No filosófico livro de Jó, o personagem central, em profundo sofrimento pessoal, passa por um longo diálogo com três amigos onde se discutem os dilemas da existência e eis que surge o tema da sabedoria atrela à velhice (12.12). Bem mais adiante, Eliú, filho de Baraquel, mais jovem, vendo que os demais se recolheram ao silêncio diante das perturbadoras questões de Jó, decide então se manifestar e no exórdio afirma:

“Não é a idade avançada que dá sabedoria, nem a velhice o discernimento do que é justo.” (32.9)

Ouvindo um grupo de senhores acima de 70 ciclos solares em um debate, onde eu não passava de um intruso então nas minhas 40 primaveras, fiquei meditando naquela busca por soluções para problemas do Brasil. Ouvi (ultrapassadas) ideias mercantilistas em economia do século XVI serem apresentadas como se fossem novidades e percebi que todos ali não tinham noção do que estavam falando, muito menos da ineficácia de outras soluções que envolviam “tabelamento de preços” que me remetiam à União Soviética, a maior experiência socialista da história que faliu em 1991 justamente por planificar a economia, ignorando as leis de mercado. Senhores grisalhos que falavam em um estilo meio “sábio das montanhas”, também demonstravam desconhecer coisas básicas da política progressista adotadas no Brasil nos anos 1970 enquanto se diziam “conservadores”. Parece-me que não sabiam também o que é ser conservador…

Um tempo depois, outro grupo de senhores acima de sete décadas me deixou por mais de duas horas anotando referências bibliográficas e nomes de autores que eu nunca tinha ouvido falar, assim como ideias que envolviam filosofia, economia, teologia, sociologia que até então eram novidades para mim; tomei incontáveis lições de sabedoria.

Já vi pessoas com idade avançada tidas como “experientes” e “lúcidas”, atuando como líderes de empresas e igrejas, porém defendendo coisas que, se forem analisadas a fundo, se associam a valores em favor de racismo, fascismo, comunismo e nazismo, e tudo em um tom de virtude. Quando escuto pessoas que se dizem experientes dizendo coisas do tipo: “O Brasil precisa de um homem de pulso forte que coloque o Congresso e o STF na linha”, então, vejo que o tempo passa apenas cronologicamente para alguns veteranos enquanto a mentalidade permanece nos 15 anos… E quando decidem entrar ou militar na política, o estrago aumenta…

Ocorre que tenho mais amigos na idade que meu pai teria hoje que amigos na minha idade ou mais jovens. Isso me parece ser um sinal de minha forma de tentar compreender o mundo procurando ouvir quem viveu certas épocas sem se iludir que a sabedoria está garantida nisso.

Penso que a idade avançada não garante sabedoria e, em especial, um aspecto dessa condição: a maturidade, no entanto, a sabedoria e a maturidade fluem com o tempo dependendo de como cada pessoa aprecia o espírito e o conhecimento. Vi e vejo setentões e oitentões se comportando como adolescentes enquanto outros são verdadeiros líderes com notável maturidade. E como tenho predisposição para ouvir muitas pessoas 20, 30 anos à minha frente na idade cronológica, sempre dou atenção especial aos mais vividos, sempre levando em conta que maturidade pode não acontecer com o tempo. Penso que isso ocorre em face de que muitos envelhecem e permanecem fechados a uma interação com conhecimentos e espiritualidade e assim não mudam de modo que possa aprimorar a mentalidade; em muitos casos, uma mente se torna tão fechada que com o passar do tempo se torna mais suscetível a preconceitos, intolerâncias e convicções que não passam de crenças rasas sobre diversos aspectos da vida.

Em suma, com um pouco de um clichê com uma reflexão pessoal vos digo que a vida sendo um eterno aprendizado, a maturidade é um processo que depende muito da humildade, assim penso. Humildade para procurar ler o mundo, interagir com conhecimentos e a graça de Deus; tudo isso carece de uma mente aberta para se questionar, onde meditação, oração e autocrítica são fundamentais. Quando se envelhece assim, penso, certamente haverá um poço de sabedoria para iluminar os mais jovens. Como sei que há pessoas assim e que posso encontrá-las mais facilmente na terceira idade, sempre procuro dar muita atenção a voz que vem dessa fase da vida, sabendo que cada caso é um caso.

Concluo pedindo a Deus a graça que sempre permita que eu continue a enxergar o valor da velhice aos ombros dos gigantes e assim encontrar pessoas à frente de minha idade e amadurecidas, na medida em que eu possa aprender suas lições e repassar aos mais jovens. Quanto às que estejam mais carentes de maturidade, também preciso ouvi-las, pois creio que toda experiência assim  é também oportunidade para aprender com inadequações de quem se dispõe a testemunhar o que viveu, tendo consciência de que nunca é tarde para crescer em termos humanos.

Dicebat Bernardus Carnotensis nos essi quasi nanos gigantium humeris insidentes, ut possimus plura eis et remotiora videre, non utique propii visus acumine, aut eminentia corporis, sed quia in altum subvehimur et extollimur magnitudine gigantes. [1]

Stjepan Hauser (1986) está no violoncelo a cargo do fundo musical desta manhã de verão abaixo da linha do equador nas Índias Ocidentais.

Nota:
  1. Aos Ombros de Gigantes, de Umberto Eco, página 22: “Bernardo de Chartres dizia que somos como anões aos ombros de gigantes, de modo que podemos ver mais longe que eles, não em virtude de nossa estatura ou da acuidade da nossa visão, mas porque, estando aos seus ombros, estamos acima deles.”

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