By Leonardo Amorim

Um colega certa vez me convidou para dar aulas em um MBA sobre tributação. Minha resposta o desapontou: expliquei a ele que considero o tempo o bem econômico escasso mais complicado que existe para administrar, porque não é possível saber o quanto me resta e assim tenho que aproveita-lo da melhor maneira possível. Consumir mais tempo com atividades envolvendo conhecimentos tributários, considerando um MBA de fim de semana, seria temerário para mim em função de que tenho outros trabalhos que considero bem mais importantes, alguns de grande enlevo espiritual, tratados como imprescindíveis, outros mais pragmáticos, diria. Isto posto devido a uma certa consciência da complexidade da vida, onde preciso cultivar leituras e estudos de coisas bem mais abrangentes envolvendo filosofia, economia, finanças, artes, matemática, teologia, sociologia, literaturas em geral… O que para alguns podem ser vistos como “hobbies”, na minha visão são trabalhos essenciais para tentar um melhor auto conhecimento, aprender mais com os erros que cometo diariamente e enxergar o mundo com um olhar mais dinâmico, menos enrijecido, menos preconceituoso. A atividade proposta pelo colega me manteria em uma bolha onde vejo muitos profissionais de minha área, que ficam focados demais e gastam tempo se dedicando a coisas da burocracia enquanto a vida acontece e os fenômenos do mundo ficam cada vez mais incompreensíveis; uma situação que me lembra a advertência de Taleb sob o risco de ruína que reside nas especialidades que muitos se apegam, ficando cegos na pífia visão do mundo apenas através da bolha em que vivem.

Pautando-me então em minha condição natural, de limitado, escasso, logo entendi que ter regras e horários para me orientar nas atividades é o básico se eu quiser avançar na minha empreitada intelectual. Eu começo profissionalmente o que é chamado de “dia útil”, lendo e analisando relatórios de empresas da Bolsa e corretoras, além publicações oficiais; o Diário da União, principalmente. Profissionais limitados como eu leem coisas de fontes primárias, e isso consome tempo, enquanto os mais evoluídos se orientam pelo Jornal Nacional… Faço checklist do que está programado para fazer no dia, em compromissos marcados com algumas semanas de antecedência, envolvendo o que chamo de “agendamentos”. Então vou à luta para tentar satisfazer aqueles que depositam confiança em meus préstimos, em meio a grandes adversidades que se avolumaram nesses tempos de pandemia, sabendo que surpresas sempre acontecem; eis aquela melindrosa parte aleatória da vida que é impossível prever, muito menos controlar (Taleb manda lembranças de novo). Sou assim porque, diferentemente de indivíduos bem mais capacitados do que eu, tenho necessidade de particionar atividades, fatiando os dias em horários com determinados afazeres planejados, visando estabelecer tempo para tudo, viabilizando as atividades onde pretendo enlevar o espírito; de fato, sem esta agenda regular, acabaria perdido e totalmente à mercê do imediatismo, refém da bolha dos afazeres que cegam outras visões de mundo.

Se a aleatoriedade para mim é um problema sério que devo tentar minimizar, embora tenho plena consciência que se impõe fora do meu controle e me agride todos os dias, para os “mais capacitados” parece ser uma grande oportunidade de provarem o quanto são bem mais robustos, digo superiores, quando dispensam um mínimo plano de ação. Explico: como não tenho o dom de resolver inúmeros problemas de uma só vez; sabendo que consigo tratar uns poucos, e isso dependendo do grau de complexidade, vivo em um estilo um tanto cartesiano: vou dividindo e sequenciando os problemas, preferencialmente tratando os mais simples, passo a passo, até chegar nos mais complexos, considerando também os níveis de prioridade para cada problema surgido. Ora, ora, só uma pessoa muito limitada como eu para fazer coisas assim, tão elementares, não é mesmo? Diferentemente daqueles que estão a tratar de um ou uns poucos assuntos e de repente, quando um cliente mais ansioso surge, para não passarem uma imagem de ineficientes, acrescentam problemas ainda mais complicados.. Realmente devem ter massa cefálica muito mais avançada para suportar tudo isso, imagino… No entanto, os  que me questionam sobre toda essa minha “meticulosidade” ou o que prefiro chamar de “estilo europeu”, não precisam de nada disso. Eles não compreendem que eu sou uma pessoa inferior ao que eles imaginam que eu deva ser ou ao tipo “humano” que parecem ser pelo comportamento que revelam na condução de problemas.

