Por pastor Abdoral – Uma das fraudes mais comuns cometidas por economistas do mainstream, não importa se sejam vistos como liberais ou progressistas,  consiste no uso arrogante de modelos matemáticos para disseminar entendimentos, ou fazer parecer, que é possível prever em economia.

Desta fraude, os maiores golpistas da sociedade, mais conhecidos como “políticos”, se aproveitam para justificar seus empregos formulando políticas públicas.  Ora, ora, em 10 de dezembro de 1974 (na noite em que meu amigo de infância sempre manda lembranças) o senhor Friedrich A. Hayek (1899-1992) prefaciou [1] no banquete de gala, na véspera da entrega do, assim vulgarmente chamado “Prêmio Nobel de Economia”, para enaltecer a humildade, coisa raríssima entre acadêmicos, especialmente em economia, citando Alfred Marshall (1842-1924):

“Os estudantes de ciências sociais devem temer a aprovação popular: o Mal os acompanha quando todos os homens os elogiam”.

E foi no caminho da humildade que, no dia seguinte, Hayek discursou trazendo uma preciosa reflexão que não perde a conexão com a atualidade dos problemas que dizem respeito à arrogância dos que atuam como economistas e vivem de fazer previsões ou vender “soluções” tomando a  econometria como base “científica”. Para quem duvida que o inferno existe, imagino que uma boa justificativa para pensar em um lugar tão cruel, penoso, danado assim, está no aspecto “espiritual” que rege a atividade econométrica combinada com o oportunismo político, digo assim, por se tratar de algo que fomenta economistas que vivem como verdadeiros charlatões servindo a políticos, apresentando modelos matemáticos para servirem de base para conceitos reguladores sobre uma sociedade bestializada com o discurso carregado de embasamentos “científicos”. O mestre austríaco, outrora aprendiz do sábio Ludwig von Mises [2], menciona o pretium mathematicum dos escolásticos espanhóis do século XVI, para argumentar face à pretensão tão peculiar entre os que negligenciam os problemas da dispersão do conhecimento que impacta os cálculos dos preços quanto à determinação, em meio a circunstâncias diversas que só “Deus teria a capacidade de conhecer todas”.  Hayek quando aborda este problema em seus textos, sempre me faz lembrar Taleb, com a síntese de que “não podemos prever”, algo que parece simplista, mas me remete a uma questão ampla e essencial, no entanto, indivíduos que usam ternos caros e falam com uma retórica “impecável” diante de câmeras em talk shows de mercado, devidamente munidos de cálculos “precisos” e econometricamente “comprovados”, seguem nesse ofício desgraçado de fazer o povo de besta, vendendo a fraude de que se um governo alocar X em Y e/ou controlar determinados agentes econômicos, haverá resultados matematicamente preditivos, desdenhando assim de diversos fatores catalácticos que não podem ser mensurados e, eu diria, mesmo com o Big Data de hoje e a Inteligência Artificial de vento em popa, ainda não se consegue ter precisão em decisões de bilhões de indivíduos formando o dinamismo dos mercados, dada a subjetividade inerente ao comportamento humano ou será que o Big Data com a Inteligência Artificial poderá um dia ler todos os pensamentos dos bilhões de players para refletir exatamente suas decisões? Quem sabe seja uma divindade… Então, lendo Hayek como economista, o que me vem à mente, são palavras do Cristo Vivo aos fariseus doutores da lei que podem ser perfeitamente contextualizadas com os “fariseus” doutores da econometria preditiva, como meio de subsídios “técnicos” e “científicos” para iludir os mais simples, como leais parceiros de políticos e outros oportunistas burocratas que estão no esgoto humano das intervenções estatais: Raça de víboras!

