O medo do ano mil estaria mais para uma distopia? O professor Alessandro Barbero aborda o tema [1] partindo do que pode ser visto como uma concepção imprópria, feita  na modernidade, por estereótipos e lendas sobre as expectativas que se tinha no ano 999 em relação à virada do milênio onde (supostamente) predominavam crendices e temores fatalistas. Neste ponto, Barbero menciona Giosuè Carducci (1835-1908), poeta italiano, dentro um contexto de história da literatura italiana (como língua vulgar adotada por eruditos) em torno do ano mil,  não necessariamente pela consideração de fatos históricos. O mesmo não se aplica a leituras de historiadores e pensadores dos século XVIII e XIX, submetidos em um ambiente mais anticlerical e com uma patrulha ideológica mais intensa após a efetivação de um tempo de revoluções e fim de monarquias, cuja tendência se deu em retratar crises, conflitos, epidemias e crendices populares na “idade média” dominando o imaginário, visando destacar negativamente mais a Igreja, absolutista, oportunista, onde a ingenuidade de quem entregava bens pela fé se aproximava com ideias sensacionalistas em torno da escatologia.

Como verificar a veracidade de tais leituras? Fake news são obras precedentes à internet, senão vejamos: o professor contraria narrativas frequentes sobre um terror generalizado com a virada do milênio, e isso faz através de documentos da época, como uma carta do papa Silvestre II (946-1003) de 31 de dezembro de 999, ao abate (abade) de Fulda, um importante monastério na Germânia, onde o pontífice confirma as solicitações de reconhecimento de privilégios da abadia, assim como aos seus sucessores, mencionando compromissos de pagamento dos monges a Santa Sé em Roma, não havendo qualquer menção sobre possíveis problemas com a virada do milênio. Pelo menos entre o papa e o abade, a história de “fim de mundo” na virada do milênio não tinha a menor importância.

Em um contrato de 999, dois irmãos firmam por escrito o aluguel de bens (terras) do abade de Tortona, pelo prazo de 29 anos, período longo para o nosso tempo, porém o documento registra um modelo de contrato  que foi uma inovação para a época, visto que muitos aluguéis eram perpétuos e como alguns proprietários perceberam que a economia estava se recuperando depois de um longo período de estagnação com as invasões bárbaras no alto período medieval, e assim os preços dos bens tendiam a subir, então começavam a trabalhar com contratos formados com prazos “menores”, adotando cláusula de penalidade para eventual quebra ou antecipação, o que evidenciava indiferença com questões escatológicas sobre a virada do milênio que se aproximava.

Outro documento, datado de 3 de outubro de 999, menciona o fim do mundo, não no sentido de uma expetativa imediata em relação à virada do milênio, mas em uma conotação típica de retórica com o uso da fé popular: trata-se de um diploma assinado por Antonio Terzo ao monastério de Farfa, no centro da penísula apenínica (itálica), cuja instituição estava sob sua tutela, fazendo indicação à abadia, lembrando que, se porventura algum papa ou sucessor desfazer a decisão empenhada no ato, “saiba que deverá responder no retorno de Cristo quando julgará o mundo no fogo”.

Em um mundo complexo demais, antes da escolástica, antes de Marco Polo ir à China (com calendários confusos), na vigília do ano mil não tinha, absolutamente, nenhum cronista indicando naquele ano e mês que ocorriam algumas expectativas ou predições e o povo tinha se deixado levar pelo terror (20:47). Tirando abordagens de alguns anos ou décadas passadas, baseadas em sermões com base no Apocalipse e/ou Evangelhos, ainda sob a permanente problemática teológica do significado dos “mil anos” e das advertências das tradições bíblicas contra os que marcavam datas para o “juízo final”, é possível identificar casos onde ideias escatológicas se espalhavam, mencionados pelo professor. O charlatanismo para fins extorsivos eram corriqueiros, como o da profetisa Fiofa no ano 847 (bem distante de 999 então) em Magonza, que vivia se transferindo de diocese, contando com a cumplicidade de um padre, para profetizar sobre o “fim” na medida em que cessavam os fundos dos que lhes davam crédito. A profetiza marcou o fim do mundo para aquele mesmo ano, em um apelo que fazia as pessoas entregarem rapidamente bens na crença de que poderiam assim obter a salvação da alma. Em 998 também se registram ideias de fim do mundo contando mil anos após o nascimento de Cristo; menciona-se um caso de um adolescente que chegou a Paris para estudar e chegou a tal conclusão, após ouvir sermões na Notre-Dame, que ganhou notoriedade em monastérios e dioceses em meio a clérigos carentes de conhecimentos em latim e até mesmo sobre credos da Igreja.

