O século XIV foi marcado por Dante (1265-1321), Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375), registrando grandes avanços na literatura, contudo, acabou sob um rótulo marcado por grandes tragédias que nos servem de lições em tempos onde o medo do futuro se tornou uma constante com a pandemia que enfrentamos.

Na visão do professor Alessandro Barbero [1], a crise do século XIV marcou o fim de um longo período de crescimento econômico nos séculos anteriores (aqui penso a partir do século XI), onde se intensificou um aumento populacional e, considerando uma economia muito baseada na força manual, uma consequente maior oferta de mão de obra, assim como de maiores provimentos de produção agrícola . Houve uma crescente circulação de riqueza, com mais meios de pagamentos, mais moedas e não se falava de desocupação em um tempo em que dados econômicos eram concebidos por uma “vaga ideia”, pois não havia registro de dados estatísticos, como os conhecemos hoje; lembrou o professor que no século XIV “não se media PIB e não havia a ideia de um gráfico em que se media o crescimento” (9:00).

Mudanças climáticas, colheitas ruins, maior escassez, choques de oferta, carestia e fome

Uma economia pré-industrial, em tempos de feudos, até então aquecida, começa a ter problemas com a produtividade; colheitas ruins gerando escassez de insumos e, por tabela, preços disparando de artigos de primeira necessidade. Cronistas começavam a destacar a carestia dos grãos enquanto não havia teoria econômica para explicar os fatos, destaca o professor, e penso no que ficou evidenciado como um fenômeno natural de mercado, de oferta versus demanda sob aumento de escassez, provocando persistente aumento de preços com um (natural) crescimento populacional. Pelas ilustrações do professor, usando preços em “euro”, pude considerar um forte choque, no mínimo, triplicando preços enquanto  “salários” ou as rendas permaneciam inalteradas. O empobrecimento rápido e a fome seriam os efeitos seguintes em um cenário assim. O professor mencionou crianças crescendo com raquitismo e destaca o período de 1315 a 1317 com sucessivas colheitas “malíssimas”  quando se começava a “morrer de fome pela estrada” (14:37).

Qual foi a causa das colheitas abaixo do esperado? Mudanças climáticas: “O clima também mudava no passado bem antes que o homem começasse a colocar dióxido de carbono”. (15:26).  Inundações, chuvas demais na primavera e no verão, frio mais intenso, tudo ocasionando em colheitas fracas, provocando maior escassez enquanto a populações cresciam enfrentando subnutrição. Preços teriam se multiplicado em até 20 vezes em alguns momentos (23:39), considerando o dito pelo professor. Um agravante que ajuda a explicar a grande recessão, considerando o dito na lição, resulta na carência de inovação diante dos problemas climáticos nos campos agrícolas ou no que posso definir como falta de tecnologia adequada para fazer mais com menos, algo que só ficou mais visível a partir da revolução industrial, um pouco mais de 400 anos adiante.

Ondas de epidemia de “peste”

Em 1347 surge uma doença contagiosíssima, com alta mortalidade, desconhecida, trazida da Ásia por um navio que chega em Messina (região da Sicília), via Mar Negro, em um “mundo globalizado” (25:07, e aqui comento um clássico exemplo de que o fenômeno da integração comercial é tão antigo quanto a vontade de seres humanos em evoluir interagindo em negócios com outras culturas). Marco Polo já tinha ido à China e a Europa estava intensa de companhias e mercadores que cruzavam mares em busca de especiarias.

A enfermidade foi chamada de “peste”, segundo o professor, por conta dos antigos dicionários que falavam da “peste de Atenas”, da “peste em Roma” (no tempo do Imperador Marco Aurélio), da “peste em Constantinopla” no tempo de Justiniano; se era a mesma doença, não se sabia. Causava febre alta de 40, 41 graus e uma “super pulmonite” (pneumonia) em uma época sem antibióticos. Em 1348  atinge toda a Itália e a Europa meridional [2]. Onze anos depois chega a Inglaterra e à Escandinávia. Cerca de 1/3 da população europeia morreu desta doença (27:48), uma tragédia que atinge uma sociedade com uma “vitalidade incrível” (27:44) e que por isso conseguiu se refazer para continuar imediatamente. Em 1361 a “peste” retorna em toda a Europa em um impacto grande, porém menor que a primeira onda e com a característica de vitimar mais crianças, o que pode ser explicado por falta de anticorpos naturais que teriam se desenvolvido nos adultos durante a primeira onda. Mais uma onda se registra em 1381 e outra em 1399, desta vez “violentíssima” (30:09). O “baby boom” fenômeno ocorrido no pós Segunda Guerra Mundial (exemplo dado pelo professor) também ocorreu após a mortandade provocada pela “peste” do século XIV, o que acabou sendo um fator de demanda considerável em uma sociedade sob mudanças climáticas afetando as colheitas.

