Vitória de Santo Antão, 12 de dezembro de 2020.

Foi com ar de decepção com a minha pessoa que assim notei em um jovem quando respondi, por diversas vezes, com a expressão “não sei”, na ocasião em que fui indagado sobre o que penso sobre o que seria a “fraude” do coronavírus, após ter escutado do mesmo uma explicação típica de viés bolsonarista, “esclarecendo” as origens comunistas da doença que seria parte de um projeto de governo mundial que estaria em curso, capitaneado pelo Partido Comunista da China (PCC).

Limitei-me a dizer ao jovem “especialista” em pandemia e geopolítica que não tenho uma mínima base de conhecimentos para definir questões que ele aparenta ter tanta certeza, embora desconfie que o governo do PCC possa ter responsabilidades na pandemia. Creio que tende a levar anos, talvez décadas, para que eu compreenda melhor o que está acontecendo no mundo em relação a esta pandemia, sobretudo acerca de suas origens e se há alguma influência ideológica no sentido dado pelas explicações que dele recebi. Talvez eu até morra sem saber o mínimo que seja necessário para não ser um idiota quanto a falar sobre o assunto com ares de certeza, aqui parafraseando o Olavo de Carvalho, pensador de direita que eu leio, assim como o faço por estudo de pensadores de esquerda, que o “especialista”, como todo típico bolsonarista militante costuma citar aparentando desconhecer.

“Está falando como se fosse um isentão”, disse com ar de quem estava me cobrando uma posição binária (contra ou a favor) sobre o que estava defendendo. E mais uma vez fiz uso do incômodo “não sei”, algo que parece irritar bastante quem precisa de certezas absolutas e imediatas para quase tudo na vida e acaba virando alvo fácil de manipulação política. A sede por respostas seduz as pessoas e forma os militantes ingênuos. Quem busca o conforto de viver amparado por ideias e modos de vidas onde aparentemente o mundo é “seguro” em uma proporção que despreza os riscos, pode cair em um vazio diante de algo como o coronavírus devastando crenças, sobretudo às que prezam pela (ilusória) eficiência política, mas ainda, parece, não ter aprendido que a humanidade sempre esteve e estará a mercê de infinitas variáveis de riscos pelas quais não tem o mínimo controle. A vida segue e o coronavírus é mais um capítulo desta saga chamada “humanidade”, com crises, pandemias, guerras, fomes e tantas outras catástrofes que nossa espécie passou e aprendeu a superar.

Concluí explicando ao rapaz que passei por uma série de sintomas cuja combinação nunca tinha experimentado. Não foi a “gripezinha” que o presidente-gadoso, que ele tanto tem apreço, disse em cadeia nacional. Dificuldades para falar havia duas semanas em meio a uma tosse persistente que veio após um ciclo de febre nos três primeiros dias, com pouquíssima secreção, me deixou alerta. Depois surgiu uma fraqueza nas pernas, menos intensa porém estranha e que lembrava um pouco a que tive quando sofri de erisipela na adolescência. Meu corpo lutando contra algo que cada vez mais se parecia com os sintomas característicos da covid-19. Em seguida veio a perda do paladar e um pouco da audição comprometida.  Sentia uma leve (suportável) dor no tórax ao respirar, mas nada que impedisse de falar breve e pausadamente, assim como passar em um simples exercício de respiração onde não se viu motivo para que eu fosse encaminhado a um hospital, mediante uma consulta não presencial com um médico da Amil. Tomando AzitromicinaNitazoxanida seguia trabalhando em um ritmo lento (e os clientes estranhando porque tinham também cessados os áudios habituais no grupo), mas depois que comecei a tomar, conforme a nova indicação médica, o antialérgico Histamin Maleato de Dexclorfeniramina, na forma de xarope, comecei a ter calafrios, mãos trêmulas, visão turva e ânsia de vômito durante duas madrugadas. O ápice da crise se deu na sexta, dia 22 de maio, por volta das 13 horas onde tive uma falta de ar após mais um enjoo e visão turva. A caminho do hospital em Recife, passei por mais uma consulta não presencial após ter apresentado uma melhora, coincidentemente tinha suspenso o xarope. Em família, após ter conversado com mais uma (verdadeira) especialista médica, decidi pela volta para casa e eis que passei mais duas semanas em recuperação. Então, quando escuto alguém falar que coronavírus “não existe”, tenho um misto de indignação com pesar.

O que posso afirmar sobre o coronavírus?

