Às portas da primavera de uma manhã de sábado, surge como um raio o insistente Getúlio, um irmão da Igreja Bolsonarista dos Últimos Dias, trazendo consigo a nota fiscal do supermercado  e uma indignação peculiar:

– Mestre, o arroz, o pão, a carne, subindo muito, o que está acontecendo?

– Faça o seguinte, prezado bozo-boy, pega essa bugiganga aí do celular, entra no Facebook do teu presidente “cazzaro” e agradeça a ele e à equipe econômica por isso, depois faça o mesmo no perfil do presidente do Banco Central, aquele imbecil que está fazendo o avó rolar no túmulo. Agradeça também à esgotosfera do Congresso, os degenerados deputados e senadores que aprovaram os benefícios emergenciais e todas as demais despesas à toque de caixa para fazer valer as impressoras de dinheiro, gerando um montante que passará dos R$ 800 bilhões acima da arrecadação este ano. Não esqueça de encomendar um culto de gratidão pela inflação, lá na sua igreja de bocós, por todos os políticos de estimação que trabalharam arduamente para iludir e castigar os mais pobres, distribuindo dinheiro sem produtividade, amém irmão?

E então o irmão bolsonarista sentou para respirar um pouco depois de uma subida ofegante a passos tão rápidos à montanha, cujo gráfico da inflação tende a se assemelhar ao traçado íngreme em meio a um terreno bastante castigado pela erosão, de forma análoga ao que faz a inflação com os salários e “benefícios” emergenciais.

Mas mestre, em uma situação tão crítica como a que estamos passando nesta pandemia, não é hora de cada um dar um pouco de si e assim os empresários pensarem menos no lucro? Contra argumentou o rapaz ainda com a voz revelando uma respiração ofegante e um semblante tenso com a fatura do cartão crédito que virá ainda este mês.

– Já sei, andou lendo as notícias sobre o apelo do teu presidente, cazzaro delinquente em economia, ao “patriotismo” dos empresários… Pois bem, como desejas conversar sobre o problema da inflação? Estudastes economia, não foi isso? Então, queres que conversemos como criancinhas de dois anos no pré-jardim escolar, com fraldas para trocar, achando que tem uma árvore mágica da riqueza sem trabalho, como assim conversam os socialistas em reuniões do PT, PDT, PSOL e afins, assim como os irmãos da tua igreja também conversam, pensando que o governo pode fazer alguma coisa útil nisso, ou pretendes ter uma conversa de gente grande? Em outras palavras, como no filme Matrix, qual a pílula que você deseja tomar, irmão? A vermelha ou a azul? [1] Se for a azul, toma um pouco dessa água do monte, que o passarinho não batizou, respira mais um pouco, relaxa e zarpa daqui porque tenho mais o que fazer. Respondi com a paciência de sempre.

– Eu quero a pílula vermelha!  Disse o irmão.

Abdoral: Imagines então uma sociedade que produz relativamente bem diversos itens de primeira necessidade e eis que ocorre uma seca ou uma epidemia, ou uma guerra, e por isso muitos ficam sem trabalho; por tabela, sem renda durante meses. A produtividade geral do trabalho tende a ser gravemente afetada, reduzindo. Porém, vamos considerar o momento da atual pandemia, onde a  a produção de itens de primeira necessidade foi mantida ou sofreu quedas ainda não muito impactantes.  

Getúlio: Isso me parece claro. A agronegócio segue produzindo bem.

Abdoral: Não temos neste cenário um claro choque de oferta, ou seja, uma queda forte na produtividade de itens básicos. Isso seria catastrófico e ainda bem que não está ocorrendo. A agricultura e a indústria de base estão segurando as pontas… 

Getúlio: Então, não entendo o que está ocorrendo, pois se a produção agrícola segue firme e a industrial de base segue resistindo e a outra, mais ligada aos consumidores está se recuperando, tendo até uma forte elevação em julho, por que os itens de primeira necessidade estão cada vez mais caros? 

Abdoral: Vamos considerar que a produção de base alimentar não foi gravemente afetada. Agora, pense que um grupo de indivíduos se dizendo “preocupados” com os que ficaram sem trabalho, sem renda, e decidem criar meios para distribuir dinheiro. É o que está ocorrendo com os benefícios emergenciais, certo?

Getúlio: Sim, dois grandes benefícios em andamento mais centenas de bilhões em gastos extraordinários do governo para aquecer a economia, mas se a produtividade da base alimentar não foi severamente afetada, havendo recursos para o mercado “dar conta”, de onde se origina então a crescente subida preços de itens da cesta básica?

Abdoral: A produção existe, a questão é onde ela está sendo aplicada ou direcionada. Houve alguma mudança? O Brasil é um dos maiores produtores de matéria prima do mundo e os mercados de commodities são internacionais, obviamente. 

