Um veterano de chás para distintas damas e gentis cavalheiros certa vez me convidou para uma conversa sobre conservadorismo e homossexualidade. Devidamente acomodados em um confortável sofá, ele me disse que se considera um “conservador raiz tolerante com a homossexualidade, porém rezando todos os dias para que esta “negação da natureza não atinja um ente querido”. Aproveitei a oportunidade para externar que eu, também me vendo como um conservador sem precisar apelar ao termo “raiz”, enquanto pastor e eremita, vivo a pensar em um senhor, que por ventura é assumidamente gay e se auto identifica como um conservador. O veterano deu um sorriso com ar de quem estava zombando da aparente ambiguidade e pediu minha opinião a respeito: “acho isso virtuoso, formidável, maravilhoso”, concluí, provocando um olhar de reprovação do confidente.

Prossegui meditando para um segundo pensamento ainda na categoria “homossexualidade” diante daqueles olhos esbugalhados de decepção com o primeiro pensamento que externei; também confessei ao veterano que a homossexualidade é algo subjetivamente tão “relevante” (fiz o gesto das aspas para ele)  quanto a de ser heterossexual, ou seja, não me diz absolutamente nada sobre outras categorias que considero mais interessantes sobre a maravilhosa criação de Deus chamada humanidade, tais como a fé, a caridade, o amor, a intelectualidade, a humildade, a gentileza, a cordialidade, a prudência, o zelo pela verdadeira justiça, a autenticidade, além de outras. No entanto, entendo que, embora eu não concorde com a posição dele, do veterano ainda espantado, pensei no “il cazzaro” inquilino do Palácio um tanto parecido com ele no jeito mecânico de pensar e salientei que a autonomia de pensamento e a liberdade de expressão jamais devem ser censuradas desde que não sejam aplicadas coercitivamente, ou seja, desde que as pessoas estejam diante dele para livremente apreciarem suas ideias e tenham a liberdade de rejeitá-las e a amaldiçoa-las juntamente com o emitente. Indignado com meu primeiro pensamento e um tanto pensativo com o segundo, o veterano me perguntou sobre o infame especial de final de ano do Porta dos Fundos, que causou “mi mi mi” entre “conservadores” por ter um Jesus gay. Foi então que apliquei o segundo pensamento para lhe dizer que não concordo com a qualquer tipo de censura ou proibicionismo pelo mesmo aparato de coerção que impede as pessoas adultas e capazes de decidirem o que querem apreciar. No entanto, prevalece na sociedade a ideia de censura travestida de combate a preconceitos ou, no caso do “Porta dos Fundos”, ofensa ao que se tem por sagrado. Não concordo com censura, mas acho belo e moral um cristão, que se sinta ofendido, fazer boicote e propaganda negativa sobre os produtores e os artistas envolvidos na obra. Contudo, para muitoso bem educados na proliferação progressista e positivista da “Constituição Cidadã”, uma espécie de tragédia shakespeariana onde o Brasil é assassinado no final e os brasileiros convertidos em zumbis, um aparato coercitivo tem que ser cultuado como um deus para silenciar expressões de certas ideias tidas como “ofensivas” ou “polêmicas”, assim como impor ideologias, tudo fazendo uso do dito “dinheiro público” [1]; .O veterano ficou ouvindo tais opiniões impopulares de minha parte meio que boquiaberto, talvez esperando por um “amém”, quando tentei demonstra-lo que o problema das ideias polêmicas está centrado no uso comum de um aparato coercitivo para dissemina-las ou proibi-las e da falta de seriedade que muitos que se dizem “conservadores” demonstram com a “ordem natural”, questão que diz respeito justamente aos “costumes”, coisas que “conservadores” da espécie do veterano dizem levar a sério enquanto parecem ter pouco conhecimento quando me remeto à classificação das “leis comuns” [2]. E o que resta com toda essa negligência? Ditos “conservadores” e autênticos progressistas se digladiam na arena política chamada Estado para ver quem terá mais poder de impor suas ideias ou proibir coisas aos outros; basicamente, eis o problema! E como o sistema operacional está todo configurado para esta arena de imbecis e espertalhões, a ofensa ideológica tende a se tornar uma questão de maior relevância quando todos se rebaixam a uma consequência do aparato coercitivo: não raramente, muitos  acabam se sentindo fraudados quando um político ou “figura pública” é financiada com recursos ditos “públicos”, e estão disseminando ideias que soem ofensivas aos “pagadores de impostos”, seja pelo lado “conservador” que denuncia uma suposta doutrinação em favor de alguma “ideologia comunista”, seja pelo lado progressista sempre à espreita para lacrar aqueles que usam o Estado para propagar o que classificam como “mensagens de ódio”.