  1. Vivi na pele sintomas em uma experiência que me impactou severamente mesmo não tendo passado pelo internamento e em graus mais delicados. O vírus representa um imenso entrave econômico-social face a sua capacidade de rápida transmissão e as demandas de produtividade que as sociedades não podem descartar que implicam em interações a serem adaptadas a este cenário tão complexo; as economias não podem parar enquanto as medidas preventivas são imperiosas. Estamos diante de uma difícil equação. Os negacionistas caem de um lado, e os fatalistas ou porta-vozes do apocalipse, de mentalidade esquerdista, estão no outro lado. Fato é que a nossa geração está diante do imenso desafio de encontrar formas de conviver e depois superar (vacinas) a emergência sanitária, enquanto se vê em um processo avançado, uma parte natural, essencial, e outra manipulada, a meu ver, de globalização. penso que o negacionismo e as narrativas de minimização agravam a situação em função de que comprometem chances de entendimentos melhores, mais consistentes, sobre questões de saúde impostas pela pandemia, assim como as efetivas soluções;

  2. Políticos estão se aproveitando para aumentar controles sociais (uso indiscriminado de lockdows e meticulosas restrições sem amparo científico) enquanto forçam o aumento da dependência dos mais carentes a programas sociais os deixando mais presos, cativos, os educando ainda mais a viverem de auxílios, enquanto aumenta o problema da baixa produtividade, além de prover um patamar ainda mais crítico do endividamento dos estados nacionais. Nesse imenso pacote socialista reside o que entendo por “fraudemia”.

No entanto, desde que me entendo por alguém que gosta de pensar, e por isso aprecia tanto as dúvidas, nunca vi neste mundo tantos “especialistas” em vírus e epidemia; são tantos “infectólogos” por aí, nas esquinas, formados instantaneamente em redes sociais por vídeos, áudios e textões visivelmente enviesados, soando a  manipulação cuja natureza é tão nefasta quanto as coisas que denunciam como “fatos” mediante a exploração política do vírus que me é clara, irrefutável. O coronavírus toma conta de um mundo onde inescrupulosos exploram pessoas ingênuas que querem respostas e acabam ficando ásperas com quem simplesmente reconhece que não sabe o mínimo e prefere ler e ouvir em vez de bancar o expert em algo tão complexo. Quem reconhece a dúvida e procura se orientar com especialistas que lidam com o problema real, em laboratórios e hospitais, e não dizem muitas coisas tão conclusivas até porque estão aprendendo com a nova pandemia, passa então a ser tratado como se tivesse no grave pecado da “isenção” por quem prefere politizar tudo com “certezas” sem base científica e acabam servindo mais para espalhar fake news e alimentar lendas em torno de teorias da conspiração.

Um mundo repleto de “especialistas”, cuidado! A pretensão do conhecimento nunca esteve tão excitada desde que comecei a observa-la, desde aspectos técnico-científicos, chegando até as intervenções de governos nas economias, agora atingindo questões de foro familiar que até então os mais intervencionistas e “engenheiros sociais” não ousavam proceder. Um mundo cada vez mais socialista que me remete ao dia 10 de dezembro de 1974, quando um dos pensadores mais importantes em minha caminhada de leituras, Friedrich A. Hayek (1899-1992), prefaciou [1] no banquete de gala, na véspera da entrega do assim chamado “Prêmio Nobel de Economia”, como um dos agraciados naquele ano, para enaltecer a humildade, coisa raríssima entre acadêmicos, especialmente em economia. O austríaco citou Alfred Marshall (1842-1924):

“Os estudantes de ciências sociais devem temer a aprovação popular: o Mal os acompanha quando todos os homens os elogiam”.

A pretensão do conhecimento e o efeito Dunning-Kruger

Antes de chegar ao público predominante, o acadêmico, para o qual Hayek falou, preciso me voltar ao problema da pretensão do conhecimento de uma forma mais próxima, combinado com o efeito Dunning-Kruger, da “ilusão de superioridade” do saber que acomete sujeitos que pensam conhecer mais sobre determinado assunto do que os outros em melhores condições de preparo. Essa explosiva combinação da “pretensão do conhecimento” com o efeito Dunning-Kruger, me parece ser uma moléstia epidêmica maior que a do coronavírus.

