Do alto da montanha para uma caminhada com uma parada em um bar e eis que dois “filhos de Getúlio” entram e começar a conversar, no modo em que familiares e amigos costumam “dialogar carinhosamente” em redes sociais quando o assunto é Lula e Bolsonaro.

Estavam em meio à mais recente polêmica da epidemia de inflação nos mercadinhos da cidade: “Realmente está tudo aumentando um pouco, mas vai passar, confio no Paulo Guedes”, disse o  bolsonarista modelo-brucutu-marombado-com-massa-cefálica-reduzida, com um enorme crucifixo brilhante e uma camisa preta com um olhar penetrante de “conservador nos costumes” e “liberal na economia”, tendo uma coleção de tatuagens, começando pelo busto do “cazzaro” no ombro, vários versos bíblicos e uma metralhadora em cada braço, trocando “delicadezas” com um conhecido lulista professor de direito com mestrado e doutorado, tendo grande prestígio na comunidade. Que encontro! Como dizem os italianos, “brutti figuri” ou “imbéciles” em um francês parisiense. Como o episódio envolveu um crente da Igreja Bolsonarista, nada mais justo do que tomar por empréstimo uma introdução sobre a idiotice dada pelo carmelengo da fé, o “guru” Olavo de Carvalho [1]:

“Em grego, idios quer dizer “o mesmo”. Idiotes, de onde veio o nosso termo “idiota”, é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez.”.

O bolsonarista se concentrou em minimizar a inflação como coisa passageira, enaltecer os auxílios emergenciais do governo e falar do que classificou como “belo trabalho” de Celso Russomano, o mais novo “affair” político da seita, lacrador nas redes sociais em vídeos onde combate os “abusos” nas ofertas de supermercados, um multiplicador de idiotas em economia que vem se tornando referência entre os irmãos. O lulista o interrompeu para um certo saudosismo afirmando que a Bolsonaro falta “a coragem de enfrentar os empresários gananciosos que só pensam no lucro”.  O festival de dissonância cognitiva ficou mais interessante em meio à correria de um sábado de feira livre quando o “intelectual” professor lulista fez uma pergunta simples que deixou o amigo bolsonarista, conhecido desde os tempos do ginásio, um tanto mudo: Por que o teu presidente não congela os preços da cesta básica se quer mesmo ajudar os mais pobres?”

A questão gerou aplausos na plateia que se formou ao redor do encontro insólito, coisa que me remeteu aos anos 1980 cuja medida resultou em prateleiras vazias nos supermercados. Naqueles tempos, o então presidente José Sarney assumiu com um quadro fiscal caótico e uma bomba inflacionária herdada dos anos do “milagre” da ditadura militar que expandiu a base monetária (deliberado aumento de dinheiro em circulação), criou formas de centralização de crédito no Estado, “benefícios” sociais, aumentou a carga de impostos e super endividou estatais, caracterizando um tipo de socialismo de direita que fez a população acreditar que tudo estava indo bem. Até mesmo o Lula elogiou as políticas dos militares destes tempos e é muito comum encontramos quem tenha saudades daqueles anos. Ocorre que o preço do populismo militar chegou na década seguinte e caiu no colo do primeiro presidente civil no pós ditadura: desesperado, o senhor do feudo maranhense instituiu um controle de preços que gerou simpatia na população e um dos mais dramáticos casos de escassez na história tupiniquim. O episódio serviu para formar mais gerações de idiotas em economia, sem a mínima noção sobre o que é a inflação, estigmatizando empresários e louvando o governo, justamente o causador do problema. Foi uma fabricação em massa de imbecis com o broche de “fiscal do Sarney”.

Então, a pergunta do professor lulista revela o fato de que o muro de Berlim caiu mas a crença no tabelamento de preços ficou de pé até hoje. Nenhuma burrice é tão perigosa para a sociedade que aquela que vem com o selo da academia. Apesar da aparente divergência, o bolsonarista e o lulista começaram a discutir indo para a mesma direção, sem levar em conta a importância das leis de mercado como sinalizadoras para uma economia sustentável; ambos argumentavam configurados com “software”  intervencionista que sempre os induz ao padrão de procurar em algum planejador central a solução para complexos problemas econômicos, no caso, na vil esperança em ações de burocratas e políticos do Estado “regulando” mercados. Talvez não saibam que a economia brasileira está sob forte intervenção desde os tempos do “Estado novo”.

