Nada me incomoda mais do que visitante indesejado, um crente da Igreja Bolsonarista com um ar de orgulho e quase sem fôlego anunciando: “Mestre, o senhor viu que o nosso presidente Bolsonaro subiu nas pesquisas em plena pandemia?“.

Se pensares um pouco, mesmo sabendo que isso é difícil na bolha, verás o que R$ 600 de auxílio emergencial e 120 dias de Benefício Emergencial cobrindo folhas de pagamento, o tal do “BEm”, não podem fazer, não é mesmo?  O socialismo do vosso cazzaro está fazendo a esquerda tupiniquim provar do próprio veneno ao ver seu principal adversário retomar a popularidade, fazendo uso de um populismo fiscal em ferramentas que ampliam dramaticamente gastos “públicos”, instrumentos tão celebrados em governos progressistas. O que será que mais incomoda agora os bocós parlamentares do PT, PSOL, PDT entre outros esquerdosos? Certamente é o fato de contribuírem autorizando e assim incentivando gastos do governo que elevam o culto a Bolsonaro dada uma mentalidade no povo que cultiva o presidente da República com o maior destaque. Estão incentivando o mesmo populismo que alavancou Lula.“.

Entre uns goles etílicos por um saboroso licor lusitano de nata, vi um jovem mudando de olhar, agora confuso com o termo “socialismo” associado ao seu senhor. “Socialismo? Como assim mestre, Bolsonaro é socialista? Não faz sentido para mim!“, ponderou o noviço. “Ora, ora, rapaz, nada irrita mais um conservador à moda bolsonarista do que chama-lo de socialista. Sim, no seu senhor gadoso é o que mais se pode ver: socialismo, e sob anseios à moda chinesa. O sonho de consumo do teu cazzaro presidente é um dia ser como o Xí Jìnpíng!“.

Na medida em que o cantares de Portugal foi esvaziando, o mancebo foi se interessando pela estranha analogia “Bolsonaro socialista”… O socialismo sempre é um carimbo dado a progressistas que até se ufanam, enquanto outros preferem se esconder no enganoso termo “social democrata”, pois no mundo da política há um manual para falar com o povo sempre tratado como curral, bestializado, e outro para conduzir as práticas. Então temos o Jair cazzaro Messias braziliano Bolsonaro, um socialista mais pragmático com o socialismo e o mercado, iludindo a muitos se vendendo como “conservador nos costumes” e “liberal na economia”, enquanto vai gozando de ações que se desdobraram com a pandemia, aproveitando a urgência que o clamor por métodos socialistas impôs ao Congresso pelos “auxílios emergenciais”, adiamento de receitas (prorrogações) e liberações de recursos para diversas ações [1]:

Isto posto, o cazzaro da direita opera sob um pretexto que o coloca “acima de qualquer suspeita”, pelo menos para idiotas que acreditam que existe político de sucesso que não seja não socialista neste ramo, que não tolera amadores, e nas boas intenções de toda intervenção anticíclica, ao mesmo tempo em que deixa sem alternativa a esquerda, como um movimento de xadrez com o adversário sem poder de reação, se parecendo ainda mais patética do que era durante a crise petista eclodiu forçando a máfia emedebista a assumir a cadeira do Palácio.

A esquerda está sem inspiração para lidar com o cazzaro socialista conservador, apenas melancólica e delirante, rogando pragas, odiando o inimigo, coisa que cega o entendimento, torcendo pelo vírus e aumentando o Ibope da Globo, sabendo que é impossível se passar como “austera” para aprofundar uma crise com uma suposta e surreal proposta de responsabilidade fiscal para impor ao Palácio do cazzaro. São tempos de pandemia onde o desespero do povo virou um grande mercado de negócios políticos para corruptos, apresentadores de telejornais,  corporações viciadas em capitalismo de laços que fabricam insumos para vacinas, mercados de ações bancados por bancos centrais e, sobretudo, socialistas de todos os gostos e lados, de progressistas confessos, passando por liberais mequetrefes do tipo Paulo Guedes até chegar em “conservadores” como o cazzaro do Palácio. Seria um tiro no pé para esquerdistas defenderem controle de gastos com multidões de desempregados e autônomos sem trabalho com as restrições impostas por governos estaduais e municipais. Nem os degenerados ‘liberais em economia’ do governo, que segundo o Salim Mattar cabem dentro de um micro ônibus [2], são capazes de sugerirem algo assim. Pois bem, quanto mais o Congresso aprova gastos, quanto mais os parlamentares detonam os pagadores de impostos com dívidas do Tesouro, quanto mais o sistema político autoriza a gastança do Executivo, mais capital político é potencializado para o cazzaro do Palácio. Os benefícios emergenciais são pontas de icebergs dentro de uma enorme contingência de gastos liberados para obras cujas autorizações não seriam facilitadas sem a pandemia e a votação da oposição. E eis que analistas da mídia mainstream podem até ficar surpresos com o aparente crescimento eleitoral do cazzaro, talvez porque tenham subestimado o pragmatismo da massa, as contingências financeiras do povão e o oportunismo de Bolsonaro para aumentar despesas. A irresponsabilidade fiscal do Congresso autorizando o executivo foi o resultado de um consenso onde esquerdistas serviram de “instrumentos” para Bolsonaro se popularizar recebendo um maior limite do “cheque especial” do governo, cuja conta do déficit primário deve atingir a bagatela de R$ 812,,2 bilhões este ano, 8,5 vezes o déficit do ano anterior:

[1]

Resumo da ópera: o inconsciente coletivo no povão parece ver que não precisa votar em esquerdista para ter um governo mais socialista, mesmo que formado por ditos “conservadores”.  Isso já aconteceu no regime militar de 1964-1985 com políticas públicas que expandiram enormemente gastos do Estado em estatais e obras “públicas”, criando bizarrices que os esquerdistas hoje cultuam: o FGTS, o PIS e o PASEP, os primeiros grandes modelos de planejamento central para transferência de renda e concentração de crédito para grandes financiamentos. É o socialismo de direita entrando para fazer história, novamente.

Será que a ficha da turma canhota caiu? Ou ainda há quem espere por autêntica prudência de austeridade entre esquerdistas como um sujeito que procura castidade em um bordel? A esquerda  está vivendo um momento desesperador vendo que o oportunismo de Bolsonaro funciona eleitoralmente melhor. E o que lhe resta? A pior coisa agora para esquerdistas que querem tomar o poder é ver a curva de contágio cair e a economia retomar, mesmo que lentamente. Daria um certo ar de que o governo do cazzaro cumpriu o seu papel ao distribuir benefícios emergenciais, incentivar mais crédito subsidiado, adiar recolhimento de impostos, acelerar obras em estradas, mesmo que endividando e comprometendo seriamente as próximas gerações. Considerando a índole imunda que é comum na mentalidade política, o governo gasta sem dó e quem está na oposição morre de inveja, desejando mesmo é ver mais gente morrendo de covid-19, pois só resta tentar retroalimentar a narrativa da incompetência na Saúde, coisa que tem enorme peso para um povo que foi educado a crer em grandes arranjos de planejamento central (socialismo) como é o caso do que se pensa sobre o papel do Ministério da Saúde frente aos governos locais (estaduais e municipais).

Os próximos capítulos da novela tupiniquim, do socialista “conservador” do Palácio contra a esquerda com permanente transtorno disfórico pré-menstrual, deve ser marcada por tentativas de conter essa retomada de capital político que o cazzaro aparentemente conseguiu obter. A massa não entende nada disso e o que lhe interessa mesmo é tão-somente dinheiro de “benefícios” no bolso, mesmo que seja por inflação ou impostos em cascata cuja nova CPMF, que não é CPMF segundo a equipe econômica do cazzaro, faz parte dos planos para que os pobres paguem a dívida que está sendo contraída na pandemia. Então, atrelado a um desejo inconfessável por mais mortes para tentar desmoralizar o cazzaro, reside também a “esperança” da esquerda em ver a economia patinar. Quanto mais desgraça acometer o povo, quanto mais empresas falirem e pessoas ficarem desempregadas, melhor para o esgoto canhoto que poderá encontrar no sentimento adolescente da massa um espaço para denunciar e reverter o capital político em algo onde seus mentores são experts: fazer políticas públicas ineficientes (desculpem o pleonasmo). Desgraça por desgraça, a do cazzaro socialista conservador está em plena evolução “venezuelando” as contas públicas onde nossos filhinhos e netinhos terão que suportar. Por fim, nesta guerra de socialistas então, o cazzaro está levando vantagem enquanto resta à esquerda, ironicamente, se agarrar com o apocalipse do Jornal Nacional.

 

________

Notas:
  1. Análise do Impacto Fiscal das Medidas de Enfrentamento ao Covid-19 (30/07/2020);
  2. Brazil Journal: Por que saí do Governo

 

 

Comentar pelo Facebook

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *