As duas utilidades da política

O dito popular “cada povo tem o governo que merece” me faz às vezes pensar na política e nos políticos como instrumentos de cólera divina, afinal, parece ter muito sentido que não há castigo maior sobre um povo que celebra a estupidez e a idolatria por meio de um populista disseminando coletivismos (ou socialismos) de variantes mais sutis partindo da social-democracia, passando pelo neoliberalismo, até as drogas mais pesadas do fascismo, do nazismo e do comunismo, todas por “políticas públicas”.

Mediante o exposto, parece-me razoável que um lulista poderia facilmente dizer que Deus mandou Bolsonaro ao mundo para castigar a terra brasilis, enquanto um bolsonarista diria o mesmo de Lula… No entanto, considero esse caminho por demais complexo e perigoso, podendo me colocar dentro de um labirinto sem o fio de Ariadne. E como tenho o desafio de ver utilidades na política, vou por um ponto de vista mais próximo, digo terreno, empírico, que se baseia na observação daqueles que são a razão de ser da política, as pessoas que querem consertar o mundo obrigando os outros a obedecerem suas ordens, partindo do que dizem e comparando com o que fazem. Foi assim que consegui enxergar a política tendo duas utilidades. A primeira se revelou muito eficiente para revelar, em um mortal, o grau de inteligência e a segunda, a índole.

Começando pela inteligência (ou a carência de), vendo esta deusa tão arrogada nos juízos dos que discutem soluções para melhorar a humanidade enquanto confiantes em diplomas, currículos, registros ou carteiras (e “carteiradas” de conselhos ou de ordens que lhes garantem reserva de mercado), pelo prestígio econômico; quando ser rico é sinal de inteligência, e ser pobre… Assim como a sabedoria seria proporcional à quantidade de seguidores em redes sociais, o que pode fazer de um artista ou influencer com milhões de seguidores ter o grau de guru em todas as ciências , e eis que após meditar percebi que nada disso consegue superar a utilidade da política para identificar o nível de inteligência de um mortal e posso provar!  Ora, ora, vejamos, quando surgem lulistas, bolsonaristas, psolistas, entre tantos para um “debate”; é justamente neste momento épico que tudo fica claro. Diferentes nos rótulos e não tão diferentes assim na essência, é a política que facilita o meu trabalho e os vejo defendendo coisas que os tornam bem mais próximos do que conseguem imaginar. Nada ajuda mais a identificar a inteligência do que a capacidade de saber diferenciar bem as coisas… Então, lulistas e bolsonaristas, assim como os adeptos do Cirão da Massa, acabam se entregando nesses “amistosos” encontros como irmãos briguentos, separados na infância, todos filhos de Getúlio Vargas e que um dia vão se descobrir como tais; todos crentes em um homem forte no poder para resolver seus problemas mais complexos… E torno a pensar o que seria de mim sem a política para revelar tamanha “inteligência”. Todos querem a mesma coisa: planejamento central do governo para “educação, saúde e segurança”. Todos possuem a mesma “inteligência” que quer sovietizar o país na defesa de controles de preços, preservação de e/ou novas estatais, subsídios e manipulações nos mercados, assim como o velho hábito do compadrio no favorecimento de certos grupos de interesse em nome de algum apelo piegas com teor de “interesse nacional”.

Graças à política tem sido possível reconhecer todas essas “inteligências” fluindo na sociedade… E quando saem das alçadas sociais e econômicas e chegam até as questões pessoais, mais íntimas, então se aprofundam nessa “sabedoria” destruindo amizades de décadas, naquela de dar tudo por amor a Lula ou Bolsonaro, assim como irmão não reconhece mais irmão, pai se volta contra filho e até casais se separam… Parece que quanto mais um sujeito se envolve com política, mais revela sua “inteligência”.

