boquinha com os amigos em governos progressistas… Olha, acho difícil um dia ele abrir mão do luxo em que vive para compartilhar a riqueza que tem com os mais pobres que tanto se diz preocupado. Vai deixar isso para o Estado fazer através do socialismo. O outro que aparece dando uma “palhinha”, o grande cantor e compositor Caetano Veloso, o que acharia se o MST invadisse suas propriedades? Você acha que ele faria uma reforma agrária espontânea com suas posses só para demonstrar o amor que tem pela causa socialista?

Vejamos a mesa agora: há um empresário nela com a tatuagem do Che Guevara no braço. O que ele deseja nos negócios? Socialismo na gestão de sua bem sucedida rádio? Como todo animal econômico, ele atua para que ela tenha mais audiência e assim possa fazer mais negócios lucrativos com anunciantes…Precisa de capitalismo. Além disso, não ficarei surpreso se deseja também mais contatos com a política para que leis e normas sejam ajustadas aos seus interesses, sempre pessoais, que normalmente dificultam o desenvolvimento de um livre mercado… Na medida em que enriquece, como todo empresário viciado em laços com o Estado, fatalmente vai almejar mais socialismo em planejamentos centrais do governo para evitar concorrentes… O socialismo é um negócio poderoso, para fortalecer os mais ricos que não querem mais enfrentar as coisas do mercado.

O magistrado na mesa, não passa de um dependente de empresas privadas e indivíduos recolhendo impostos para pagar o seu altíssimo salário. Carece de uma economia capitalista gerando riqueza suficiente para sustentar o parasitismo no Estado… Sabendo ou não disso, ele se acomodou no conforto, no bem estar, nas regalias, tudo bancado de forma alheia à pobreza que o cerca embora possa ter até um discurso comovente fazendo do tribunal um difusor pelos mais pobres.

A professora de ioga, a mais comedida na mesa, embora esteja com a faixa “Lula 2022” enrolada na cabeça com um olhar de mestre dos magos, quer ficar mais conhecida na sociedade; entenda “sociedade” como mercado consumidor, quer que seu canal no YouTube tenha sempre mais visualizações para faturar na monetização. Ela quer ter mais alunos e assim lucrar mais e duvido muito que fará socialismo com o que tem, sendo solidária com outros colegas de profissão que dão aulas e concorrem com ela na oferta de serviços…

A outra professora que está na mesa trabalha em uma universidade federal. É uma conhecida defensora do ensino “público, gratuito e de qualidade”, porém tem todos os seus filhos estudando em escolas particulares, sendo as mais caras da cidade. Curioso, não? Socialismo para os filhos da massa, serviço privado para os da família. Ah, esse capitalismo é tão malvadão…

O professor de filosofia e palestrante ao lado dela, com a camisa do PSOL, usando um iPhone recentemente lançado, quer vender mais palestras e ter mais alunos e donos de faculdades interessados em suas “aulas”. Sabe que bons contatos por afinidades ideológicas pesam muito nesse meio e por isso propaga progressismo, mas no fundo quer mais mercado e na hora de receber os honorários, duvido muito que seja solidário ou progressista com seus concorrentes….

Nesta mesa tão politicamente correta, juntando os artistas do telão, todos querem essencialmente os efeitos mais cobiçados do capitalismo: enriquecimento, mais negócios, mais mercado, cada um pensa sobretudo em si, todavia estão incrementados pelo uso de discurso coletivista de acordo com os interesses dos negócios em torno de um poder político que lhes possa ser conveniente. Esse poder é para que se protejam dos efeitos competitivos do capitalismo no intuito de atrapalhar o enriquecimento que desejam. Entenda: todos querem economia de agentes privados embora os condenem em ocasiões oportunas, perceberam que o capitalismo é onde a conta pode ser paga e nos governos os privilégios são concedidos;

Todos os soças profissionais aprenderam onde satisfazer os desejos de ter acesso a mais bens de luxo, viagens em voo de primeira classe, hospedagens em hotéis de alto padrão, comer e beber em restaurantes caros, coisas que apenas o capitalismo possibilita enquanto empreendedores. No entanto, todos eles não abrem mão de anunciar o socialismo como resposta para melhorar a vida dos mais pobres. Como isso pode fazer sentido?

