Meditações Inconvenientes XX

Nossas raízes com a Europa…

Começam pela língua que falamos, uma construção medieval tipicamente europeia trazida nas caravelas, um idioma que emergiu após o tempo em que o Império Romano tinha o latim no mundo da política e dos negócios, com dialetos que ficavam restritos a grupos, no entanto, quando o Império do Ocidente chegou ao fim, quem falava algum dialeto ou “vulgar” passou a usá-lo mais frequentemente para realizar negócios. Um desses dialetos evoluiu lentamente para o alvorecer do galego-português ao noroeste da península ibérica no século XII, após passar por influências da língua árabe (mediante as invasões que se deram após o fim do Império). E o que foi o “galego-português” entrou em “mutação” na medida em que o reino de Portugal se estabeleceu e foi crescendo, até se consolidar como língua portuguesa no alvorecer de Camões (1524-1580), assim como no surgimento da primeira gramática portuguesa, feita pelo frade Fernão de Oliveira (1507-1581). No que viria a ser o “Brasil”, incontáveis dialetos indígenas por aqui não resistiram à língua de Camões por força de uma cultura tecnologicamente mais avançada dos colonizadores.

Seguem pela primeira fé cristã que aportou por aqui, obra missionária de europeus. Quando adentramos em uma igreja, apesar de todas as mudanças que ocorreram até nossos dias em cinco séculos de história cristã em solo tupiniquim, não importa se católica ou protestante, estamos em um ambiente enraizado a partir de concepções europeias, desde aspectos teológicos, passando por artes em diversas expressões e arquiteturas. A fé cristã que predomina por aqui é europeia, pelas raízes, o catolicismo tem base europeia, o protestantismo também.

Raízes europeias estão na disseminação de valores que hoje consideramos fundamentais para a sociedade, sobretudo os que dizem respeito ao conceito de “família” em contraste com os modelos indígenas coletivistas e um tanto avessos ao que entendemos como “propriedade privada”. Foi por influência europeia que preferimos nos vestir a andarmos por aí praticando “naturalismo” indígena. O tão mal afamado modo capitalista de se viver, começou com europeus em coisas que entendemos hoje serem normais de uma “civilização ocidental” considerando que a o que viria a ser chamada de “América” era uma terra de povos primitivos, alguns pacíficos, outros dos mais agressivos nunca antes vistos e enfrentados, tecnologicamente muito inferiores devido ao isolamento de um mundo mais desenvolvido, mas não menos perversos que os que aportavam por aqui.

Europeus nos remeteram a uma concepção de métodos produtivos que inauguraram por aqui, após a predominância de um período meramente extrativista e mercantilista, uma fase tardia, engenhos e outros processos de fabricação que estavam consolidados há séculos no velho continente. Instituições sociais mais importantes começaram a surgir por aqui mediante iniciativas dos colonizadores; comarcas, câmaras, tribunais, quarteis, hospitais…De portugueses, passando por holandeses, ingleses, franceses, espanhóis, alemães, italianos, com todos os defeitos que podemos (ou não) imaginar, foram europeus a implantarem primeiro por aqui avançados “serviços sociais”, legislação (civil), procedimentos judiciais para as primeiras vilas, cidades, capitanias, por forças de ordem que promoveram empreendedorismo e acesso a mais tecnologias mediante a conexão entre dois mundos que a navegação tornou possível. Indígenas então  acabaram sendo envolvidos por uma cultura mais avançada em tecnologia se desdobrando em meios sociais e econômicos, assimilando muitos dos elementos europeus que  mudaram o rumo de um lugar que estava parado no tempo, onde o lado mais primitivo teve que se submeter, mas também deixou contribuições e assim os colonizadores aprenderam certos hábitos que entraram para a tradição ao longo de séculos de misturas, tais como o de tomar banho diariamente, comer determinados frutos da terra, raízes, plantas, ervas; tudo em uma relação mais profunda com a natureza.

Não se trata de romantizar uma colonização e sim de considerar processos de mutações sociais em um caldeirão com virtudes e defeitos inerentes à nossa espécie. Europeus provocaram aqui uma “revolução cultural” em um sentido mais profundo que narrativas políticas do nosso tempo; espalharam conhecimentos em ciências, crenças, ideologias. Trouxeram tudo o que podiam para o “bem” e o “mal” de um mundo desconectado: doenças e medicinas, virtudes e vícios, liberdade e escravidão, esta última implementaram  como negócio trágico entre mercadores europeus e tribos nativas africanas que viviam do comércio de seres humanos. Europeus disseminaram uma inevitável corrupção para um mundo novo entre políticos e empresários “amigos do rei”, em problemas que não atestam o lado dos índios como o “imaculado”, embora estivessem sob uma exploração, europeus retratados como vilões invasores não estavam lidando com um intocado mundo de “Jardim do Éden” com nativos em estado de pureza antes de comerem o “fruto proibido”; muitas tribos indígenas praticavam coisas que entendemos hoje como abomináveis, tais como canibalismo, guerras e adotavam a prática de ter prisioneiros passivos a uma forma de escravidão, quando não serviam para alimento e rituais, além do sacrifício de crianças.

O termo “europeu” é uma síntese para um conjunto de povos interconectados em meio a cooperações comerciais e conflitos sendo assim até nossos dias. Nossas raízes europeias atestam a uma constante na história da espécie humana: sociedades avançaram em aspectos civilizatórios na medida em que passaram por conexões ou interações sociais e econômicas dando saltos tecnológicos realizando negócios, disseminando vetores culturais e promovendo a economia . Europeus chegaram aqui vindos de mundo multifacetado, conectado em redes entre diversas etnias na Europa, assim como com em diversas civilizações orientais nos negócios com as “especiarias”, enquanto os nossos antepassados indígenas viviam em uma espécie de “lockdown” através de  séculos conservando assim seus modos  primitivos. O isolamento não combina com o que a história revela acerca da evolução humana.

Somos assim um tanto europeus. Indígenas compõem nossas raízes e merecem ser respeitados, assim como africanos vitimados pela infâmia da escravidão, mas duvido que muitos queiram viver em cabanas, se comodidades que o mundo globalizado repassado por europeus; sem energia elétrica, sem internet e sem o modo de produção que se traduz em comodidades em prateleiras de mercados. Imagino que muitos índios ou descendentes mais próximos de nossos antepassados nativos, em nosso tempo, também não desejam viver como os nativos do século XVI..O glamour imitado a partir dos nobres, a sofisticação em objetos de desejo se deram primeiramente por aqui por força de europeus; a vaidade sobre um mondo de comodidades deu seus primeiros passos por mãos europeias. .Quando dizem que somos “latinos”, dando a entender que estamos em uma situação contrária à europeia, até parece que a cultura latina não nasceu na Europa.

Desprezar nossas raízes europeias então não me parece algo inteligente, mesmo que os europeus de hoje sejam, em sua maioria, homens-massa tão ignorantes quanto muitos “latinos” com a própria história mediante o papel que seus antepassados tiveram na civilização. Em uma ocasião, fui chamado de “provinciano” por meu apreço pela Europa. Não vi como ofensa, pois é uma acusação sem sentido, porque quando vou à Europa estou indo para um encontro com raízes mais profundas.

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