O evento Expert XP 2020, da XP Investimentos, terá a participação de Nassim Nicholas Taleb. As obras do  filósofo e matemático têm constante presença em muitas de minhas perturbações intelectuais nos últimos 10 anos. Então, vou fazer um breve resumo dos problemas que me ocupei considerando os dois mais comentados livros dele: “A Lógica do Cisne Negro” e “Antifrágil”.

Começando pelo problema do acaso. Pode se pensar logo no latim, “A casu” , termo que se aplica a algo sem causa aparente, fato sem explicação conhecida. O pensamento de Taleb vai desdobrar isso em muitas derivações pela dispersão das causas, não raramente, envolvendo inúmeros fatores fora do controle e da razão que o agente humano pode ter, impactando seriamente  quem observa um determinado fenômeno carregado de “aleatoriedades”. Não saber explicar seria um simples “não sei”, mas, observo que o ego de minha espécie costuma falar mais alto, sobretudo entre aqueles que fazem previsões, além de dar explicações sobre as coisas que não conseguiram prever (algo tão comum). A filosofia de Taleb toca nesse ego tão sagrado.

Taleb me perturbou quando percebi a confusão entre ausência de evidência com evidência de ausência em muitas de minhas avaliações, análises e conclusões. A partir dessa constatação, pude entender melhor o problema do Cisne Negro que evidencia uma questão crucial de ilusão sobre o que se tem por conhecimento. De uma constatação hoje simples para apreciadores de aves, de que até ser descoberto na Austrália, no século XVII, até então a ciência definia o cisne como uma espécie de restrita coloração branca. Parece uma coisa simples, no entanto desnuda um grave problema de conhecimento de uma “verdade” humana não combinada com uma verdade da natureza, que esconde outras verdades que desmontam certezas mediante conhecimentos limitados pelas observações que geram conclusões equivocadas, por estarem em níveis muitas vezes super estimados.

Estamos a mercê das coisas aleatórias, do desconhecido, do inesperado e são nestes pontos que Taleb despreza o trabalho de economistas. Embora não seja um pensador da Escola Austríaca [1], considero Taleb um tanto próximo de F. A. Hayek quando avalia problemas do conhecimento em função da dispersão, no velho problema sobre o que podemos saber, indo além, de forma socrática, esmiuçando os problemas do não-saber. E esse não-saber, por força da dispersão, tem um peso muito maior enquanto nos apegamos ao que sabemos, crendo na segurança das especializações enquanto o não-conhecido ronda por aí, para desapontar os “intervencionistas ingênuos”, outro termo que lembra Hayek, este último em relação aos problemas que inviabilizam o socialismo como forma de planejamento central. Taleb aborda a iatrogenia como um desdobramento do “intervencionismo ingênuo”, onde as ações planejadas de interferência geram efeitos colaterais indesejados (termo extraído da medicina).

Não podemos prever. Vivemos em um imenso universo de aleatoriedades que, a qualquer momento podem nos devastar (em Cisnes Negros Negativos) ou nos surpreender positivamente (Cisnes Negros Positivos). Nessa incapacidade de prever reside a aparição do Cisne Negro, provocando grandes impactos e perturbando a ordem que seguimos, as ideias organizadas que, após o abalo tenta criar formas de tornar eventos similares mais tratáveis ou menos impactantes. Os Cisnes Negros demonstram o quanto somos induzidos a crenças em um mundo seguindo um script… E entre economistas,  a crença reside em demonstrações econométricas que reverberam o velho problema da ilusão de que do passado se pode estimar o futuro com relativa robustez em arranjos matemáticos, projeções, modelos estatísticos, com chancela probabilística.

Como lidar em um mundo tão complicado, instável, com tantos riscos que não podem ser estimados e com a verdade de que não podemos prever?

Na vida em geral, a aleatoriedade é a regra que corre muitas vezes “silenciosamente”, contando com nosso excesso de confiança em coisas sistematizadas, “estáveis”, e saber identificar as nossas fragilidades, os pontos falhos que temos, são os primeiros passos para tentarmos uma melhor relação com Cisnes Negros que podem estar por aí ou por vir.

Precisamos analisar melhor as  “opções” que tomamos na vida que possam nos expor a riscos de ruína, efetivando uma grande fragilidade.

