Por Pastor Abdoral Alighiero

Eis que o silêncio de meu recluso monte foi quebrado por mais uma visita indesejada que ainda não entendeu que poucas coisas me causam mais desprezo que um elogio feito como preparação para em seguida me solicitar algo que não me apraz. O inconveniente desta vez chegou com a pergunta mais ingênua dos últimos tempos: Mestre, a vacinação contra a covid-19 deve ser obrigatória?

Filhinho, escutai este exórdio que começa com uma indagação feita por um professor que muito admiro [1]: Onde já se viu algum dono de curral perguntar ao gado se ele quer ser vacinado? Não faz sentido discutir essa questão quando se tem a mentalidade que as pessoas são “incapazes” de decidirem com responsabilidade por si mesmas, enquanto são “capazes” de escolherem os que decidirão tais coisas por elas… Pense… A massa tem que ser vacinada porque não é “capaz” de saber o que é melhor para si, mas é “sábia” para escolher governantes… Entendeu esta contradição de quem está no poder de legislar e julgar como “tutor” das pessoas ditas “incapazes” tudo em nome da democracia?

Acreditar que a pergunta sobre se a vacinação deve ser obrigatória ou não é algo sério não passa de ingenuidade quando se está sob um ambiente onde a liberdade é prejudicada com o que Frédéric Bastiat [2] viu como efeitos negativos em relação à coerção que o aparato estatal exerce sobre os assim chamados “cidadãos”, visto que o referido aparato dispõe de monopólio territorial para regular espaços ditos “públicos”, envolvendo também a capacidade de criar legislação para normatizar negócios e serviços considerados “essenciais”, assim como os mercados. O mesmo aparato tem o monopólio para policiar e julgar os “cidadãos” em caso de desobediência dita “civil” e inevitavelmente irá por um caminho de coerção para “resolver” tal questão que você suscitou, seja obrigando diretamente (norma positiva), seja dando a “opção”  para se vacinarem ou não ao mesmo tempo que os cercarão de restrições diversas que, na prática, os obrigarão à vacina, a menos que um indivíduo decida viver como este velho eremita que vos fala.

Então não tem discussão, a vacinação acabará sendo obrigatória por bem ou por mal, concluiu o jovem com olhar frustrado que foi externado ao indagar: Mas qual o sentido de não querer tomar uma vacina? Depende da vacina. Pense um pouco nestas questões:

Quais os riscos cientificamente indicados, considerando que são vacinas desenvolvidas em tempo recorde?

As companhias que desenvolveram as vacinas estão dispostas a assumirem os eventuais danos aos consumidores?

Quais os períodos estimados de imunidade das vacinas oferecidas?

Observe que tais perguntas não são muito debatidas na sociedade, principalmente a terceira. Não estou dizendo que não se deve tomar vacina no caso. Toda relação de consumi implica em supostos benefícios e riscos e essas variáveis precisam ser esclarecidas na maior precisão possível. Estou apenas levantando problemas que dizem respeito a questões fundamentais de saúde que carecem de ser esclarecidas, afinal, os consumidores não têm o direito de saber os riscos que correm e o que realmente estão tomando? Precisam ser esclarecidos mesmos que respostas técnicas tenham teores mais inconclusivos. Toda decisão baseada em uma relação séria, consciente, honesta, depende disso. Em um mundo onde a liberdade é sagrada, infelizmente o nosso profanou este bem, ninguém deveria ser obrigado a consumir algo, ainda mais quando não sabe exatamente do que se trata e envolve saúde, face aos riscos envolvidos e aos benefícios prometidos. Repare que apenas os benefícios têm recebido ênfase, enquanto que os riscos ou dúvidas não estão no centro do debate. Todo exercício de liberdade implica na contrapartida da responsabilidade e do conhecimento da causa, mas essa lógica deixa de ser levada a sério quando se tem um aparato coercitivo que arroga tutela impondo decisões que tratam as pessoas como “incapazes”. É óbvio que um consumidor muitas vezes precisa tomar decisões baseadas em pareceres técnicos e são justamente estes “pareceres” que estão sendo trabalhados de forma um tanto obscura sobre aqueles que pagarão as contas, seja a dos riscos sobre suas próprias vidas, seja a questão econômica com os custos das vacinas, não importa se vem do governo ou é por iniciativa privada.

Acontece que que as sociedades estão sendo moldadas há muito tempo para lidarem com a liberdade como se fosse algo de menor importância, em troca do progressismo que vem da política. Muitos defendem restrições que invadem a privacidade, tomam o lugar de decisão que seria cabíveis às famílias, aos indivíduos, e ainda aplaudem, comemorando o definhamento da liberdade. Querem que governantes e forças coercitivas do Estado proíbam as pessoas de se reunirem em casa, de irem para onde bem entenderem; desejam ser escravas do aparato governamental e não consideram que o aparato de coerção é insaciável  uma vez que avança restringindo liberdades, está sempre disposto a dar mais um passo , de maneira que as pessoas acabam não percebendo o quanto foram envolvidas em um processo que visa tão-somente o poder acumulando. Estão caminhando, refiro-me aos ingênuos, sem perceber, para o que Hayek [3] chamou de “caminho de servidão”, sendo adaptadas gradualmente para viverem em uma ditadura. Talvez, infelizmente, só mesmo passando pelas experiências que os europeus do leste vivenciaram por décadas, sendo divididos pelo Muro de Berlim, por regimes sanguinários que faziam irmãos denunciarem irmãos, separando famílias, assim como os que experimentaram o regime soviético e os que hoje vivem na Venezuela, em Cuba ou na Coreia do Norte, para entenderem a importância da liberdade e da responsabilidade que a conduz. No entanto, quando defendem que o governo deve violar a liberdade dos outros não enxergam que na verdade não param de clamar por um Stalin, um Fidel, um Hitler, um Mussolini em suas vidas. Querem ser tratadas como gado no curral e parece que só aprenderão a desumanização que apregoam quando isso estiver consolidado.

Depois da vida, a liberdade é a dádiva mais preciosa do universo. Ela é inegociável e para preserva-la é preciso ter fé na criação divina e enfrentar com coragem a responsabilidade que seu exercício exige.

 

 

 

 

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Notas:
  1. Adriano Gianturco; de ciências políticas;
  2. Jornalista e economista francês (França/Baiona, 1801-1850);
  3. Economista e filósofo austríaco (Áustria/Viena, 1899-1992).

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Comentário

  1. Pastor, qual o endereço de sua igreja? Rs. Como faço para entrar na membresia? Esse texto foi a coisa mais lúcida que li nos últimos dias sobre isso. Obrigado!!!!!

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