Getúlio: Certo, mas ainda não entendi o que isso tem a ver com a carestia interna.

Abdoral: Disseste o termo apropriado! “Carestia interna”, isto posto porque as medidas de expansão monetária do governo e do Banco Central estão forçando a desvalorização do real (BRZ), pelo sinal da meta da Selic, a isso junte o receio de que a enorme dívida pública chegue a um estado em que o governo pode não mais conseguir rolar, e o investimento que vem de fora começa a cair e isso significa menos dólar (USD) no mercado interno. Ora, menos dólar representa maior escassez da moeda fiduciária que é usada como reserva para negócios nos mercados globais. A combinação fatal é menos dólar no Brasil e mais real , o que torna a moeda americana bem mais cara frente ao real. 

Getúlio: Ah, entendi! Então a carestia vem das importações de insumos que afetam os preços na cadeia produtiva interna?

Abdoral: Não somente isso. Com o câmbio mais afetado em favor do dólar, isso por causa das medidas de estímulos, refiro-me à Selic que agora mais parece obra de ficção com os juros dos papéis do Tesouro sob grande distorção. Temos um câmbio mais caro e isso não apenas encarece os insumos importados. Acaba sendo um elemento de forte atração quando produtores internos percebem que é mais vantajoso vender para o exterior, recebendo pelo câmbio em dólar, frente a um real enfraquecido.

Getúlio Seria então uma pressão para o direcionamento de parte da produção ao exterior que está causando a inflação?

Abdoral: Em parte. Jamais se deve generalizar em economia. Todavia, é razoável entender que um produtor de carne vai ser estimulado rapidamente a priorizar clientes do exterior com um câmbio tão favorável. Produtores com acesso a mercados externos vão receber com base no dólar e isso tem um efeito poderoso nas análises de custos e lucros.

Getúlio: Mas está ocorrendo isso? 

Abdoral: É o que estou vendo. E identificando que caiu a oferta ao mercado interno, temos agora que pensar na demanda. Em uma situação com a queda da renda geral do trabalho interno, como é o caso da pandemia, a tendência seria não haver maiores impactos nos preços, ou até mesmo uma queda por causa da recessão, confere?

Getúlio: Sim!

Abdoral: Contudo, o Banco Central estimulando monetariamente a economia interna, cortando a Selic,, gerando incentivos para mais dinheiro em circulação, provocando mais escassez de dólar com juros menores que não atrairão muito interesse pelos títulos da dívida pública, tudo isso vai encarecer o câmbio, fator este que atrai mais vendedores brasileiros para o exterior, diminuindo a oferta interna de commodities, bens de primeira necessidade… Isso já nos parece considerável. Agora, e se a demanda for estimulada com benefícios que distribuem dinheiro para quem não está trabalhando?

Getúlio: Então, temos uma demanda aquecida artificialmente. Pai do Céu, entendi! Uma demanda artificial também pode estar pressionando preços aos consumidores internamente.

Abdoral: Isso! A demanda está sendo aquecida artificialmente, pelo governo, na distribuição de dinheiro, disso não temos dúvida, e sem a contrapartida da produtividade dos trabalhadores… Isso pode explodir em mais inflação agora e mais ainda na frente! E tem um “detalhe”. O problema do câmbio não é o único, longe disso. A demanda aquecida artificialmente pode está tão forte e tendenciosa que até mesmo se o real se recuperar frente ao dólar, e isso ocorreu nos últimos dias, pode continuar a pressão consumidora sobre a oferta e os índices de preços continuarem em viés de alta, pois não há garantia nenhuma de que o problema é maior pelo câmbio, assim como se a demanda não se tornará ainda mais forte quando a atividade econômica acelerar e  os produtores não poderem atender na mesma proporção, por vários fatores que travam a produtividade, alguns bem conhecidos na história da economia brasileira. Duvido muito que há alguém neste mundo que saiba precisar tais coisas. Um monstro inflacionário pode estar sendo incubado agora mesmo.

Getúlio: Resumindo, com uma procura se mantendo ou até mesmo aumentando, se a oferta interna está caindo, aparentemente por estímulos de transferência de mercado provocados pelo governo e pelo Banco Central, então, inevitavelmente, não só por isso haverá constante pressão compradora no mercado interno por bens de primeira necessidade. Isso tudo vai significar mais INFLAÇÃO!  

Abdoral: É possível, pois o governo ao estimular a demanda sem a produtividade e ao estimular o direcionamento da oferta pelo câmbio afetado pelo populismo da Selic e tornar o dólar mais escasso por aqui, está provocando uma pressão em duas bandas sobre o que você chama de “inflação”, ou seja, a perda do poder de compra da moeda local frete a uma demanda artificialmente aquecida, pelo governo, com uma oferta afetada por políticas do governo e um câmbio também pressionado.

