O ex-presidente do Banco Central Europeu, para alguns o “Super Mario” Draghi, figura respeitadíssima na Europa,  assim como no mercado financeiro, foi indicado pelo presidente italiano Sergio Mattarella para ocupar o lugar de Giuseppe Conte no Executivo quando eclodiu uma crise pelo partido Italia Viva, sob comando do senador Matteo Renzi, decidindo retirar o apoio ao governo, mediante críticas à (confusa) condução de Conte acerca de questões sobre o recovery fund e às decisões contraproducentes diante da emergência da covid-19. A crise fez nascer o primeiro governo europeu durante a pandemia.

Conforme o rito, o então indicado Draghi partiu às consultas entre partidos e lideranças para verificar se teria o apoio suficiente para dar suporte ao governo e o resultado foi surpreendente, pelo menos para quem (ainda) acredita que rótulos e consistência ideológica são coisas levadas a sério no pragmatismo da política estatal. Os apoios relevantes foram diversos, começando pela Força Itália de Berlusconi, com o rótulo de “centro-direita”, passando pelo Partido Democrático (PD), considerado de centro-esquerda, o Movimento Cinco Estrelas, um conglomerado que defende algumas ideais liberais em economia, misturadas com social democracia, e assim pode apoiar qualquer governo independente do grau de socialismo, capitaneado ironicamente por um comediante; Beppe Grillo, que não viu problema em entrar no mesmo barco da Liga Norte, partido considerado de extrema direita, liderado pelo senador Matteo Salvini, uma espécie de “Bolsonaro italiano”. Draghi também contará com o apoio do partido Itália Viva, pivô da crise que derrubou Conte, considerado de centro esquerda, nascido de dissidentes do PD.

Líderes italianos agora fazem malabarismos retóricos para explicarem o apoio prévio massivo que estão dando a Draghi. Entre os mais importantes, somente o partido Irmãos da Itália, considerado conservador (direita), da deputada Giorgia Meloni, decidiu ficar de fora deste suporte ao novo governo. Até que ponto essa ampla formação se sustenta? A política tem embaraçado muitos especialistas na Itália.

Para se entender melhor o que aconteceu na Itália, partindo do contexto político no Brasil, seria algo parecido com o tucano FHC, de centro-esquerda, se juntando a Bolsonaro, contando com o apoio do animador de auditório Luciano Huck (este seria uma adaptação para um “Beppe Grillo” brasileiro), com o suporte de Sérgio Moro ao lado querendo reformar a ideia de “centrão”, incluindo João Amoedo do partido Novo (neste ponto seria a ala liberal do Cinco Estrelas), todos acompanhados por um simpático Ciro Gomes, do PDT (que seria uma mistura de Itália Viva com PD) e por partidos de dissidentes com pautas mais progressistas porém com medo de se assumirem como “socialistas”, como é o caso do Partido Rede Sustentabilidade. Essa curiosa combinação de “adversários” políticos seria em prol de um governo do tipo Henrique Meirelles, cada um com seus motivos (obscuros) e devidas ocupações na distribuição de cargos em ministérios, todos constrangidos com a exposição em praça pública de que os conceitos de “direita”, “esquerda” e “centro” são fantasiosos no mundo da política real.

Draghi é aparentemente mais respeitado na Europa que na própria Itália, tido como um homem de poucas palavras e com um histórico de decisões políticas cirúrgicas quando foi presidente do BCE e articulou movimentos para preservar o euro na cultura expansionista (anticíclica) dos bancos centrais. Sendo um excelente articulador em situações delicadas, de um governo que nasceu de uma crise ainda pouco compreendida, Draghi avança no seu conhecido estilo de economizar nas palavras e com um forte apoio entre partidos, formando a nova equipe de governo com uma mistura de técnicos e políticos moderados, prestando juramento e com uma carta de intenções para implementar medidas visando promover uma vacinação em massa mais célere, resolver as polêmicas com o recovery fund, desburocratizar mais o país (uma missão similar tão complexa quando a que se tem no Brasil), em suma, o novo primeiro-ministro italiano é um estrategista que tende a usar o prestígio na Europa para estabelecer parâmetros políticos visando alcançar condições para que a Itália consiga se recuperar mais rapidamente, em pautas econômicas e sociais,  inclusive com uma ponderação específica para retomar o turismo, atividade que representa 13% da economia.

O fenômeno Draghi talvez seja o começo na política europeia de um conceito no sentido de se ter mais convivência com o vírus, não mais se pautando apenas em lockdown e outras medidas restritivas.

 

 

 

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