Primeiro, não despreze o fato de que os mais pobres, enquanto desconhecedores das reais intenções das políticas “públicas” (do Estado), que são todas socialistas, representam um mercado consumidor não apenas de bens e serviços dos quais muitos não conseguem ter e tanto desejam. São consumidores também de ideias que supostamente resolverão seus problemas concretos mais profundos. E o socialismo opera neste meio, no mundo encantado das soluções planejadas por políticos e burocratas do Estado e estimuladas pela cultura por meio de agentes militantes que alimentam esperanças, mesmo que falsas, baseadas em argumentações rasas ou fraudulentas, ancoradas em narrativas onde só a ignorância pode dar ouvidos. Vender o socialismo então fica evidente como um excelente negócio para explorar a fé ingênua da massa sofrida. Artistas vendem socialismo de forma mais agressiva na medida em que lidam com um público muito variado, porém se há predominância de indivíduos carentes que precisam escutar a tal esperança socialista… Eles acabam vendendo ideias que não acreditam ou não aplicam em suas vidas. Quem te disse que mentalidade de mercado depende de valores pela ética? Certamente encontraremos pessoas com valores que cultivamos, mas muitas outras atuarão nos mercados sem qualquer constrangimento em relação à moralidade que outros têm sobre seus negócios. O socialismo é ideia que podemos julgar como indecente, mas isso nada significa em função da lucratividade que atrai seus vendedores.

Segundo, ir em busca do sucesso econômico é algo que passa pela compreensão do que consiste o mercado: um ambiente de relativa livre competição geradora de tensões (oferta/demanda) por força de interesses inúmeros, onde há uma forte combinação de riscos assumidos em investimentos e disposição para se expor a todas essas coisas. Então, há o mérito pessoal,  pelo próprio esforço e pela ousadia de agentes para tentar entender e atender melhor os consumidores. Também há uma boa dose de sorte, que seria a aleatoriedade nas coisas inexplicáveis ou o acaso impactando ações humanas e fatores diversos na dispersão do conhecimento. Ora, meu jovem, tudo isso é complexo demais para quem está na base da pirâmide social e vê a banda passar sem entender direito a melodia e escuta uma conversa de que há um outro caminho supostamente mais fácil: este “caminho” é o socialismo, que é apresentado como um atalho para galgar degraus em avanços a quem se vê como incapaz diante do sistema de mercado ou sujeito a infortúnios da vida, coisa tão comum…  O socialismo é o suposto maior benefício aos fragilizados, sem passar pela dureza da vida competitiva, sem exigir riscos maiores, sem esforço pessoal, sem esse papo chato de adulto chamado economia. Assim, o socialismo como promessa nega a realidade, a escassez, a economia da dura realidade; é algo que tende a ser mais apreciado, sobretudo entre imaturos desde a adolescência, desiludidos, preguiçosos, espertalhões, acomodados, ingênuos e incautos que passaram anos sendo doutrinados no sistema de educação controlado por quem? Quem faz o sistema de educação? Os políticos legisladores e executivos nos palácios. A massa passou anos sendo doutrinada, ou “educada”, para acreditar no que Friedman descreve como “mito do almoço grátis”. Tal mito é poderoso. É o produto da educação estatal que, ao contrário do que dizem, é muito eficiente… Na formação de socialistas imbecis, sonhadores, românticos… O socialismo da massa.

Quem está no poder político opera apenas para se manter em privilégios pelo monopólio da força do Estado, a base do socialismo pensante consiste em um instrumento de proteção contra os riscos naturais do capitalismo. Um sujeito quando fica rico e percebe o que é o socialismo nos planejamentos centrais, logo se tornará um financiador de políticos que propagam socialismo, obviamente. No entanto, essa indústria de socialismos também proporciona um escudo contra os piores efeitos que o esquema exige, ou seja, o financiamento do Estado, a máquina de fazer socialismo na massa; refiro-me aqui ao sistema tributário, sempre pensado para poupar poderosos e retirar dos mais pobres, de maneira que não percebam que estão sendo ainda mais lesados. Sabemos que há várias formas de se fazer isso: imposto na fonte, substituição tributária, regime monofásico, entre outras coisas que embutem custos na cadeia produtiva, atingindo todos os bens e serviços de primeira necessidade onde os mais pobres consomem, assim como os ricos e como todos pagam a mesma coisa nessa cadeia de custos tributários, sendo a massa (maioria) da pobreza, quem vai financiar mais o esquema? Desta forma são os pobres que bancam o suporte ao socialismo enquanto consomem o socialismo como esperança fraudulenta.