Não se trata aqui de rejeitar a matemática e a econometria, muito pelo contrário! A questão se dá pela aplicação como bases para modelos de intervenção que dependem de predições congruentes e fatores previamente conhecidos para que os modelos sejam comprovados na realidade. A econometria, como ferramenta para analise sobre o que aconteceu, considerando a relação entre variáveis econômicas, fazendo uso de um modelo matemático, sempre terá espaço justo nos estudos econômicos, mas usa-la para justificar políticas é outra coisa que nada tem a ver com ciência e sim com charlatanismo que se esconde no que Hayek enxerga em “prognósticos muito generalizados” sobre o que se deve esperar em determinada situação analisando problemas e fenômenos econômicos. Um exemplo clássico citado por ele, no texto, está no conceito da aplicação do aumento da “demanda agregada”, termo caro a intervencionistas, sobretudo os da Unicamp que “fizeram história” com a Nova Matriz Econômica do petismo, derivadora de políticas desastrosas de financiamentos aos amigos do rei, desonerações e mais concentração de recursos no Estado, também (e sempre) aos amigos do rei, como cura para problemas como o desemprego e o baixo investimento. Na prática o que se vê é um padrão de alocação indevida de recursos servindo a interesses de parasitas, mas ainda sim há economistas “liberais” [3] tentando fazer a sociedade crer em “boas intenções” e na capacidade de burocratas lidarem com o infinito, fazendo parecer que o problema pode ser sanado, até com um ar de realismo que não passa de mais uma dissimulação por fraude intelectual em favor de mais poder de intervenção, partindo de uma mesma concepção errônea, para preservar causadores e executores de políticas dentro de uma estrutura que funciona para explorar a “pretensão do conhecimento”, ou seja, respectivamente, uma coisa de legisladores e gestores do Estado imbuídos da exploração de um sentimento vulgar de que o governo tem que fazer sempre alguma coisa, que é capaz, sendo possível reverter determinado problema como se não existisse a dispersão do conhecimento impedindo que o planejamento central das alocações governamentais tenham comprovações, de fato, científicas, na medida dos discursos que apelam a tecnicidade que na prática, não se confirma; tudo é vendido como “científico”, “matemático”, “comprovado”..

O último ponto que destaco do discurso de Hayek está em um tema que nunca saiu da cabeça dos amantes do intervencionismo, em especial àquelas figuras, hoje chamadas de “influencers”, que se parecem como autênticas pessoas do mercado, defendendo as expansões monetárias dos bancos centrais, termo técnico para inflação na medida em que desvaloriza o poder de compra da moeda. Em tempos de pandemia (ou seria “fraudemia”?), Hayek é um antídoto para compreender as raízes deletérias da expansão de gastos, a degeneração fiscal e as aberrações que os bancos centrais centrais sempre realizam, inflando mercados, cujo efeito mais imediato está em forçar o aumento dos preços dos papéis pelo aumento da base monetária forçando a liquidez, beneficiando muito mais investidores do que aqueles que são supostamente mais visados pelas ditas “políticas anticíclicas”, ou seja, mediante intervenções com gastos e emissões de dinheiro como “soluções” pensadas para salvar empregos dos mais pobres, coisa que no Brasil há quem se ufane de ter abraçado  nos programas emergenciais. O que Hayek disse no Nobel de 1974 segue como uma vacina contra a doença pandêmica no mundo fantasioso dos que não medem esforços para fazer expansão monetária que produziu, no entendimento dele, “uma distribuição do emprego que não pode ser indefinidamente mantida”, alertando que só pode ser preservada “por uma taxa de inflação que inevitavelmente levará à desorganização de toda a atividade econômica”.[4]. O que Hayek chama de “posição precária” hoje está  ainda mais fácil de ser percebida após os grandes ciclos de expansão forçando a necessidade de um reaparecimento de um desemprego substancial como consequência da política que torna o problema inflacionário mais urgente.

Do banquete de 10 de dezembro de 1974 ao discurso do co-agraciado no dia seguinte, a maior lição a ser tirada das reflexões de Hayek , penso, diz respeito à importância  de que os verdadeiros cientistas em economia reconheçam as limitações do que são capazes de fazer no campo das ciências humanas, não se deixando levar pelo apreço das multidões que costumam clamar por coisas impossíveis, onde só a política pode satisfazê-las.

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Notas:
  1. Prefácio da obra A Pretensão do Conhecimento, de F. A Hayek,
  2. Um dos homens mais cultos e injustiçados economistas do século passado, por causa das críticas que fez aos delinquentes do mainsstream;
  3. Sachsida: Estamos corrigindo problemas de má alocação de recursos; não há mágica;
  4. No Ensaio 2 da obra da nota 1, página 25.

 

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