Ouvindo Wilhelm Richard Wagner (1813-1883), lembrei dos anos 1960 quando o matemático francês Benoit Mandelbrot (1924-2010) apresentou ao mainstream algumas ideias, bem diferentes da visão de mundo gaussiana [1] da curva na forma de sino, sobre preços de commodities e ativos financeiros, derivadas de sua ópera matemática que chamou de “Fractal” [2]. É Taleb que conta esta história e, com o senso crítico ácido que lhe é peculiar, viu o evento como mararitas ante porcos  [3]; “economistas” e “filisteus construtores de currículos” rejeitaram as ideias de Mandelbrot porque, segundo o matemático e filósofo líbano-americano, “as ideias eram boas demais para eles” [4].

Wagner, Taleb e Mandelbrot estão em minha mesa literária neste sábado frio, na caverna, à procura de um bom lugar para ler um livro… Feliz e sem visitantes indesejados, volto-me a Mandelbrot e às novas ideias “boas demais” em um mundo repleto de mentes bem educadas, devidamente formadas para pensarem de uma determinada forma. O gênio francês, com raízes judaico-polonesas, apresentou algo fora da caixa, totalmente desconhecido a uma bolha de “especialistas” do mercado financeiro e da academia europeia. E para quem vive em um mundo fechado de ideias e conceitos, ver alguém tão livre assim, além do invólucro, se torna algo desconcertante.

Bolhas são fenômenos de abrangência “fractal” com ideias, visões de mundo e conceitos acabados ganhando um peso super estimado em mentes “fechadas”, treinadas para repetir termos sem qualquer capacidade crítica para analisá-los à luz de fatos. Dentro de uma bolha há sempre dois tipos: o primeiro consiste nos líderes, os que comandam o ambiente e lucram com as ilusões alheias (são normalmente políticos, influenciadores, etc.), e o segundo tipo consiste nos “instrumentos”, ou idiotas úteis que acreditam piamente nas causas e nos valores da bolha. São fenômenos que não poupam classe social, níveis de instrução e condição econômica. Podem ser observadas desde rodas de acadêmicos doutos “filisteus construtores de currículos”, que se isolam da sociedade fazendo das universidades mundos dissociados, passando por magnatas dos mercados financeiros que só conseguem enxergar a vida com olhos de quem tem muito dinheiro e claro, pelo crivo de especialistas que se fecham o suficiente para rejeitarem o que vem de fora, entenda-se o que não pertence ao grupo “seleto”, por mais bem embasado que seja, chegando até os mais humildes da condição homo sapiens, os “simples” na linguagem agostiniana, vistos em qualquer esquina que ninguém presta atenção, controlados por conceitos progressistas que os escravizam como marionetes de ideias que servem muito mais à demagogia inerente para a atividade política, que às causas que os seguidores acreditam defender.

A mentalidade de bolha atravessa os tempos se renovando na contemporaneidade. Um caso típico é a bolha da “terra plana”, uma imaginação imbecilizante que perdura desde a antiguidade cuja visão divergia com a de sujeitos inconvenientes como Aristóteles (384 a.C-322 a.C)  [5], Eratóstenes (276 a.C.-194 a.C.), entre outros. Essa bolha aplicaram até mesmo ao Cristóvão Colombo! Não passa de uma dessas dissonâncias cognitivas que só o progressismo moderno consegue disseminar, se aproveitando da bolha da intolerância religiosa medieval, desde a  fé cristã predominante (católica-romana), cuja maldade só foi superada pela islâmica. Após a retomada do controle político pelo viés católico romano na Europa, quantos foram trucidados por atuarem fora das bolhas mais poderosas,  digo literalmente queimados por ousarem sair de convenções sem determinadas proteções políticas de padrinhos ou mecenas à época, digo, reis, duques e outros fidalgos que gostavam de bancar gênios, entre os quais figurava o Leonardo da Vinci? O capítulo macabro desta bolha ficou mais conhecido como “A Santa Inquisição”, porém quando o fideísmo deixou de ter utilidade para servir a interesses da política na Europa, entrou em evidência a exploração de uma visão laica e não monárquica do estado, em movimentos travestidos de portadores da suposta verdadeira “luz” da razão, emergiu a  “Revolução Francesa” e outra grande bolha se formou na sociedade para produzir banhos de sangue, desta vez não mais pelas fogueiras e sim pelas guilhotinas. O que o catolicismo romano medieval fez, em matéria de intolerância e desumanidade, foi então superado pelo laicismo revolucionário.