Estar endividado é um elemento de fragilidade perigosa. Não ter planos de contingência para ocorrências simples ou moderadamente complexas que envolvam o básico da existência, também. Não ter o hábito de se preparar para algo presumível como pior, quando o melhor parece ser sempre “certo e garantido” em atividades do cotidiano. Outro comportamento “fragilista”: não levar a sério pequenos problemas que vão se avolumando, evitando enfrenta-los por causa de certas instabilidades que provocam (emocionais, financeiras, afetivas), muitas necessárias ao aprimoramento pessoal, cujas falhas ocultas vão tornando as coisas mais interligadas e complexas.

Mas, quando um grande evento, imprevisto, de grande impacto acontece, podemos nos beneficiar também?  Esta perturbação de Taleb é, para mim, a maior contribuição do pensamento dele. Tomar proveito do caos, de Cisnes Negros, de grandes coisas imprevisíveis, é uma condição chamada de “antifragilidade”. Ser proativo não vai garantir a “antifragilidade”. No máximo, gerará alguma robustez, resistência ou resiliência no viver.

Logo me vem à mente a mentalidade de “opções”, quando o conceito de “antifragilidade” é exposto. Mas é algo bem além disso. Nesse aspecto, aprendi com Taleb a ver a lógica binária de ser/ter/optar por “isto” ou “aquilo” como uma coisa a ser vencida, um tanto assimétrica. Então penso na ideia do “mediocristão”, um ambiente de maior segurança, menos instabilidade, onde curtimos nossa vida com algumas certezas que nos passam um certo conforto mental. Mas há o “extremistão”, onde os Cisnes Negros acontecem e a volatilidade humilha a condição humana de tentar prever as coisas.

O caos é inerente aos que se aventuram no “extremistão”.  A visão binária de problemas é um obstáculo a ser superado. Imaginemos duas situações opostas e aparentemente auto excludentes, do ponto de vista dos impactos que podemos projetar e, especialmente, sobre a relação que possuem com um ambiente em caos. O que nos traz mais segurança em tempos de crise econômica? E o que seria uma temeridade ou um desastre? Se estimamos que A pode acontecer com maior probabilidade do que B, e se entendemos que A nos parece estável em ativos extremamente seguros, sendo mais favorável em termos pragmáticos, então penso fora da “lógica binária” ou bipolar de A (seguro, no “mediocristão”) versus B (aventuras do “extremistão”), por condições para que fatos que dizem respeito a B, ocorrendo, também sejam potencialmente benéficos, mesmo que em uma linha de tempo sobre outra dinâmica, talvez maior, e ainda considerando por demais equidistantes em minha limitação de maturar as coisas? É a chamada “Estratégia Barbell” que traduzindo, seria investir de 70 a 80% em coisas do “mediocristão” e de 20 a 30% lá no “extremistão”. Em outras palavras, do ponto de vista prático hoje, em tempos de covid-19, seriam 70% em ouro  e o restante em criptoativos, ações e derivativos.

Trata-se de uma visão muito além da tomada de vantagens quando se tem em mente a diversificação de ativos no mercado financeiro [2], de tal maneira que a não ocorrência de algo que parecia mais provável, e aparentemente mais vantajoso, também retorna mais efeitos de ganhos do que perdas, compensando em termos gerais.

Com uma mentalidade anti-binária, vem outra perturbação: não ser avesso a erros, desde que sejam pequenos gerando aprendizado e que não me exponham a riscos de ruína. Pensar em um sistema de gestão da vida que seja mais aberto a interações conservadoras, moderadas e ousadas. Os erros pequenos no processo se tornam essenciais na medida em que possa apreender e aprender os pontos críticos, conhecendo melhor como se dão as instabilidades ou falhas nas decisões e procedimentos. Em um mundo em que muitos foram educados a evitar erros, Taleb me provoca para uma tarefa de me expor calculando limitações de danos. Então vou do básico, como um sujeito que opera com um stop loss bem calibrado, ao que sabe da importância de um hedge cambial.