Guerra dos Cem Anos

Em meio à fome, às ondas de epidemias de peste, a população na Europa teria caído pela metade no início do século seguinte. A geração que dá inicio ao chamado “renascimento” veio logo depois desta sequência de décadas marcadas por tragédias.  No entanto, outros problemas agravaram um quadro já delicado: as guerras tradicionais do medioevo, que funcionavam como meios familiares de se resolver impasses ou discordâncias sobre temas diversos ligados aos negócios, tais como taxas entre mercadores que usavam estradas entre disputas por pagamento de pedágios, assim como o uso indevido do território alheio. Eram litígios provincianos entre cidades ou “reinos” (que eram, comumente, de pequenos governos locais na comparação com os grandes arranjos de estados nacionais republicanos que surgiram bem mais adiante). Os conflitos se davam de forma pontual, usando tropas reduzidas, formadas por mercenários que eram especialistas com cavalos caros e armaduras valiosas, sem envolver pessoas comuns e duravam alguns dias. No entanto, um confronto de maior proporção eclode em 1337: a Guerra dos Cem Anos (38:02)  entre França e Inglaterra. A riqueza acumulada nos séculos anteriores fomentou uma ideia de poder econômico  possibilitando maiores projetos de domínio territorial. A grande ambição se sobrepõe à mentalidade de disputas locais, revivendo antigos sentimentos do Império Romano, provocando um conflito onde o rei da Inglaterra pretendeu tomar o reino da França (38:37).

O mercado de crédito cresceu neste período com reis precisando pagar mais mercenários, no entanto,  um conflito com uma dimensão maior afundou ainda mais determinados negócios que fluíam na dinâmica medieval,  prejudicando feiras, colheitas, e se multiplicavam casos de sequestros onde familiares eram obrigados a pagar resgate (43:20), em meio a tréguas e outras interrupções por dificuldades de pagamento; o rei contratante quando não tinha mais como manter os custos dos mercenários (40:43), simplesmente os informava do fato, ao mesmo tempo em que entendia que a guerra não tinha acabado. Para manter o “negócio” das guerras por espoliação, mercenários continuavam os conflitos por conta própria, para cobrir seus custos, invadiam cidades, destruíam colheitas, pilhavam e pegavam o que podiam  de valor e portabilidade. Quando o rei conseguia crédito e voltava a estar em condições de retornar ao conflito, os reconduziam e assim se passaram cem anos.

Igreja com dois papas

Pode piorar mais? Uma sociedade católica romana com a Igreja vista como sendo uma enorme máquina administrativa que de Roma governa com um cobiçado sistema de arrecadação, Felipe, o Belo, Rei da França, precisando de recursos financeiros, percebeu a fonte de riqueza por taxações que a Igreja mantinha e decidiu questionar o comando central do papado (Bonifácio VIII) em um encontro onde expressou a intenção de ter o controle do recolhimento das taxas e o comando do clero na França. e não mais pelo papa em Roma. Em 1309, com a morte de Bonifácio VIII, o papa recentemente eleito (Clemente V, francês escolhido por um colégio predominantemente francês), decidiu se transferir para Avignon em 1309, na França, entendendo ser prioridade selar a paz com o rei, alegando que estar mais próximo facilitaria as negociações. O que era algo temporário se alongou por setenta anos com o papado radicado em Avignon [3]. Na volta à Roma em 1377 [4], seguindo o protocolo após a morte do papa, um novo pontífice foi eleito (Urbano VI) e logo entrou em litígio com os mesmos cardeais que o tinham escolhido. Com a crise, cardeais se reuniram novamente para eleger outro papa (49:42, Clemente VII) que decidiu retornar para Avignon, enquanto o anterior, destituído, confrontou a decisão, e continuou agindo como papa em Roma e eis que a Igreja passou a ter dois papas onde um excomungou o outro. Católicos ficaram sem saber a quem seguir. Na França, evidentemente, o rei reconheceu como papa legítimo o que voltou a Avignon enquanto católicos no resto da Europa assistiam a tudo estupefatos [5]