E eis que após o “medo do ano mil”, no século XI floresce a ideia de uma “idade média” que estaria marcada pelas “trevas”  [2] enquanto, citando o crítico literário Savero Bettinelli (1718-1808), se desenvolve uma concepção de uma “nova era” (na Itália) que teria se aberto nas artes e na literatura em meio aos bloqueios que os temores do século anterior teriam provocado, o que explicaria a pouca produção conhecida até o ano mil, partindo do final da antiguidade considerando a queda do Império Romano do Ocidente no final do século V. O professor sugere que a imagem negativa da idade média está sempre por exigência de “polêmica contemporânea” (49:29), no entanto, lembra que a ideia de um período de escuridão nasce no próprio ambiente medieval entre humanistas que produzem com base em Cícero (106 – 43 a.C.) o tendo como um modelo insuperável de intelectualidade e o que estava disposto adiante passou a ser visto como de qualidade inferior, cercado por ignorância e, neste ponto, até Dante Alighieri (1265-1321) era visto com certo desprezo.

Na arquitetura essa visão como a antiguidade sendo superior também teria encontrado muito espaço, onde as construções baseadas em ideias desenvolvidas nos últimos séculos eram também tidas como inferiores em sofisticação e beleza ou coisas de “bárbaros” (51:13), pela “arquitetura gótica”.  Então, as ideias de cúpulas como a do Panteão de Roma retornam com força na concepção de obras como a de Santa Maria del Fiore (Firenze, Florença), no final o século XIII. A ideia de construção de arcos nas cidades, replicando os estilos da antiguidade, também se explicaria por isso. Em seguida, vem a Reforma Protestante (1517) como reforço de uma ideia de recomeço diante de uma Igreja Católica Romana agora contestada, sob forte viés absolutista, associado à opressão da Inquisição e à ignorância.

Tomando aqui como uma reflexão estritamente pessoal, no mais entendo que prevalecem indícios de que o “medo do ano mil” foi enraizado por narrativas para exacerbar um ponto de vista panfletário. De fato a Igreja fazia parte de um ambiente de mentalidade ignara, fatalista ou escatológica, repleto de superstições e fortemente reacionária, mas não se deve sintetizar e resumir tudo a isso, assim como ignorar que o progressismo na política ganhava força em paralelo, enquanto narrativas que o favoreciam politicamente cresciam desde o iluminismo. Havia (e permanece nos dias atuais) um conjunto de conceitos anticlericais (e também anticristãos) estigmatizando a idade média, dificultando uma melhor compreensão desse longo período. A ideia de que o “medioevo” estava desprovido da luz da razão também me parece por demais superficial, servindo tão-somente a mais disseminação ideológica progressista. Um caso do tipo pode ser avaliado no entendimento convencional de que graças aos árabes (e por tabela ao Islã) que Platão, Aristóteles e o que se tem como “filosofia grega” teriam sido apresentados na Europa até então, sendo algo refutado por Sylvain Gouguenheim [3] que merece entrar neste debate.

Tornando ao suposto “terror” sobre a virada do primeiro milênio na era cristã, considerando o exposto na lição de Barbero, é notável o esforço do professor em destacar narrativas, sempre travestidas de “ciência”, com a história, embora sempre mais contada pelos vencedores. “Nosso trabalho é esse, de dizer a verdade” (1:00:42) diz o professor fazendo referência a um ensinamento do grande historiador Marc Bloch (1886-1944). Destarte, Barbero faz a boa obra de incomodar quem faz da história uma bandeira para ideologia ou “doutrinação”. O “medioevo” foi um mundo marcado, sem dúvida, pela forte religiosidade, pelo absolutismo cada vez mais intenso na política, sendo oportunista com conveniências extraídas da teologia católica dominante, assim pontuando também o fanatismo que o fideísmo gerava,  porém quando tais coisas são usadas para ignorar outras relevâncias no período,  fica comprometido um entendimento mais depurado sobre a história e o que se verdadeiramente se tinha acerca de fatos em relação ao fim do primeiro milênio pós Cristo, restando factoides de superstições sobre “fim de mundo”, quando o que se consiste em registros é que esse suposto temor coletivo passou distante das ações dos que se dedicavam ao mundo dos negócios. Termino com uma síntese do professor sobre a sociedade medieval; todos acreditavam que o mundo achegaria ao fim, cedo ou tarde, mas também acreditavam que não era possível sabê-lo. E o sol se levantou no dia 1 de janeiro do ano 1000  com a vida seguindo normalmente em afazeres cotidianos.

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Notas
  1. Storia in Piazza 2019 – Alessandro Barbero – La paura dell’anno Mille;
  2. Ver também “Aos Ombros de Gigantes” de Umberto Eco (1932-2016) no capítulo “A Beleza” sobre a importância da luz nas artes medievais;
  3. Ver a obra “Aristote au mont Saint-Michel”, do historiador e medievalista francês. Não seriam os árabes responsáveis por traduções da filosofia grega, de Aristóteles, Platão e muitos autores, pois já estavam traduzidos em muitos monastérios, sem os árabes. Então, nesse entendimento, a cultura europeia nada deve aos árabes e ao islamismo. Também se considera, nesta obra, que a língua árabe não é dada a discursos filosóficos. Ver também a obra “Les fausses terreurs de l’an mil.. Attente de la fin des temps ou approfondissement de la foi?”, do mesmo autor, mencionada por Barbero.

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