Getúlio: O que fazer? Proibir ou limitar exportações? Manipular o câmbio?  Tabelar preços?  Ou apelar ao patriotismo? (Risos)

Abdoral: Qualquer medida intervencionista que o governo for tomar que afete a lucratividade, pode comprometer seriamente a produtividade. Tabelar preços é decretar a “venezualização” da economia. O lucro é um sinal onde há maior eficiência de negócios. Restringir exportações não significa que os produtores continuarão nos atuais níveis de produção. Podem reavaliar e ajustar para baixo. Empresas precisam de lucros para serem economicamente realizáveis. Os agentes econômicos pensam de forma diversa e um burocrata do governo não tem como saber os detalhes necessários da imensa cadeia de conhecimentos nos mercados. Hatek manda lembranças… Artificializar o câmbio vai forçar custos enormes nas contas da União, que já estão deterioradas.O governo e o Congresso, cada vez mais pioram as coisas quando interveem na economia. O problema então está no maior custo para vender no Brasil e na melhor demanda no exterior. No momento, e há muito tempo, o Custo Brasil tem uma pressão maior sobre as vantagens de se ofertar ao exterior.

Getúlio: Isso é um mato sem cachorro. Mas, pelo que entendi, como o governo da China consegue se ajustar ao câmbio tendencioso de lá?

Abdoral: Os chineses do Partido Comunista não podem encarecer a cadeia produtiva interna de jeito nenhum. Seria catastrófico para o modelo que usam, com câmbio depreciado, muita importação de insumos. Por isso que a mão de obra lá e os impostos são tão baixos, quando comparados com os daqui, e o mercado é relativamente mais aberto e menos oneroso aos estrangeiros. Temos aqui o Custo Brasil e outro problema que provavelmente ocorrerá. Uma pressão de custos com aumento de impostos para tentar cobrir os déficits primários da pandemia. 

Getúlio: Faz sentido. Fazer isso aqui seria complicado. Mas, aproveitando, o que é inflação, senão o aumento persistente nos preços?  Então podemos ter inflação por impostos pressionando os custos?

Abdoral; Considero o conceito de inflação ligado ao aumento de preços, um tanto raso. Inflação é um aumento na base monetária, expansão monetária que força a perda do poder de compra da moeda local. É o aumento de dinheiro em circulação sem aumento de produtividade de maneira que, na relação oferta de bens/serviços versus demanda via dinheiro circulando, desvaloriza o poder de compra da moeda, e isso se verifica nos registros de aumentos persistentes nos índices de preços. A expansão monetária é causa e os preços subindo são consequências da inflação.

Getúlio: Por esta lógica, parece-me que os culpados são…Aqueles que forçam a expansão monetária, geram custos na produção com mais impostos e afetam o câmbio, tudo isso afeta comportamento dos produtores e dos consumidores, quando o governo aquece a “demanda agregada” com mais dinheiro distribuído pelos benefícios,… A culpa toda seria do governo! Mas o Paulo Guedes e o o Campos Neto não são liberais e se envolveram com essas coisas? Estou confuso.

Abdoral: Liberais de araque! Não passam de fraudes quando apresentados como liberais. Na verdade, são keynesianos disfarçados de liberais. Agora, vamos dar nomes aos bois. Os maiores culpados pela inflação são: 1- O presidente Bolsonaro, Paulo Guedes e equipe econômica que promoveram programas de distribuição de dinheiro, gastos acima da arrecadação, que também pressionam a base monetária; 2-Todos os parlamentares no Congresso que votaram por medidas do governo e aumentaram ainda mais a gastança; 3- os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central que estimularam a escassez do dólar na economia interna ao reduzir drasticamente a taxa básica (Selic), sob o pretexto de estimular o crédito. É muita cara-de-pau do teu presidente cazzaro pedir “patriotismo” para problemas que ele mesmo provocou, junto com os demais agentes do Estado. Nada novo debaixo do céu quando um político resolve colocar ou induzir a culpa da inflação sobre os ombros de empresários.

Getúlio: Agora vejo!

Abdoral: Calma irmão. Muito bem, não sou milagreiro para dar visão a cegos, mas posso te dar uma orientação: descanse um pouco mais, tome uma dose deste Cavalo Branco, torne para a sua igreja e conte essas boas novas aos irmãos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas:

1.Você toma a pílula azul, a história acaba e você acorda na sua cama acreditando em que quiser. Você toma a pílula vermelha, você ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei quão fundo vai o buraco do Coelho!;

 

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