Por efeito dessa combinação, posso ver o quanto a geração presente, incrementada com a internet,  as redes sociais e o progressismo na política, está sob uma exponencial de imbecilidades que retratam o espaço que os incontáveis “especialistas” se situam, lembrando aqui um dito de Umberto Eco:

“I social media danno diritto di parola a legioni di imbecilli che prima parlavano solo al bar dopo un bicchiere di vino, senza danneggiare la collettività. Venivano subito messi a tacere, mentre ora hanno lo stesso diritto di parola di un Premio Nobel. È l’invasione degli imbecilli.” [2]

O imbecil famoso na internet parece ser mesmo a síntese maior do poder multiplicador no abismo da pretensão do conhecimento e do Dunning-Kruger, mas esse bruto no saber que é levado a sério não é o único nessa debilidade coletiva e penso que as redes sociais não são os únicos lugares com essa pandemia de ignorância celebrada como sabedoria. Servindo de instrumento para quem precisa do seu carisma e de sua carência de conhecimento muito bem disfarçada, conduzida, manipulada, estimulada, articulada, o imbecil potencializado está dentro de um mecanismo imenso de delírios em meias verdades, subterfúgios, fideísmos, teorias da conspiração, fraudes por pseudociência, manipulações em pesquisas e coisas afins, tudo dentro do que a política precisa para tomar conta de uma sociedade onde predominam indivíduos cada vez mais induzidos a acreditarem no desprezo da liberdade, da responsabilidade (fatores individuais) e da natureza das leis de mercado, vivendo em imensos currais eleitorais para fazer valer o negócio maior da política: a multiplicação de idiotas na forma de eleitores. E não se trata apenas de pessoas anônimas que ganharam notoriedade por espalharem a ignorância com ares de sabedoria. Artistas e personalidades reforçam esse canal de empoderamento no sentido de que a fama em si funciona como passaporte para também dar rótulo de “especialista” em quase tudo, em especial se for a respeito de política, economia, saúde, segurança, direito, justiça, etc.. As “legiões de imbecis” que Umberto Eco mencionou, para mim, se traduzem em capital político por “formadores de opinião” que operam retroalimentando o delírio coletivo; são lulistas, bolsonaristas, psolistas, entre tantas outras massas de bestializados que fazem o jogo da política ficar do jeito que os políticos desejam.

Contudo, a imbecilidade vista como tecnicidade e sabedoria ganha outra dinâmica quando chega até as empresas através de sujeitos “especialistas” ou “consultores” que, a partir do bojo de conhecimentos que possuem, tendem a se achar mais relevantes do que realmente são dentro do todo em que os problemas se situam, onde conhecimentos estão naturalmente dispersos, e caem no drama do “problema do especialista” trabalhado por Nassim Nicholas Taleb [3]. O dano do especialista pretensioso se torna mais sério na medida em que vai subindo na hierarquia e não percebe a importância de uma formação mais holística e tende a enxergar os problemas apenas pela sua ótica de expertise e assim toma decisões ainda mais impactado pela “ilusão de conhecimento”; munido de relatórios e pareceres sobre assuntos pelos quais tendem a ter pouco domínio, ficando mais induzido por convicções; esse drama é inevitável e só aumenta na medida em que o sujeito vai acumulando poder decisório.

Nível de destruição maior não há quando o Dunning-Kruger chega à política e na proporção que o pretensioso consegue escalar a montanha do poder, vai se tornando uma arma  de destruição em massa, contando com técnicos que tendem a super dimensionar também os próprios saberes diante da vastidão de conhecimentos em dispersão. Neste ponto, chego até o público que Hayek abordou no discurso de gala no Nobel de 1974. Entre tais técnicos estão os economistas, uns sujeitos que se especializaram em produzir fraudes por meio da pseudociência da previsão,  não importa se sejam vistos como liberais, neoliberais, socialistas ou progressistas,  mediante o uso de modelos matemáticos para disseminar entendimentos que fazem parecer ser possível antecipar complexas ocorrências em economia. É neste charlatanismo que os oportunistas e os acometidos de Dunning-Kruger da política se misturam e se encaixam para justificarem suas “politicas públicas” carentes de falácias preditivas.

No dia seguinte, Hayek discursou trazendo uma mensagem que não perde a conexão com a atualidade dos problemas que dizem respeito à arrogância de fazer previsões ou vender “soluções” tomando a  matemática e a estatística, mais precisamente pela econometria, para aparentar uma base “científica” a resultados futuros. O austríaco agraciado em 1974, lembrando o amigo e sábio Ludwig von Mises [4], menciona o pretium mathematicum dos escolásticos espanhóis do século XVI, para argumentar face à pretensão tão peculiar entre os que negligenciam os problemas da dispersão do conhecimento que impacta os cálculos dos preços quanto à determinação, em meio a circunstâncias diversas na economia que só na sua totalizada só “Deus teria a capacidade de conhecer”, sintetiza.  Os textos de Hayek me aproximam de Nassim Nicholas Taleb com a obviedade que ganha ares de provocação: “não podemos prever”, suscitando uma questão ampla e essencial que vai além da economia, no entanto, indivíduos que usam ternos caros e falam com uma retórica “impecável” diante de câmeras em talk shows de mercado, devidamente munidos de cálculos “precisos” e  “comprovados”, seguem vendendo a fraude das previsões em economia do tipo se um governo alocar X em Y e/ou controlar determinados fatores (os detalhes das estimativas, onde está o inferno, não importam), então “obterá” resultados que soam como matematicamente preditivos, como se o mercado funcionasse apenas  através de planilhas e equações sem considerar o peso subjetivo da ação humana em uma imensa cadeia de combinação de fatores em decisões de milhares, milhões e até bilhões de agentes formando o dinamismo da economia que atende pelo nome de “mercado”.