A vida é instável, aprendi isso da melhor maneira possível nos mercados acionários, e lidar com toda essa aleatoriedade e imprevisibilidade requer uma certa humildade. Quem não se esvazia de si mesmo, sendo capaz de considerar os fatos e não as coisas que desejou, sempre fará perguntas tolas sobre as razões do próprio sofrimento. E quando insiro o meu trabalho na área de sistemas nessa análise, sempre peso os meus limites físicos, ou seja, minha visão turva diante de fatos e do que se passa na cabeça das pessoas, assim como minhas faculdades mentais, em relação aos limites de compreensão e raciocínio que tenho. Ao lidar com essas coisas diariamente, sofro desgastes naturais e por isso faço uma coisa elementar todos os dias aos que se consideram mortais: “encerrar o expediente”; e quando digo “encerrar”, isso significa encerrar mesmo: nada de alongar consultorias ou atendimentos por mais ansiosos e estressados que os clientes estejam, no final de tudo, o que mais pesa é o desgaste que pode colocar em risco de ruína a minha saúde, coisa que alguns super dotados ou os que enxergam e resumem o mundo apenas pelas próprias limitações de visão e entendimento, também não compreendem bem, dado o comportamento que explicita uma visão de que sempre pode alongar um pouco mais ou, quem sabe, trabalhar “24 horas” por dia, supostamente como alguns devem fazer. Neste caso, já não falo nem mais na categoria de “super dotados” , “gênios”, tampouco em “anjos”, nem em semideuses da mitologia grega e sim de “deuses”…

A sociedade presente ainda tem um problema que julgo predominante: a negligência com a escassez, a começar pelos recursos humanos. Certa vez um gestor me apresentou um plano de negócio onde se exigia um elevado capital humano. Foi só depois de investir uma quantia considerada elevada que ele percebeu a seriedade do problema quando os poucos colaboradores qualificados que conseguiu contratar, começaram a pedir demissão e ir para o concorrente porque encontraram oferta de melhores condições de trabalho, sem extenuantes horas extras, sem serem importunados nas folgas por chamadas no WhatsApp e com mais benefícios. São pessoas normais como este que vos escreve, cansadas de quem pensa que não há limites no uso de recursos humanos; pessoas mal educadas economicamente, que ignoram reiteradamente o problema da escassez.

Entre os “conselhos” que recebi (e não pedi), um foi a maior pérola que já li neste dias pandêmicos: acabar com a prática de planejar atendimento  e a estratégia de sequenciar tarefas em fila cartesiana porque tais coisas só fazem atrapalhar os que querem ser atendidos na hora e que não podem ter uma agenda porque “são muito ocupados”. O sujeito argumentou que não pode ter uma agenda porque tem muitos compromissos… Foi um típico caso de confusão proposital entre causa e consequência de problemas. Por ter muitos clientes e afazeres, o indivíduo tenta se justificar diante do fato de não conseguir organizar uma agenda e viver sob elevado e desnecessário estresse. Então, em vez de enfrentar a causa do problema, ele decidiu ignora-la; fazer de conta que não existe, a tratando como consequência, e ainda decidiu me aconselhar a fazer o mesmo! Um “detalhe” que considero pertinente é que o tal sujeito vive na política, ambiente de “deuses” que sabem quase tudo o que os mortais precisam, onde problemas são comumente ignorados, em especial os de escassez, jogados para debaixo do tapete, enquanto anunciados como “resolvidos”.

Diante de tudo isso, lamento por decepcionar os que esperam de mim um comportamento de super dotado, gênio ou até mesmo divino; sou um exemplo de minha espécie, limitado, escasso, nada além disso, tendo muitas vezes que explicar essa obviedade e salientar que não realizo o impossível diante de minhas evidentes limitações.  E por falar no “impossível” termino com um pensamento de Thomas Sowell:

“Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos podem satisfazê-las.”.

 

 

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