Eu sou insignificante

Agora que encerrou o expediente, segue ID pra gente vê (sic) aquele negócio da ECD de 2018…”

Eis uma cínica (e um tanto engraçada) mensagem de pós expediente recebida que fora seguida por 16 interações cujo “diálogo” conseguiu ser mais “inteligente” que qualquer conversa entre bolsonarista e petista. Uma robô repetindo um ticket e informando que o expediente acabou e um ser humano, um tanto perturbado do juízo, escrevendo em CAIXA ALTA alguns termos impublicáveis neste distinto grupo. No final, quando a figura cansou e percebeu que estava falando com uma moderna “secretária eletrônica” que chamo de “La Gioconda”, entre tantos adjetivos “carinhosos” mencionados à minha pessoa, teve um que foi mais interessante: PETULANTE. Pelo menos ele encerrou com estilo, sem ser vulgar.

Quando ocorreu o atendimento, expliquei ao rapaz, ainda revoltado por não o ter atendido depois do expediente, usando um dicionário, os significados dos termos “expediente” e “fechado”, algo seguido de um “você é muito engraçadinho, não sou analfabeto!“, como se ainda estivesse naquele modo “barril de pólvora” hiper-ultra-sensível. Segui calmamente tentando explicar que não estou disponível no WhatsApp após o expediente e que há uma organização no atendimento para evitar um descontrole que seria caótico, mas o dito cujo continuou confundindo prestação de serviços com trabalho escravo, por sinal, uma confusão muito comum também em pessoas que se apresentam como “diretores” ou  coisas do tipo  consideradas importantes apenas para intimidar, dando mau exemplo sobre o respeito a coisas básicas na cooperação pacífica entre humanos, tais como respeitar os limites de jornada de trabalho, regras de dias e horários e sobretudo, além de um código de ÉTICA para relacionamentos profissionais.

Já recebi mais ofensas pessoais em dois anos no WhatsApp do que nos outros 28 anos de profissão. Contudo, cada vez mais tenho reagido da forma fria, indiferente; tive que aprender, em um longo processo, a não permitir que um descontrole emocional de um cliente venha a influir no desenvolvimento de meu trabalho, algo que ganhou um impulso maior quando comecei a investir na Bolsa e sentir que tinha que encontrar um jeito de lidar com os meus impulsos e temores psicologicamente normais e sempre passíveis de serem trabalhados.

Nessa jornada, comecei a meditar mais sobre algo que me ajudou a ver o mundo como se apresenta e não como eu gostaria que fosse: a minha insignificância diante de inúmeras variáveis nesta passagem terrena em que não tenho o mínimo controle e o quanto estou sujeito a riscos que não faço a menor ideia de como surgem e acabam me impactando. Verifiquei que no plano espiritual então, essa minha insignificância se multiplica pelo infinito…

Não se trata aqui de ser modesto ou de bancar o humilde. Sou insignificante de forma categórica, indiscutível e se eu não levar isso a sério acabarei como o rapaz que me adjetivou no início desta inconveniente meditação. Uma vez ouvi um sermão em que o pastor repetiu várias vezes e pediu para que os presentes no culto repetissem: “Você é especial para Deus!” e em seguida “Você é  filho do dono do mundo!”. Esse é o tipo de delírio coletivo que distorce a fé cristã como uma forma egocêntrica de se impor no mundo, onde a ética passa a ser um detalhe, a moral e o próprio Deus são relativizados de acordo com os desejos pessoais. Então, às vezes fica no ar que certos religiosos são metidos, convencidos, muitos se achando intocáveis até mesmo para doenças e fui pensando no estrago que um sermão daquele é capaz de fazer em uma sociedade onde a palavra “direito” está mil vezes à frente da “obrigação” e o sofrimento que faz parte da vida é, via de regra, mal concebido por promessas de prosperidade que não se encaixam com os fundamentos cristãos, onde indivíduos como São Pedro, São Paulo e tantos outros grandes seriam vistos como fracassados nessa sociedade de pessoas de meia idade que não gostam de pensar como adultos e querem receber brindes de Deus, cuja crença lembra mais uma babá no jardim da infância.

O mercado de ações me ensinou mais sobre minha insignificância do que muitas lições de moral que recebi na juventude e devo explicar que não as aprendi por causa da imaturidade à época. Foi depois dos 30 que vi que na Bolsa não há mestres nem doutores, como ensina Décio Bazin [1], todos são aprendizes. A humildade é uma necessidade básica quando se precisa considerar fatos e não opiniões ou desejos pessoais. Nesse sentido, o mercado acabou sendo uma forma de me mostrar o quanto sou uma desprezível unidade microscópica, o que nas Escrituras pode ser sintetizado:

“…porquanto és pó e em pó te tornarás.” Gênesis 3.19.

Mas na juventude tal verdade passou por mim sem que eu a tivesse devidamente assimilado. Vi muitas coisas que hoje me lembro e as considero belas e edificantes, ensinadas em espírito de sabedoria por pessoas de Deus que tive a sorte de conhecer. Todavia, a juventude foi mais de discrepâncias do que fiz entre o falado e o realizado, entre a palavra e a ação, entre ditos de suposta humildade e gestos de incontestável arrogância, entre uma aparente prudência prometida e atos intempestivos. Não fui diferente de muitos jovens, sejam se sentindo felizes ou não. A juventude é um “correr atrás do vento”, como se diz em Eclesiastes, em muitas ocasiões. O mais importante é que passei desta fase e sobrevivi; agora estou abraçado com a minha pequenez de saber que “sou pó” para seguir em frente com melhor consciência de onde saí, onde estou, tendo melhor base para perceber para onde estou indo. Desta forma vou deixando também de criar maiores expectativas com o mundo sem perder o prazer de viver e isso me ajuda a me decepcionar menos e me surpreender mais. Entendi também, nesta insignificância melhor compreendida, que se eu conseguir cuidar de mim mesmo e dos meus íntimos cada vez melhor, estarei sendo bem mais útil ao mundo do que sair por aí com fórmulas mirabolantes para melhorar a sociedade arrumando conta para os outros pagarem. Tal consciência do quanto “sou pó” também me ajuda a evitar certas precipitações em julgamentos antecipados que desembocam em preconceitos e injustiças com os outros. Não que eu esteja imune a tais falhas, mas pelo menos terei mais chances de ter como evitá-las.

Por fim, quando ao pó eu retornar, assim espero conseguir passar por esse mundo deixando mais benefícios do que danos.

 

 

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Nota:

  1. Faça fortuna com ações antes que seja tarde.

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