Não se trata aqui de rejeitar a matemática e a econometria como ferramentas que, sem dúvida, auxiliam para uma melhor compreensão (ou não) sobre o que aconteceu traduzido em números , mas entre analisar o passado e usar modelos para justificar  “prognósticos muito generalizados” sobre o que se deve esperar em determinada situação acerca de problemas e fenômenos econômicos, se trata então de um salto da ciência para a fraude. Hayek menciona o uso massivo de aumento da “demanda agregada”, o que no Brasil pode ser visto de forma pragmática na Nova Matriz Econômica do petismo, obra de economistas da Unicamp e foi um desastre em financiamentos, expansões monetárias e favorecimentos a determinados “amigos do rei”, aplicando desonerações, formando um pacote de alocação indevida de recursos sob os velhos apelos do desemprego e do baixo investimento. Esse charlatanismo também tem a participação de economistas “liberais” [5] no sentido de vender a ideia de que o aparato do Estado pode lidar satisfatoriamente com os problemas de dispersão, como se o erro fosse a forma da intervenção e não a intervenção em si.

O último ponto que destaco do discurso de Hayek está em um tema que nunca saiu da cabeça dos lobistas pelo intervencionismo, em especial daquelas figuras hoje chamadas de “influencers”, que se parecem como autênticas pessoas do mercado, defendendo mais expansões monetárias de bancos centrais, produzindo mais e mais inflação na medida em que desvaloriza o poder de compra da moeda. Esta é a fraudemia na pandemia  enquanto Hayek é um velho antídoto para compreender tais intenções e suas raízes deletérias em populismo fiscal, expansão de gastos, degenerações pela base monetária inflando mercados, ocasionando no aumento dos preços dos papéis e beneficiando muito mais investidores do que aqueles que são supostamente mais visados pelas ditas “políticas antipndemia”. O que Hayek disse no Nobel de 1974 segue como uma vacina eficaz contra a doença pandêmica no mundo fantasioso dos que não medem esforços para alargar o caminho da servidão anunciando matrizes econômicas que certamente reproduzirão “uma distribuição do emprego que não pode ser indefinidamente mantida”, alertando que só pode ser preservada “por uma taxa de inflação que inevitavelmente levará à desorganização de toda a atividade econômica”.[6]. O que Hayek chama de “posição precária” hoje está  ainda mais fácil de ser percebida após os grandes ciclos de expansão, antes da pandemia, forçando a necessidade de um reaparecimento de um desemprego substancial como consequência da política que torna o problema inflacionário mais urgente. Como uma trágica ironia, a pandemia serviu para esconder tais efeitos nefastos.

Do banquete de 10 de dezembro de 1974 ao discurso do co-agraciado no dia seguinte, a maior lição a ser tirada das reflexões de Hayek, entendo, diz respeito à importância  de que os verdadeiros cientistas em economia reconheçam as limitações do que são capazes de fazer no campo das ciências humanas, não se deixando levar pelo apreço das multidões que costumam clamar por coisas impossíveis, onde só a política pode satisfazê-las, aqui lembrando Thomas Sowell.

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Notas:
  1. Prefácio da obra A Pretensão do Conhecimento, de F. A Hayek,
  2. “As redes sociais dão o direito de falar a legiões de idiotas que antes só falavam no bar depois de um copo de vinho, sem prejudicar a comunidade. Eles eram imediatamente silenciados, enquanto agora têm o mesmo direito de falar que um ganhador do Nobel. É a invasão de imbecis.”
  3. Ver os problemas de dispersão e o limitado papel do especialista em A Lógica do Cisne Negro e Antifrágil
  4. Um dos homens mais cultos e injustiçados economistas do século passado, por causa das críticas que fez aos delinquentes do mainsstream;
  5. Sachsida: Estamos corrigindo problemas de má alocação de recursos; não há mágica;
  6. No Ensaio 2 da obra da nota 1, página 25.

 

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