Lições medievais à era covid-19

Mudanças climáticas, colheitas ruins, escassez nos mercados, fome assolando populações, subnutrição constante, ondas de epidemias, uma profunda crise politica e moral na Igreja, que era a grande referência de fé na época, conflitos generalizados em revoltas populares, muitas envolvendo agricultores; o professor menciona em Firenze (Florença), assim como operários que estavam em uma rudimentar manufatura de produtos em lã que pleiteavam maiores salários. A queda no número de habitantes com as ondas de “peste” ocasionaram em uma menor oferta de mão de obra; proprietários de terras e produtores se viram  com trabalhadores empobrecidos e, concomitantemente, barganhando aumento de salários em uma economia sem máquinas. como as conhecemos hoje, sem eletricidade, onde a mão de obra tinha um peso enorme no processo produtivo. Foi um tempo em que a força de trabalho requisitada não podia ser substituída como ocorre em uma economia industrializada, automatizada, nos padrões que foram evoluindo desde a primeira revolução industrial.

A grande lição que vejo no trágico século XIV está no espírito humano sempre buscando se superar pela dinâmica da economia, demandando processos mais eficientes de produção, visando atender a uma nova realidade ou um “novo normal” (usando uma terminologia contemporânea). O mesmo século das tragédias foi onde se iniciaram melhores aproveitamentos em processos agrários tais como aproveitamentos de derivados do leite, com produtores observando o gado estando mais escasso com os campos limitados por causa da maior necessidade de retomar a produção de grãos, o que resultou em fazendas que conseguiam oferecer produtos menos rudimentares para exportação, como foi o caso do desenvolvimento do queijo parmeggiano (1:05:27 a 1:05:45), vendo a se tornar um produto requisitado por compradores mais abastados no século seguinte. As crises também forçaram uma criatividade para atender mercados consumidores devastados com a pobreza, como se deu o processo de se repensar a produção de panos de lã em Firenze (1:08:18) desde os “scadenti” (para pobres), assim como a adoção de panos em algodão importado do Egito, de Chipre, de “fustagno”, bem mais econômico que os de lã, produtos inovadores mais direcionados às camadas mais pobres na compreensão sobre “um mercado que estava se abrindo” (1:07:37). E assim surgiram centros de produção de tecidos em Piemonte para abastecer um mercado que tinha novos parâmetros de consumo. Os mecanismos econômicos se abriram em “novas oportunidades” (1:09:35) em meio a efeitos negativos gerados por guerras e alguns favoráveis fatores no fluxo de pagamentos que geravam mais acesso a consumo por soldados comuns de estados maiores e não mais apenas a mercenários que pertenciam a classes mais abastadas.

As respostas que a humanidade deu para as crises do século XIV demonstram a força do espírito humano diante de uma devastação pandêmica em meio a dilemas morais, contradições e ações humanas como fenômeno da natureza da nossa espécie que, cedo ou tarde, encontra adaptações. Há cerca de 600 anos nossos antepassados enfrentaram um longo período de dramas cujos impactos foram bem maiores que os nossos dias de pandemia; perderam 1/3 da população e conseguiram seguir adiante em um mundo sem vacinas, sem antibióticos, com medicina rudimentar, sem facilidades de acesso à informação possibilitada pela internet, sem produtividade em escala que só 400 anos depois seria possível pela revolução industrial. Nós somos a maior prova do sucesso daquela geração medieval vitoriosa. O que um típico medieval diria de nossos temores hoje? Herdamos deles a fé e a continuidade da civilização e temos o dever moral de seguirmos adiante se temos mesmo apreço pelo que chamamos de “vida”.

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Notas:
  1. Alessandro Barbero al grattacielo: “Fra recessione e innovazione: la crisi del Trecento”
  2. Decameron, novelas de Boccaccio (26:49)
  3. Com exceção do período entre 1367 e 1370, o papado permaneceu em Avignon.
  4. O papa era Gregório XI
  5. Os concílios reformadores finalizaram a crise no século seguinte. Ver a obra “O Cristianismo Através dos Séculos”, de Earle E. Cairns.

 

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