O impeachment de Bolsonaro ainda me parece pouco provável, mas uma série de adesões ao pleito, ocorridas fora da esquerda tradicional, podem mudar o cenário. Desde que Bolsonaro colocou a faixa presidencial em 01/01/2019 que a esquerda tradicional (PT, PSOL, PC do B, PDT, PSB e demais linhas auxiliares) aguarda por uma chance de impeachment. Não tendo apoio popular, nem maioria qualificada na Câmara, considerando o peso do “centrão”, as velhas raposas da esquerda sabem que se livrar de Bolsonaro antes de 2022 é apenas um desejo inexequível. Contudo, isso pode mudar com o recente apoio do Movimento Brasil Livre (MBL), do Vem Para Rua, do partido Novo, e do interesse do Livres [1] na questão. Todos esses movimentos possuem o rótulo de “liberais” em economia e seria curioso vê-los fazendo coro com a esquerda, algo que ocorreu em 1992 na queda de Collor. Cabe a ressalva que o “liberalismo” brasileiro na economia está mais para a defesa de uma social-democracia, estando pouco versado no pensamento clássico.

Um ponto crítico estará na eleição do presidente da Câmara [2], onde a esquerda, cujo maior representante é o PT, decidiu se aliar a Baleia Rossi (MDB-SP), aliado do ex-presidente Michel Temer; por ironia que só a política produz com excelência, Rossi foi um dos articuladores do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e poderá ser a peça-chave para desencadear um eventual impeachment.

Se Baleia Rossi vencer, vendo a pressão aumentar fora da esquerda tradicional, com adesão popular, de mais movimentos e parlamentares não esquerdistas, assim como Bolsonaro não conseguir se blindar com o balcão de negócios do “centrão” (cometendo o mesmo erro de Dilma em 2016), então penso que o impeachment se tornará possível em meados de maio.

Impeachment para acontecer depende de uma difícil combinação de fatores envolvendo um forte apoio popular onde a pandemia se insere; se piorar muito e Bolsonaro não conseguir se desvincular da imagem de “antivacina”, uma probabilidade desprezível pode se tornar real pela força da opinião pública. Cabe ponderar que em tempos de pandemia, poderia ser fora de padrões quanto ao rito, acelerado ou retardado; neste ponto, penso que vai depender muito do que o STF venha a interpretar sobre eventuais audiências (seriam não presenciais ou especiais por causa da pandemia?) que agilizariam ou travariam o processo. Neste ponto, também seria um momento para ver os efeitos das nomeações de Bolsonaro à Suprema Corte.

Um governo Mourão dando uma virada à moderação poderia jogar uma pá de cal no desastroso projeto familiar de Bolsonaro, cujo disfarce (mal feito) de “conservador” nos costumes e “liberal” na economia, consegue apenas efeito em um eleitorado altamente bestializado à semelhança do que ocorre em currais esquerdistas. Se Mourão seguir a cartilha do “centrão” e se guiar pela “mentoria” de mandato tampão, no estilo MDB, dialogando melhor com o Congresso, fazendo um apelo convincente de união nacional, deixaria Bolsonaro em um abismo vendo um caminho largo para que forças de centro-esquerda vençam em 2022, ficando o eleitorado bolsonarista com uma provável síndrome de “petismo” em versão de direita”, igualmente radical ao original de esquerda nos primórdios,  apenas fazendo barulho e sem capacidade de agregação com forças políticas além da própria bolha. A tendência do bolsonarismo seria apodrecer nos porões à espera de uma oportunidade para retornar, com outro nome, outros salvadores, algo que acontece de tempos em tempos quando a esquerda se perde na própria esperteza.

Se acontecer o impeachment penso que o próprio Bolsonaro trabalhou arduamente por isso, mediante os incontáveis erros políticos que cometeu durante esta pandemia, a começar por subestimar a gravidade do vírus, desdenhar da doença, demonstrar indiferença com as famílias enlutadas e desprezo pelo problema das vacinas. Faltou-lhe também astúcia para medidas mais intensas e articuladas com governadores da oposição visando fortalecer os serviços estatais de saúde. Bolsonaro decidiu investir no negacionismo e isso pode ter sido o erro fatal para um preço que custará seu banimento do Palácio.

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Notas
  1. Livres. Consulta a associados sobre impeachment de Bolsonaro
  2. Eleição da nova Mesa Diretora da Câmara será presencial e no dia 1º de fevereiro

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