A revolução francesa foi um fenômeno de bolha em escala “fractal”, deixando de ser coisa de um grupo de progressistas aluados em um parlamento, para alcançar proporções na sociedade, regendo valores, normas, regulações, desde a mentalidade imperialista de antigos impérios como o Persa e o Romano, passando pelo fideísmo islâmico e da ortodoxia cristã medieval, assim como pela ideia liberal de estado republicano moderno, pelo marxismo como resposta ao laissez-faire e à divisão do trabalho, repercutindo outra bolha, a do socialismo, para produzir as bolhas do comunismo, do  fascismo e do nazismo, irmãos de uma mesma mentalidade coletivista-coercitiva da política, as mais letais produzidas pela humanidade até hoje. Como em toda bolha, não importa o tamanho, prevalece a tendência de aversão a “dialéticas” fora do que é visto como aceito, convencional ao que se crê coletivamente, mesmo que tenha indícios de racionalidade, senso lógico. No mundo de uma bolha não há disposição ao que Bruno Forte considera como “À Escuta do Outro” [6].

Mas há bolhas bem mais sofisticadas, quase imperceptíveis… Na academia tradicional então… Ou será que Einstein teria produzido os cinco artigos [7]  em 1905 se estivesse em um dos ambientes que limitam a nossa espécie nessa empreitada imponderável do pensar sem restrições com a teorização dominante, enquanto se disfarça de totalmente aberta?

Com seriam o Bill Gates e o Steve Jobs se tivessem optando por uma “boa formação” acadêmica antes de trazerem ao mundo suas obras de tecnologia?

Outra bolha que a população em geral não vê está na economia ou nos mercados regulados pela mentalidade da grande bolha socialista dos bancos centrais que produzem iatrogenias [8], na medida em que inflam mercados com liquidez que acabam destruindo valor das moedas e assim o poder de compra dos mais pobres, beneficiando os mais ricos nos mercados de renda variável (ações, derivativos, etc.). Uma resposta fora dessa bolha dos mercados foi o bitcoin: Por que será que o “Satoshi Nakamoto” decidiu permanecer, como diria Sartre, “secreto na própria comunicação”, ao entregar para a humanidade o primeiro modelo de blockchain que se tem notícia e a derivação do criptoativo “bitcoin”, projetados em um paper [9] de 2008? Quem ousa encarar os chefões das bolhas econômicas?

Vítimas da Inquisição, o gênio Leonardo da Vinci, o isolado Einstein em um escritório de patentes, as matemáticas subversivas do misterioso Nakamoto nas linhas de programação, e de Maldelbrot, entre outros marginais além das bolhas, cada um a seu modo revelam que há um senso, talvez mais por intuição, de que a humanidade tem uma tendência a se fechar criando bolhas na medida em que se acomoda após certas “conquistas” ou mudanças significativas nas sociedades, formando bolhas implacáveis com quem ousa ir além de limites convencionados por algum status quo,  na aventura de fazer ciência por ciência, arte por arte, filosofia por filosofia, conhecimento por conhecimento.

Bolhas estouram pela força da realidade que cedo ou tarde se impõe, assim como por amantes da liberdade no ofício humano de pensar sem complexo de “rabo preso” com o convencional. Nietzsche, outro maluco que gostava de estourar bolhas, chamou isso, no meu entendimento, de coisa para “Übermensch” fazer, ou  o “além do homem” [10].

Estourar bolhas é para poucos… A vida hodierna pode oferecer um vasto cardápio de bolhas para que o mundo se pareça mais seguro do que realmente pode ser:

Em bolhas de escolas e universidades onde há militantes disfarçados de professores transformando alunos em militantes que renovarão o processo do imbecil coletivo… Ou em grupos de seletos doutos, especialistas, e demais monopolizadores do pensar, que se fecham em esquemas que visam tão somente conservar privilégios e enaltecer seus próprios egos, silenciando tudo que não corresponder a seus interesses, onde o espaço para o contraditório não passa de retórica e o que está do lado de fora não tem qualquer apreço…