Penso que pessoas têm o direito de me ofender e que isso é naturalmente compreensível entre seres ideológicos (mais um olhar esbugalhado do veterano) com dimensões imprevisíveis, positivas ou negativas. Certa vez o dono deste Blog e amigo de infância me confessou estava em um evento em São Paulo com mais 300 advogados e uma dezena de economistas. Um sujeito ao lado dele comentou com um colega que “não suporta aquela fala arrastada dos nordestinos”. Em seguida, iniciou uma conversa tributária com o meu amigo de infância e notou o sotaque (pernambucano).O preconceito, embora seja algo a ser lamentado e combatido, faz parte do processo de aprendizagem ou da estupidez de cada dia. Contudo, no caso do meu amiguinho, melhor do que o preconceito foi ele ter conseguido prosseguir no diálogo, algo que pode ter um efeito virtuoso no emitente do preconceito, no sentido de repensar o que disse, em termos gerais, sobre os nordestinos.

Discriminar alguém por ser gay, nordestino, judeu, muçulmano, alemão, preto, favelado, rico, gaúcho, indígena, ruralista, branco, seja o que for, tem implicações além de uma pessoal visão moral do mundo. O preconceito pode custar muito caro, começando pela consciência operando quando se percebe a falha ao pré-julgar o outro. Isso está longe de leis proibitivas que promovem censura disfarçada de “direitos humanos”. Um comerciante que resolva discriminar homossexuais publicamente ou que aprecie conteúdos racistas, não poderia ficar surpreso se sofrer boicotes e ter seu nome exposto de forma degenerada na sociedade, sempre associado à intolerância, ao ódio, de maneira que venha a se sentir “perseguido” ou “injustiçado” quando foi ele mesmo foi a fonte primária de uma agressão de preconceito. Uma escola que demita um professor altamente gabaritado após descobrir que o sujeito é gay, estará arcando com um custo de perder um valioso recurso humano em troca da satisfação do próprio preconceito, seja dos que a administram, seja por pressão de alguns clientes (pais, responsáveis e estudantes).    Em uma sociedade onde o ativismo em prol do respeito a LGBTs se tornou intenso, e isso pode ser um importante sinalizador [3]. Quem lida com o lado da oferta em negócios deverá sempre avaliar procedimentos diante do lado da demanda, em relação a questões discriminatórias . Talvez isso seja um reflexo da ocupação do progressismo gramcista que tenha se aproveitado de aspectos econômicos determinando valores e costumes. Em termos sucintos: entendo que um sujeito que afirma não aprovar determinada coisa não deve ser silenciado por leis civis, mas deve estar coerente para assumir custos, muitas vezes intangíveis, de sua posição crítica.

Penso agora em ambientes restritos, enquanto compartilhados por adeptos voluntários; igrejas. Padres e pastores têm o direito de exercer crítica à homossexualidade em seus espaços comunitários? E em vias “públicas” ou “laicas”? Sim nos dois, cogito. O primeiro espaço é sagrado para a liberdade de expressão. O segundo deveria ser também, mas padece do estatismo legalista que apodreceu a liberdade a transformando em democracia (outro olhar esbugalhado) que não se limita ao “pau que dá em Chico, dá em Francisco” e parte para criminalizar conforme as condições dos que estão no comando do poder político, tomando proveito da ditadura da maioria. Mesmo no espaço restrito de uma comunidade religiosa, estar disposto a lidar com reações e consequências da crítica é uma condição natural do influenciador. Se um  clérigo pronunciar um sermão com base em Romanos 1:28 ou em sentenças do Apocalipse para subliminar que resta o inferno a gays, deve estar pronto para ser tratado como intolerante até mesmo dentro da comunidade, assim como ser alvo de ofensas e boicotes de alguns irmãos; o púlpito é sagrado e a liberdade de expressão como forma de reação, é igualmente sagrada. Não existe liberdade parcial, pela metade, mas isso não significa que se trate de uma condição para uso irresponsável da palavra, ou seja, sem que o emitente assuma por consequências (muitas imprevisíveis) dos atos. Liberdade só tem sentido se estiver com a contrapartida da responsabilidade e isso inclui assumir os riscos de juízo de valor dos ouvintes e leitores.

Remeti-me ao dito “casamento” gay enquanto o veterano se ajeitava no sofá esperando mais uma opinião impopular. Não me interessa aqui a aplicação do termo, em si, demandar a existência de sexos distintos. O que me ocupa mais nesta questão é o fato de que duas pessoas do mesmo sexo, ao formalizarem uma união por afetividade, assumem compromissos que demandam claramente uma demarcação de responsabilidades e posses pessoais, dentro de um padrão de propriedade privada familiar, inclusive sob potencial efeito sucessório, seja no falecimento de uma das partes envolvidas na união, seja na herança que se vai para o(s) dependente(s), ou seja, quase sempre filho(s) adotivo(s) ou concebidos de forma mais planejada, por meios não naturais, inseminação, com a participação de uma terceira pessoa. Percebo uma família sendo formada dentro da liberdade e da propriedade como fatores intimamente ligados, me remetendo a outro aspecto conservador. Homossexuais que são jogados na classificação (sempre preconceituosa) de instrumentos da ofensiva cultural com base nas ideias (distorcidas por muitos) de Antonio Gramsci, como indivíduos contrários à família e aos “bons costumes”, se portam como autênticos conservadores quando se dedicam a uma ordem familiar, mantendo certos padrões que são comumente combatidos (na via econômica) no progressismo que almeja coletivizar bens violando ou dificultando a organização de propriedades privadas, sobretudo as famílias.