Chega de tanta “inteligência”, agora vou para o outro lado da moeda, onde a política serve como ferramenta muito precisa para identificar a índole (ou a canalhice). Há, basicamente, dois tipos de militantes e, por isso, antes é preciso separar o joio do trigo. O primeiro tipo é o que Nietzsche, Gramsci e Lênin chamariam de “instrumentos”. São sujeitos que apoiam políticos porque acreditam na  boa fé das promessas e têm esperança de melhorar o mundo através dos ideais políticos. Em tese não estão mal intencionados e por isso os classifico com a clássica terminologia de “idiotas úteis”, indivíduos ingênuos cujos desejos são canalizados para gerar uma forte energia coletiva a serviço de algum projeto de poder. É uma condição peculiar em pessoas que exigem que o governo “faça alguma coisa”. Mais comum é vê-las esperando pelo “retorno dos impostos”, sem perceberem que estão retroalimentando um velho dragão cujo estímulo para existir se baseia em coerção (a natureza dos impostos) e monopólio (a natureza do Estado para regular exclusivamente e/ou ofertar bens/serviços) e isso não poderia dar em outra coisa senão no governo funcionando como um grande centro de atração para todo tipo de gente que vive no esgoto moral da humanidade, na proporção dos desejos coletivos em torno desse aparato. Mesmo assim o “idiota útil” segue pela fé na política porque foi preparado para pensar assim, embora tenha crises de vez em quando, sempre cai nas armadilhas dos tempos eleitorais, e age assim pela educação que recebeu via sistema regulado pelo Estado (entenda-se por políticos em conflito de interesses). Desta forma,  o “idiota útil”, seja de direita, centro ou esquerda, permanece andando em círculos para somente acreditar em ideias e ignorar totalmente a análise dos resultados que produzem mediante as políticas adotadas, até porque os próprios resultados também podem ser manipulados pelos mesmos políticos que produzem as políticas. O “idiota útil” é facilmente envolvido por promessas de mais bolsas disso ou daquilo,  mais benefícios sociais, mais empresas estatais, em ideias que há séculos são disseminadas  e empobrecem economias. Ele é sempre seduzido pela concepção de eficiência de medidas de “mais impostos sobre os ricos”, como se os custos não fossem repassados no sistema econômico de produção, encarecendo a vida de consumidores que na maioria são os mesmos pobres que, justamente, são tidos como “beneficiados” pela suposta maior taxação progressiva, além de efeitos em fuga de capitais e desinvestimentos cujos recursos acabam indo a outras economias menos onerosas tributariamente. O “idiota útil” também se rende facilmente a mais ideias de controles sociais que ridicularizam cada vez mais a sua privacidade. Tudo isso flui na política e no poder porque  eleitores estão suficientemente treinados (ou adestrados) para apenas olharem as intenções, sem qualquer interesse para julgar resultados pelos fatos. É como se a boca de um político funcionasse como uma varinha de condão, resolvendo todos os problemas por um simples toque mágico ou, no caso, um discurso. O “idiota útil” também não percebe que não passa de barro nas mãos do oleiro político pelo paradoxo que o envolve como incapaz de cuidar de si mesmo, mas que é tratado como capaz de escolher quem o faça em seu lugar, aqui apresentado por Claude Frédéric Bastiat (1801-1850):

“Pois se a pretensão de apropriar-se do poder e dos impostos, além de opressora e espoliadora, origina ainda este hipótese perniciosa: a infalibilidade dos organizadores e a incompetência da humanidade. Mas se a humanidade não tem competência para julgar por si mesma, por que então falamos de sufrágio universal? [1]

Já o segundo tipo de militante é o “profissional”, onde pode demonstrar certa inteligência (sem entrar aqui no mérito moral da coisa) proporcionalmente superior a idiotice do primeiro tipo. Ele pode ser ser visto comandando grupos, articulando  movimentos, espalhando fake news, criando dossiês, enquanto recebe benefícios por tais serviços ao aparato. Pode ser um professor/pesquisador universitário que promove pesquisas em favor de algum projeto de poder enquanto é beneficiado nos bastidores de instituições controladas pelo governo. Ele pode estar na lista de cargos em comissão do governo do político ou grupo que ele apoiou durante as eleições. Pode ter acesso a informações privilegiadas de processos dentro do governo que lhes favoreça em licitações e ofertas de serviços. Pode ter acesso facilitado a cabides de empregos em estatais e/ou repartições onde vai empregar a si  mesmo, familiares e membros de sua alta confiança entre os que comanda ou influencia. Pode ser um lobista fazendo campanha em favor de algum político que venha a produzir legislação que beneficie seus negócios ou alguma entidade, ONG, que faz parte enquanto prejudica outras. Há também os que operam no “varejo” dos mais reduzidos, negociando “pequenas coisas” com o próprio voto ou um grupo de votos pelo que entenda ter o valor compatível  mediante suas necessidades mais urgentes; cimento, tijolos, dentaduras, serviços de ambulância e funerários, entre outras coisas. Pode “trabalhar” em algum gabinete de um parlamentar que apoiou e/ou é uma linha auxiliar de um projeto maior de poder. Ele vive de um fisiologismo com preços diversos que vai desde o mais simplório ao altamente sofisticado. Os mais caros fazem de tudo para esconder essa condição, podendo adotar a prática de manter negócios de fachada, enquanto os mais em conta costumam até encarar uma briga de rua se for necessário, tudo para defender seu político de estimação. O profissional mais elaborado pode até discordar, no seu íntimo, sem jamais revelar a outrem, de muitas ideias do grupo ou político que defende, isto posto em vista de que não é coisa pessoal; é tão-somente um “negócio”.

Então, quando vejo um “apaixonado” por um político ou projeto de poder, para não ser injusto, procuro ver suas relações com o que defende para fazer essa impreterível distinção entre “idiota útil” e “profissional” como indicadores de inteligência e índole, conforme o caso. Desta forma aqui encerro dando minha mão à palmatória aos amigos que me cobraram alguma reflexão em favor de utilidades da política, sem perder de vista a natureza do aparato estatal que o sábio Ludwig von Mises tão bem definiu como de “compulsão e coerção”.

 

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Nota
  1. Ver a obra “A Lei” em “Os socialistas rejeitam a livre escolha”.

 

 

 

 

 

 

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