Em bolhas de movimentos, grupos, igrejas, associações, institutos, partidos políticos, clubes dos bolinhas e das luluzinhas que só formam e oferecem adeptos que não passam de débeis apologetas e trogloditas de ideias do grupo, vendidas como um pacote de soluções para determinados problemas comuns, com a tendência de confundir partes de problemas complicados com o todo ainda mais complexo na sociedade; isso ocorre quando um resultado bem sucedido em alguma situação específica é visto como conclusivo para uma maior amplitude de eventos não devidamente testados, quando não até mesmo para “salvar” a humanidade fazendo uso de teorias da conspiração, gerando indivíduos definitivamente acéfalos, delimitados a agirem de forma planejada, robotizada, guiados por algum “guru” em um senso de “missão superior”, “legalidade” (neste ponto muito comum em bolhas de grupos onde empresários e demais indivíduos são taxados de “criminosos” por não conseguirem pagar impostos e cumprir obrigações “acessórias” do hospício tributário tupiniquim), “santificação” (em bolhas por grupos políticos que se dizem levantados por vontade “divina”) ou “moralidade” (os demais que preferem não apelar ao religioso enquanto são igualmente arrogantes com alguma pureza que dizem possuir para melhorar a política e resgatar a sociedade) enquanto ignoram a imensidão de conhecimento disperso que impossibilita o êxito de suas ideias de panejamento central, quando não tendentes ao conflito interno com éticas que supostamente se baseiam, evidenciando dissonância cognitiva, se contradizendo entre o que dizem defender e o que efetivamente fazem, aliás coisa bem comum entre grupos onde prevalece os fanatismos religioso e político, ambos recheados de extremos desde políticas afirmativas, mediante conceitos que devem ser impostos aos outros por alguma visão de mundo demandante de monopólio político  para coagir, ao que deve ou não ser dito, custeado, suportado, feito e até pensado, se alimentando de dualismos absolutos, do “nós” contra “eles” (todos os que não concordam com o grupo), multiplicando os bestializados que se sentem mais confortáveis sendo governados, doutrinados, manipulados, e finalmente escravizados por algo ou alguém, do que tendo a desgastante atividade de pensar por si mesmo e tomar decisões de maturidade que, de fato, não possuem e nem desejam ter.

Em bolhas de mercados com preços de ações inflados por burocratas de bancos centrais que iludem pequenos investidores a um rally que funciona como armadilha para favorecer os que entraram na corrida primeiro, comumente as baleias, os mega investidores. E por falar em “burocratas”, uns “intervencionistas ingênuos” outros nem tanto, todos de governos planejando “soluções” para as sociedades como se tivessem o dom ou o poder divino de saber todas as demandas da sociedade e que se passa na cabeça de indivíduos que podem mudar de comportamento sem qualquer aviso prévio, assim como em bolhas daqueles que acreditam, apoiam e/ou se associam a projetos desta natureza, juntando com a bolha dos que acreditam que o endividamento público não é um problema a ser levado a sério, mesmo que fatos indiquem que geram graves impactos na vida econômica. Aqui temos uma super bolha englobando várias bolhas em torno do Estado pródigo, sempre com o dinheiro dos outros, onde a última coisa que interessa é avaliar resultados e o que sobra são apenas propagandas das “boas” intenções” e a conta da incompetência ou da corrupção para todos pagarem…

Em bolhas de influencers especialistas em promover delírios coletivos sobre temas envolvendo racismo, gênero, desigualdades sociais e econômicas ou com propostas imediatistas de autoajuda e modismos para resolver rapidamente problemas complexos de cunho pessoal, tais como ganhar dinheiro rápido em cursos relâmpago para investir na bolsa e até em minicontratos com dólar e outros ativos, sem a mínima noção sobre onde estão se aventurando, consumindo ilusões, em busca do que é agradável aos ouvidos, aos olhos e aos demais sentidos, enquanto se afastam ainda mais da possibilidade de uma mínima compreensão da realidade e como chegaram ao “fundo do poço”, cegando  uma visão que poderia ser madura e profunda de causas e consequências dos próprios atos…

Para todas essas e outras bolhas da vida contemporânea, só vejo um remédio: o cultivo da liberdade. Então creio que cheguei no ponto mais sublime e paradoxal: A liberdade, coisa muito difícil de lidar, para alguns conformados e aficionados em bolhas, a ser muito bem vigiada para evitar maiores perturbações. É a liberdade como senso de profunda responsabilidade que pode me tornar apto para uma leitura mais precisa sobre o mundo e uma resposta honesta se estou à deriva, ou não, em alguma bolha, assim como me precaver de pensamentos e ações de teor coletivista-coercitivo, essência de todas as bolhas.

Liberdade…

“Freedom is indivisible. As soon as one starts to restrict it, one enters upon a decline on which it is difficult to stop.”

Ludwig von Mises (1881-1973)

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Notas:
1. Como se o mundo estivesse apenas sujeito a explicações e ajustes quantitativos, alinhados com modelos estatísticos sob aleatoriedade branda, moderada, minimizando a possibilidade de grandes eventos além da curva. Um mundo aparentemente em paz com o “establishment”, sem ponderar a ameaça de “Cisnes Negros”;
2.
3. “Pérolas aos porcos”. Por Nassim Nicholas Taleb em “The Black Swan”, 2007;
4. Na mesma obra da nota 3, no capítulo 16;
5. Em “Sobre o céu”
6. “À Escuta do Outro”, do teólogo italiano Bruno Forte.
7. Ver “1905: Um Ano Miraculoso” por Ildeu de Castro Moreira, Instituto de Física, Universidade Federal do Rio de Janeiro
8. Efeitos colaterais inesperados e indesejados após uma intervenção.
9. Bitcoin: um Sistema de Transação de Dinheiro Ponto-a-Ponto
10. Friedrich Nietzsche em “Assim falou Zarathustra”

 

 

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