A inflação atual seria mesmo algo estimável no quadro de uma pandemia e foi agravada com as políticas de expansão da base monetária do Banco Central e a distribuição de dinheiro por meio dos auxílios emergenciais. Se tais medidas foram ou não corretas, justas, necessárias, não me cabe aqui analisar esta questão, e sim na suposição de uma inflação maior em si, mediante a intervenção do aparato estatal. Percebo que a inflação persistente do momento se dá não por uma queda significativa na produção e sim oriunda de parte da oferta de commodities direcionadas para outros mercados (externos) pelos estímulos que o câmbio sinaliza mediante o maior interesse de produtores na exportação, além de uma maior carestia de insumos importados. Tais problemas já eram bem visíveis antes mesmo da pandemia. Junte-se então o aumento de crédito subsidiado e a receita está pronta: maior inflação é inevitável, podendo ser curta, pontual, ou não, dependendo de como o causador vai reagir e, obviamente, como a pandemia será nas próximas semanas. Considerando que o real mais desvalorizado vem de uma menor circulação de dólar internamente, em um mercado de câmbio relativamente flutuante, pelo menor interesse de investidores estrangeiros em manter recursos por aqui, por vários fatores, sendo o mais sensível a queda na meta da Selic a 2% que sinaliza pouca atração a financiadores da dívida, se bem que a taxa praticada no Tesouro está cada vez mais distorcida, além do grave quadro fiscal com o déficit primário passando de R$ 800 bilhões para este ano, algo que aumentou o medo de calote, um sinal de alerta surge: os títulos do Tesouro tinham um prazo médio de 4,06 anos; caiu para 2,8 anos [2]. Então, barreiras ao investimento externo derrubadas se tratam de uma necessidade urgente combinada com a retomada de uma política fiscal austera, com uma redução drástica de custos para aporte estrangeiro e mais redução da burocracia, além de reverter a meta da Selic para 4%, no mínimo, ficando bem acima do IPCA combinada com uma retomada da responsabilidade fiscal efetiva, quem sabe o interesse externo para colocar mais dinheiro por aqui venha a aumentar, gerando mais base em dólar com pressão vendedora, juntando com mais capital ao investimento, valorizando o real. embora uma medida de reversão da Selic  esteja em um momento que possa ser visto como péssimo aos desenvolvimentistas e anticíclicos, a melindrosa equação de custo de oportunidade sobre a inflação e o câmbio seria evada mais a sério, desde que se tenha mais atração de capital estrangeiro. Infelizmente, vejo que nem o Congresso nem o governo federal demonstram mínima disposição para permitirem uma abertura desse tipo ou seja, a história parece se repetir como dissera o “socialista light” (mais conhecido no Brasil como “liberal”) Roberto Campos, “o Brasil nunca perde uma oportunidade de perder oportunidades”.

Pensar na responsabilidade fiscal e no populismo monetário do governo foram coisas fora do ângulo de visão de ambos, bolsonarista e lulista. Não foram educados mesmo para isso. Resta então apelar ao intervencionismo e ao Procon como se preços de mercados fossem apenas combinações monetárias de custos, ignorando a demanda pressionando a oferta repercutindo nos preços. A ignorância cresce na narrativa sempre sutil, dissimulada, disfarçada, sonsa, de quem governa e dos que sabem convencer incautos como sendo “pró-mercado”, e isso é mais perceptível em bolsonaristas que exploram o espantalho da visão lulista ainda com resquícios de stalinismo, como no caso do professor, quando defende ideias que até os comunistas da China abandonaram antes mesmo da derrocada da URSS. Neste debate “inteligente”, o bolsonarista terminou de modo clássico: acusando o lulista de “comunista” por defender tabelamento de preços, quando na verdade opera no mesmo sentido. Claro que em um bar com dois sujeitos formados, bem educados em uma faculdade, é demais esperar uma conversa séria sobre problemas estruturais que há décadas atingem a sociedade produtiva brasileira, desde os anos 1930 quando os últimos vestígios de grande iniciativa privada deixaram o país. Também é demais esperar que saibam que a economia é feita por ciclos que ensejam em ações dos consumidores que precisam lidar com a escassez, situação onde o governo é problema e não solução.

A polêmica da inflação e o que o governo pode fazer é tão vazia e perigosa a ponto de que, embora não assuma publicamente o que o lulista tem mais facilidade para defender, o bolsonarista não percebeu que ao enaltecer medidas coercitivas de fiscalização de preços e custos no Procon, está indo por um caminho diferente,  mas que deseja o mesmo destino: uma economia mais baseada na coerção do Estado e não na realidade do livre mercado;  então, ambos estão sob uma crendice do imaginário popular que vem de todos níveis de instrução, do mais simples lavador de carro que ouvia tudo com um sorriso de satisfação pela ideia de congelamento de preços, até um acadêmico com anel de doutor que decidiu apimentar o efeito Dunning-Kruger se revelando como mais um expert em economia.

O encontro felizmente terminou com um grupo de almas caridosas que chegou para acalma-los. Então, restou-me mais uma constatação de que os dois filhos de Getúlio Vargas, produtos do fascismo versão tupiniquim, avessos à verdadeira liberdade econômica, cada um ao seu estilo, vivem sob a vocação comum de servirem como idiotas úteis que se odeiam politicamente para aumentar o escopo do populismo e da mentalidade de Estado. Quem sabe um dia eles se descubram como irmãos…

 

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Notas:
  1. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. A idiotice. Ed. Record, 2017. Página 19.
  2. Ver matéria do Estadão Economia

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