[1] O homem-massa se tornou um resultado da sociedade que abandonou o valor da responsabilidade, fator que só tem sentido se for aplicado ao indivíduo. Não há como falar seriamente de responsabilidade sem considerar o peso fatal do indivíduo assumindo as consequências de seus atos no uso da liberdade. É entre a razão e a intuição que se desenvolve um sentido ético para a liberdade e sua contrapartida, a responsabilidade, onde corre em uma ordem natural, contudo, ao homem-massa só interessa a primeira, e ainda assim por demais vigiada, a trocando  no sentido humano por uma artificializada ou estatizada.

Um poderoso instrumento contra a espontaneidade social; eis um papel do homem-massa no suporte a violenta intervenção do Estado na sociedade e na economia, onde, como diz Ortega y Gasset, “nenhuma semente nova poderá frutificar” [2]. O homem-massa faz a sociedade viver na predominância de que todos devem viver para o Estado; todos estão tão-somente para a máquina do governo. Boa parte desta visão de mundo se resume a pagar impostos e cumprir, ou fingir que cumpre, obrigações com o aparato do Estado, que existe não para servir e sim para fazer valer a Escola Elitista. O Estado moderno é um avanço do estado monárquico ou aristocrático dos amigos do rei. Mudou o rótulo, mas o conteúdo é o mesmo; uma elite opera no poder enquanto explora o homem-massa como uma mercadoria que hoje representa cada voto. No entanto, o homem-massa vive cercado por comodidades, e isso serve de contrapeso para mantê-lo no cabresto, o deixando cego, insensível, amarrado por ilusões legislativas ou proteções de leis positivadas que o incentivam a ser cada vez mais ignorante, relaxado, acomodado, irresponsável,  de acordo com que convêm por quem os seduz, em especial na política de “benefícios sociais”, sob o escudo da narrativa de que vale mais é coletivo que vem pelo senso protetivo do “democrático de direito” que o convence a viver em currais políticos, ou seja, de que é melhor abrir mão como um ser potencialmente disposto a cuidar de si, vindo a se converter em um típico acéfalo e deslumbrado com que a sociedade produtiva pode lhe prover, sem qualquer conexão que o esclareça como as coisas se desenvolveram e funcionam.

O homem-massa não tem senso de responsabilidade porque foi muito bem educado, pela poderosa regulação estatal de ensino dito “público”, em muitos lugares mais conhecida por “Ministério da Educação”,  para terceirizar ao Estado e coletivizar quase tudo, em especial a responsabilidade, sempre manipulada para fazer parecer ser coletiva, que termina “culpando” ou exigindo mais do Estado; não há o indivíduo e sim a alienação por narrativas de “falta de oportunidade”, “injustiça social” e coisas afins para ampliar o Estado, vitimizar os verdadeiros agressores e penalizar as vítimas. No final, importa que o Estado se apodere e ordene a todos, regule a sociedade, de maneira que os infantilize cada vez mais.

De vez em quando o homem-massa se revolta com o Estado; todavia, por força de sua mentalidade “formatada” para raciocinar apenas por uma visão social do Estado-babá, ele opera em um ciclo que o faz girar no mesmo lugar. Para isso, basta ver os protestos de 2013 exigindo “padrão Fifa” para serviços que o homem-massa foi convencido, desde o jardim da infância, de que devem ser “públicos, gratuitos e de qualidade”. Isto posto em função de que está tudo conectado em uma mentalidade de Estado no início, meio e fim de todas as cosias, em um tipo de “fascismo do bem”, imperceptível a todos os assim formados,  os fazendo como eternos adolescentes de meia-idade que gritam, esbravejam, exigem seus direitos, denunciam, comemoram quando políticos são punidos, mas quando o caldo entorna, não conseguem pensar em outra coisa além da dependência ou vício com o Estado e eis que correm feitos filhotinhos para debaixo das asas do corporativismo estatal, e esquecem que o mesmo é controlado pelos mesmos políticos e práticas de corrupção que tanto denunciam.

Não é de se admirar que a estupidez, a vulgaridade e a imundície façam parte do “glamour” do homem-massa. Ele se diverte com o culto ao besteirol, com a celebração da burrice alheia, e a tudo que não force seu raquítico intelecto ou os exponha em deficiências cognitivas. O homem-massa busca gurus, livros e vídeos de autoajuda; precisa apenas ver e ouvir o que reforce sua sensação de segurança em um mundo-bolha que, ao estourar, o joga para uma crise onde os piores se aproveitam pelo desespero. A condição de homem-massa não se trata de ser coisa restrita a pobreza material. Há indivíduos tão pobres que a única coisa que têm é o dinheiro. O que quero dizer é que é tão comum ver um homem-massa em rodas mais endinheiradas, assim como entre flagelados. A miséria do homem-massa é, a priori, um problema do espírito e assim não pode ser explicada por uma específica condição econômica ou “racial” [3]; é uma questão sociológica, psicológica e antropológica que descamba para o universo da política expert em viver do estatismo, onde só os canalhas prevalecem. O homem-massa, seja rico ou pobre, não importa o que se diz dele sobre a “raça”, está cheio de desejos e “certezas”, busca por respostas curtas e “completas”, para explicar o mundo e resolver problemas de forma imediata. O homem-massa tem pressa e quer soluções como se tivessem em uma prateleira, onde então vence a política ou seja, um meio que só os mentirosos podem satisfazê-lo. Então, é natural que seja incapaz de aprender com lições que uma pandemia como a do coronavírus pode proporcionar, seja  por sua incapacidade de uma mínima reflexão, seja por mera submissão ao aparato estatal que atua para ceifar mais ainda suas liberdades; então há dois polos, o da submissão e o do negacionismo que subestima riscos reais, não por serem alertas exclusivos do aparato estatal e sim por uma coerência mínima que da ciência se pode dispor. Em suma, o homem-massa se fecha em um mundo onde carece de ser governado enquanto se esvazia de qualquer senso de responsabilidade.

Fato é que o homem-massa caminha triunfante como maior “instrumento”, aqui no sentido dado por Gramsci, para fazer da servidão ao Estado e da imaturidade, um legado. Não cansará em espalhar fake news para reforçar o curral eleitoral o qual está devidamente marcado; irá às urnas para proclamar suas bizarrices políticas em uma apoteose com seu político de estimação, aprofundando cada vez mais um abismo na terceirização de seus problemas para quem e o quê são incapazes de resolve-los, na medida em que se anseiam, mas que por obra do imbecil coletivo prevalecem em um convencimento delirante que realiza fantasias em um inferno ideológico ambidestro, repleto de “boas intenções”.

Eis o homem-massa, um produto do progresso do Estado moderno, um prêmio da democracia; um louvor à ignorância e ao prazer por tudo o que infantiliza a espécie humana.

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Notas:
  1. Foto: Estátua de Clarice Lispector rodeada de lixo após uma festa no Leme, Rio de Janeiro, na manhã desse sábado, 26 de Setembro de 2020. Por Célio Albuquerque via Fotos de Fatos;
  2. A rebelião das massas. XIII, O maior perigo, o Estado. 5a. edição em português (2016). CEDET. Texto produzido nos anos 1920/1930. Traduzido da Edição de Madrid, publicada em 1948.
  3. Não creio na existência de raças humanas e sim apenas em uma única espécie, humana.

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