Gays formam famílias quando se unem como “casais” demonstrando apreço pela propriedade privada (onde reside o papel elementar da família enquanto instituição de ordens moral e econômica) e pela sucessão de bens (mais uma vez a família em processos de herança dando sequência à propriedade privada elementar), assumindo responsabilidades pelo(s) dependente(s), inclusive com conotações de herança (uma caríssima demanda familiar), além de se portarem como “casais convencionais” também quando juram lealdade (fidelidade) e mútuo respeito na relação afetiva, como ocorre em uma família dita “tradicional”. Gays em união estável, em um espaço privado compartilhado, assumindo responsabilidades de provisionamento com dependentes, compondo um ambiente mais conhecido como “lar”, devem ser respeitados por isso, como toda união heterossexual. Certamente não é um “casal” dentro da cosmovisão cristã tradicional, e tal entendimento deve ser também respeitado [4], mas do ponto de vista do ambiente do que é tido como “civilizatório”, firmado na célula familiar, com o ser humano fora da coletivização comunista, sem dúvida é uma ordem privada tanto quanto a de base dita “convencional” ou heterossexual.

Dentro de uma ordem natural dos relacionamentos e de vida em sociedade, considerando que somos seres em constante aprendizado sobre as implicações da liberdade, entre as quais destaco como fundamental, a responsabilidade, um sujeito que defende e/ou pratica pedofilia, apenas para exemplificar, jamais deve ser confundido com o uso da liberdade, até mesmo no espaço privado em que pratica esta ignomínia [5], da mesma forma se outro sujeito faz apologia e/ou pratica estupro, ou outrem que agrida (viole a integridade física) de alguém por conta de saber ou estimar acercar da intimidade sexual fora da heterossexualidade, ou seja, atente contra o corpo de alguém pelo fato da vítima ser ou aparentar ser gay, lésbica, LGBT e demais situações consideradas fora de seu padrão de moralidade, o fato de agir agressivamente em um espaço próprio, nada ameniza ou justifica a gravíssima violação que cometeu. Em todos os casos que mencionei, o crime cometido é o de violação a propriedade privada (corporal e mental), uma agressão independe do ambiente (privado ou coletivo), e assim deve ser duramente penalizado pela sociedade mediante leis dentro de uma ordem natural de valores e costumes observados e em sincronia com a extrema relevância do respeito ao que é santificado (separado), privado, inalienável.

A sociedade que tolera e/ou banaliza a violação da vida, enquanto propriedade santa, privada, especialmente a família e de contratos dela derivados, inevitavelmente se desintegrará.

A homossexualidade não é, per si, um fator que opera contra  o processo civilizatório que se deu da saída do comunismo sexual primitivo, onde os filhos da tribo pertenciam a todos, até às formas de propriedades separadas (privadas) formadas pelas famílias, legítimas portadoras dos descendentes “privatizados” em uma ordem natural, ou seja, os filhos aos cuidados dos pais ou responsáveis específicos. Quem associa a homossexualidade à destruição da família, per si, ou está desorientado do significado moral e econômico de “família” e o que representa o conservadorismo, sem ponderar  os fatos, não se deixando cair em preconceito sobre os agentes envolvidos, ou age como um (desonesto) militante de direita que se julga (indevidamente) detentor de uma visão conservadora sobre o mundo. Em outras palavras, perdoem-me os ofendidos e os mais puritanos, não vejo nenhuma incompatibilidade, a priori, em um indivíduo ser “gay” e “conservador”.

E o veterano abandonou o sofá…

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Notas:
1 .Um dos termos mais infames que a mentalidade de Estado forjou;
2. Na Escola Austríaca, um dos trabalhos de referência é “Direito Legislação e Liberdade” de Friedrich August von Hayek. Vol. I – Normas e Ordem;
3. Penso que o ativismo liberal em prol do respeito a LGBTs é um sinal de valores de uma ordem natural da sociedade e não deve ser confundido com o ativismo feito nas vias do estado;
4. Gays podem procurar organizações religiosas quer reconheçam a união, assim entendo, mas seria uma agressão, impor às igrejas o reconhecimento por leis civis, pois se trata de algo que pode ferir a autonomia de fé, o que é presumível em organizações tradicionais. A fé é um elemento que sempre deve ser respeitado, dentro da ordem civilizatória;
5. Se chegar ao meu conhecimento que um indivíduo esteja praticando pedofilia em um espaço privado, é meu dever denunciá-lo imediatamente. Toda argumentação em cima da privacidade do espaço e da intimidade fica relativo à violação a outra propriedade humana que é violada (física e/ou psicológica) contra um indivíduo incapaz de se defender, ainda em formação de personalidade, sem condições de minimamente compreender, muito menos lidar com consequências de um ato que lhe fere profundamente.

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