Terceiro, o socialismo é uma construção baseada sob um forte e contraditório apelo moral para denunciar o capitalismo como coisa adversa, imoral, de pessoas egoístas. No entanto, o esquema socialista do Estado, transferindo riqueza dos mais pobres para o “hub” estatal que depois redistribui tudo em migalhas à ralé e privilégios aos poderosos e asseclas, concedendo planejamentos centrais que dificultam mercados para quem está na base da sociedade dos mais carentes, acaba sendo a coisa mais egoísta já inventada pelo homem. Enquanto isso, os maiores vendedores de socialismo, digo, políticos, empresários amigos do rei, investidores que querem mais planejamento e intervenções dos bancos centrais para inflar liquidez e fazer subir as bolsas, artistas em geral, jornalistas, magistrados e tantos outros militantes profissionais no interesse de vender a esperança em um produto de fácil aceitação; são muitos interesses que convergem para vender o socialismo a quem está apenas sob a ilusão. Em tempos de tragédias, como a do covid-19, isso se torna ainda mais fácil de ser propagado e aceito enquanto os vendedores ampliam cada vez mais a imagem de moralmente melhores do que realmente são. O socialismo é um produto com diversas vantagens para os vendedores e tão somente ilusões aos compradores que não fazem a menor ideia do que estou consumindo. É um golpe que faz multidões entrarem em um inferno de impostos e burocracia do Estado pensando que chegaram ao paraíso onde dinheiro nasce em árvores. Além do elevado lucro que proporciona, não resulta em reais benefícios aos compradores enquanto pensam que é o melhor a ser feito. O socialismo é a “matrix” que os mantêm cativos do “caminho de servidão”, cada vez mais dependentes das esmolas dos planos de benefícios sociais que os transformam em mercadorias ou “gado” no imbecilizante jogo eleitoral.

Enfim, meu jovem, todos vendem socialismo: esquerdistas, direitistas, conservadores, progressistas, cada um conforme suas conveniências, porque entendem que se trata da ideia mais popular que existe, com maior aceitação, principalmente entre os mais pobres, não por acaso a maioria no mundo, enquanto são mantenedores das bases que alimentam o esquema, partindo da cultura por ideias comuns em Gramsci e na Escola de Frankfurt, para um público consumidor que não suporta o realismo da economia e assim permanecerão os vendedores no topo desta grande “bolsa”, não sei se intuitivamente ou de forma mais racional, convictos de que uma forte dose de maturidade econômica, nos discursos e nos atos políticos, não interessa quando o objetivo maior está em infantilizar os ouvintes consumidores para vender esperanças vazias.

O socialismo venceu como a mais bem sucedida obra de marketing em sociedades onde multiplicar os carentes é uma necessidade imperiosa no jogo político baseado na democracia; um pobre a mais, um voto a mais para quem anunciar melhor o socialismo. Neste aspecto, também se trata de um jogo de carismas. Não será uma surpresa constatar que todos os vendedores de socialismo, ao perceberem que se trata de algo tão amplamente bem recebido, se fechem em conchavos cada vez mais poderosos e então, o socialismo se configurou em continua mutação nas veias do capitalismo pensado pelos clássicos e o transformou em outra coisa, através do aparato do Estado moderno.

Por fim, empresários, artistas, juízes, personalidades em geral, a imprensa, a sociedade acima da pobreza, predominantemente, atua com toda empolgação neste imenso negócio chamado “socialismo”, para que a conta de sua propagação e manutenção esteja sempre mais sobre os outros; entenda  “outros”, os mais pobres, maiores pagadores de impostos, sob a alienação dos vendedores que demonizam o lucro e a riqueza, as coisas que lhes interessam sobre todas as outras.

 

 

 

 

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