Diploma não fecha balanço

Domingo, 6 de dezembro de 2020.

Em 30 primaveras tem mais um aprendizado que, como de costume, foi assimilado bem distante das salas de aula na dita “academia”. Muitos dos melhores profissionais de contabilidade que conheci jamais colocaram os pés em uma graduação de “ciências contábeis”. Chamados de “técnicos”, muitas vezes em um sentido depreciativo por quem se gaba por ter um diploma de faculdade, tais excelentes profissionais demostraram, em diversas ocasiões, um domínio de conhecimentos em contabilidade bem mais sofisticados, depurados, amadurecidos, se comparados com conhecimentos de muitos graduados, mestres e até doutores.

Quando notei um professor universitário de “contabilidade de custos”, também proprietário de um escritório, terceirizando serviços de escrituração contábil para um auxiliar de outro escritório, assim como a elaboração das demonstrações, sob a alegação de “falta de tempo”, não sei se também assinando por um trabalho que não produziu (o que me suscitou uma grave questão ética), ao mesmo tempo eu desconfiava que o dito cujo não sabia bem, em diversos momentos, onde debitar e creditar certas coisas, mas dava aulas, palestras e treinamentos, e eis que pude então perceber o quanto o ensino dito “superior” no Brasil, em muitas situações, não passa de uma grande farsa.

O ensino “superior” tem se revelado, em muitas situações, apenas como uma grande central de emissão e distribuição de diplomas para massagear o ego das pessoas. Perdi as contas de diplomados em ciências contábeis que se enrolavam para organizar um plano de contas, definir naturezas de eventos, assim como debitar e creditar. A coisa fica mais dramática na elaboração de demonstrações. Fechar balanços então parece mais um filme trash de terror. Cheguei a desabafar uma vez para um desses diplomados que não sabem contabilidade após perceber que o sujeito  não cessava de fazer perguntas infantis, básicas, como se fossem dúvidas de software, chegando ao cúmulo de culpar o sistema porque algumas contas no balanço estavam em grupos indevidos e com saldos estourados fazendo com que o referido documento fosse reprovado por uma auditoria: “É amigo, diploma não fecha balanço, fazer o quê?”. Tive a impressão que o sujeito queria me ver pelas costas…. Quando a auditoria terminou e as obrigações cessaram, a melhor parte para mim foi ter encerrado imediatamente o contrato de fornecimento de software com o tal diplomado em ciências contábeis, algo que tenho certeza que ele também faria se eu não tivesse tomado a iniciativa.

Conheci profissionais que diante de um não saber, se portaram com humildade; foram pesquisar, ler, ouvir pareceres de outros colegas e assim estudar para, de fato, servirem aos seus clientes com excelência. Tais já eram veteranos diplomados há décadas e me mostraram um lado ético e digno de nota nestas minhas memórias. No entanto, os mais novos não possuem um pingo sequer dessa virtude; ressalvando-se as exceções, estão enfermos com uma arrogância a ponto de tornar impossível um crescimento profissional verdadeiro, ficando cativos de uma cultura de honrarias,  diplomas e pedestais, sob um desejo tolo de fazer carreira acadêmica sem pensar em interagir com as necessidades técnicas da sociedade produtiva, como se uma coisa não dependesse da outra.

Aprendi também que as melhores faculdades são as empresas e entidades onde os trabalhos são desenvolvidos Os contadores mais qualificados que conheço cresceram em empresas, escritórios e organizações não governamentais aplicando teorias e vendo as coisas por dentro, no mundo real. Aplicaram teorias assim como tentativas e erros. Sofreram para aprender coisas que jamais uma graduação em faculdade poderia lhes mostrar. Esses grandes profissionais foram para a faculdade depois de formados em empresas, apenas para atender ao que o legalismo impõe; do ponto de vista intelectual, o curso “superior” não lhes acrescentou quase nada.

Não é por acaso então observar o fato de que os que têm mais deficiências são, justamente, os diplomados que não tiveram a oportunidade de trabalhar em empresas e escritórios que respiram contabilidade. Tais formados estão bem distantes de uma realidade porque foram “preparados” por muitos professores que apenas falam sobre a contabilidade, mas não vivem o dia a dia de quem coloca a mão na massa. São teóricos que vivem em redes sociais divulgando artigos que não possuem qualquer utilidade para o meio produtivo e vivem em uma redoma de vidro onde só eles e seus asseclas delirantes podem viver; a contabilidade seria uma espécie de sacerdócio para pessoas muito especiais, não cabendo discuti-las com pobres mortais, os mesmos que produzem, investem, analisam riscos e geram empregos.

Então, muitos de seus “alunos” (o termo melhor seria devotos) acabam indo pelo mesmo caminho; saem das faculdades totalmente alienados, se achando como mestres e quando se encontram com uma coisa inconveniente chamada realidade e outra pior ainda para eles, a tal da praticidade, entram em um processo de frustração  e aumento da arrogância diante de conhecimentos vagos  e ultrapassados que aprenderam, tratados como se fossem a joia da coroa no mundo da contabilidade.

Digo conhecimentos vagos e ultrapassados porque quase sempre as faculdades estão muito atrasadas sobre o que é feito com a contabilidade, em nível muito avançado, nas corporações. A própria contabilidade se modernizou entre a Repubblica di Venezia e Firenze por corporações que contaram com o brilhantismo de um distinto senhor amigo de Leonardo da Vinci, matemático e frade: Luca Bartolomeo de Pacioli (1447-1517). Não foi em um centro acadêmico convencional, uma universidade, ou em mesas de burocratas de um governo planejando a sociedade que a contabilidade foi modernizada e sim dentro de organizações privadas na vanguarda do saber onde teoria e prática precisam sempre andar de mãos dadas.

E até hoje tem sido assim. A contabilidade vai se modernizando usando diversas tecnologias de integrações  enquanto professores de faculdades continuam dando aulas com assuntos desatualizados, sem conhecer na prática tais tecnologias; permanecem distantes do dia a dia das empresas e pouco têm a acrescentar para que seus alunos tenham uma mínima base quando forem para o mundo real. Dão aulas como médicos que realizam cirurgias com ferramentas com atraso tecnológico de 20, 30, 40 anos! Isso ocorre, em parte, porque as regulações do ensino “superior”, feitas pelo Estado,  engessam a dinâmica que deveria existir entre as faculdades e  a sociedade econômica. Os professores estão comprometidos com uma agenda onde boa parte das coisas são determinadas pelo desastroso Ministério da Educação  e não pelo que acontece e é demandado nas empresas.

Sempre há exceções, claro, mas as faculdades estão cada vez mais especializadas em formar alienados em termos de disposição ao que a sociedade demanda. Um exemplo claro dessa alienação está no uso de tecnologias nos criptoativos. O blockchain, que serve de suporte ao bitcoin, representa uma revolução na escrituração de lançamentos contábeis em banco de dados usando criptografia que permite uma fiscalização ou auditoria descentralizada dos registros, validando o próprio lançamento, onde não me surpreende que a maioria não saiba o que significa, como funciona e o impacto na profissão contábil. Alunos então sairão das faculdades totalmente perdidos, se dependerem das iniciativas de tais professores mais ocupados em agradar o sistema de educação fazendo carreira por títulos acadêmicos que qualquer outra coisa. E o pior: serão influenciadores de alunos para uma mesma mentalidade.

 

 

 

 

 

 

 

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