Nessa coisa de apreciar pequenos erros, é preciso também sair de modelos concentrados, centralizados, onde uma parte pode contaminar o todo. É como fixar raízes em negócios de alta volatilidade que podem impactar os que baixa volatilidade. Modelos descentralizados de distribuição proporcionam uma melhor exposição às aleatoriedades limitando impactos. Nada de misturar negócios; ca um no seu devido “galho”, de preferência bem distantes, de maneira que se um galho quebrar, o outro permanecerá firme em outra árvore. Riscos elevados a uma parte, em uma rede de ações potencialmente capaz de ser desfeita sem afetar outros eixos dos negócios, seria algo assim… Para aproveitar a volatilidade positiva e se desfazer rapidamente da negativa, superando a fragilidade, passando pela robustez, até chegar à “antifragiidade”. Taleb me provoca o tempo todo a pensar além da caixa em que posso me acomodar de vez em quando. Junto com os austríacos, o líbano-americano me ajuda a vencer diariamente o raciocínio preso a dogmas ou certezas de sistematizações disfarçadas de “livre pensamento” que alimentam vícios nas análises.

Compreendo melhor hoje, com a contribuição importante de Taleb, combinando com ensinamentos dos austríacos, que se envolver com “algo” coercitivo não significa que eu esteja de acordo e se não observar e executar o mínimo que devo fazer para cumpri-lo, estarei aumentando minha fragilidade [3] diante do agente agressor que pratica a coerção. Mas isso não significa que devo acatá-lo passivamente. Devo operar então em duas linhas de trabalho diante desse “algo”, em processos paralelos que me fortalecerão. Caso contrário, estarei transformando a robustez que posso  produzir neste “algo” que me envolve,  em fragilidade, por simplesmente aceitar uma opressão, sendo conivente com o opressor, até que se chegue ao ponto de que a vantagem de trabalhar neste “algo” produza mais iatrogenia que benefícios econômicos [4]. Isso ocorre quando o “algo” impõe riscos e custos potenciais que superam os benefícios correntes. 

Em outras palavras, envolver-se com algo coercitivo, obviamente, não se relaciona com concordância. Lógica binária não se aplica onde não há, a priori, opções primárias, e sim secundárias, como desdobramentos de circunstâncias derivadas de imposição [5].  Acaso, opções e “antifragilidade” são forças conectadas de forma muito mais íntima do que consigo imaginar.

Por fim, a mais conhecida provocação: a do “skin in the game” ou a importância da “pele em jogo”. Ora, em um mundo cheio de palpiteiros e pessoas tão convictas do que falam, procurar saber melhor o quanto e como estão de fato envolvidas, nas coisas que argumentam, se correm riscos reais com as ideias que defendem ou se estão apenas na arquibancada vendo o “circo pegar fogo”. Aqui Taleb  me provocou a ser mais crítico sobre indivíduos tão convictos, cheios de explicações, fórmulas especiais para ganhos extraordinários e certezas (coisas abundantes no mercado acionário)… Conselheiros, consultores, analistas, gurus, especialistas, economistas e outros “istas” que costumam opinar, começando pela avaliação sobre se, porventura, vivem, de fato, profundamente as coisas que falam, argumentam e quais os interesses reais que possuem nas opiniões que emitem. Um indivíduo se torna mais confiável na medida em que está exposto a possíveis impactos sobre os problemas que analisa e expõe, participando efetivamente do jogo, experimentando riscos, e na medida em que está exposto, maior legitimidade terá quando externa um entendimento que contraria o que seria mais vantajoso para si no jogo.

Em suma, para mim Taleb é um dos mais importantes pensadores da atualidade.

 

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Notas:
  1. Imagino que o termo “economista” associado à Taleb seria para ele como uma grave ofensa;
  2. Compra de papeis em opções, operações com derivativos, dentro dos 30% do extremistão, em uma pequena fatia;
  3. É neste ponto que entendo minha relação com as coisas que o  governo em obriga a fazer.
  4. Quando o governo impõe regras de “compliance” a negócios que se tornam por demais complexas, elevando custos a ponto de solapar o negócio de atendimento em si; então, para entender o que estou argumentando, sugiro perguntar a um membro de uma TI que trabalha com “obrigações fiscais” o que está ocorrendo com o suporte nesses dias de eSocial… ;
  5. Esse “algo” pode ser visto como “imposto”, “obrigações acessórias do fisco”, “democracia”, enfim, tudo que é coercitivo e exige posicionamentos dinâmicos, em múltiplas vias, possibilitando mais chances de evitar uma ruina no acaso sobre mim, aumentando minha probabilidade de ser “antifrágil”. 

 

 

 

 

 

 

 

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