Central do Brasil (1998) é uma obra com um  sofisticado jogo de metáforas contando uma trajetória de dois Brasis.

O primeiro Brasil é o menino Josué (Vinícius de Oliveira) ilustrando uma tentativa comovente de se encontrar consigo mesmo mergulhando até o (seu) “interior”, buscando as próprias raízes através de um desejo de encontro com o pai pensando que foi a única pessoa que lhe restara após perder tragicamente a mãe. Em uma odisseia à mercê do imponderável de uma vida que se apresenta cada vez mais hostil, em um mundo onde predomina a indiferença, Josué experimenta uma tragédia enquanto não perde a esperança do que aprendera com a mãe; tenho um pai e preciso encontrá-lo, e dentro de um espírito empolgante de uma criança destemida, ele começa uma jornada para vencer o mundo.

O segundo Brasil está em Dora (Fernanda Montenegro), envolvida em uma sociedade onde levar vantagem em tudo dá o tom, sobretudo quando quem se acha mais esperto se encontra com os que são considerados menos esclarecidos. O “negócio” de escrever cartas para iletrados e não completar o serviço (de entrega-las aos Correios) revela um traço de quem não se contenta em prestar um serviço  e vai adiante pela insaciabilidade de ganhar mais sem pensar no que está fazendo com a ética. No entanto, isso começa a mudar quando ela tem um encontro com o “outro Brasil”, Josué, também em circunstâncias onde pesa apenas tirar vantagem e em um contexto de fragilidade extrema, da pior maneira possível; ao ver Josué órfão de mãe  (uma de suas clientes no negócio de escrever cartas para analfabetos), em um estado de abandono em meio ao rush da Central do Brasil, sabedora de um incapaz com um pai supostamente distante, ausente, Dora enxerga no trauma da criança uma oportunidade para ganhar um extra a negociando com um conhecido traficante.

Contudo, o que Dora certamente não contava é que nesse encontro com Josué, a carência, a pureza e a força do menino irradiassem nela uma avassaladora auto crítica; Dora experimenta um conflito interior que a sinaliza que foi longe demais e então começa a reavaliar valores e as consequências de seus atos. Ela então decide romper com esse deplorável estado de coisas em que se permitiu chegar e resgata o menino. Assim inicia uma nova caminhada percebendo uma missão ao perceber a dimensão do drama do menino. Dora começar a crescer moralmente, meio que aos trancos e barrancos, assumindo riscos que jamais poderia imaginar por alguém que conhecera tão brevemente dentro do seu mundo de “escrevedora” em dilemas regados à sua indiferença.

Ela e Josué agora fazem parte de uma jornada em busca de respostas e coisas superiores, onde interesses materiais começam a ficar em segundo plano. No final, Dora sai dessa missão com um sentimento de dever cumprido, sabendo que o menino se encontrou com o que melhor podia ter,  meio que sem saber exatamente; seus irmãos, em meio à certeza da frustração de não ter encontrado o pai, o que traduzindo é um Brasil que se encontra, de forma inesperada, com suas raízes e em condições de perceber um sentido para a vida.

Dora é o Brasil dos espertinhos, dos tão-somente pragmáticos do dia a dia, dos que não descartam uma oportunidade para ganhar mais sem apego à moralidade, sem medir consequências, desumanizando os semelhantes. No entanto Dora começou a sair desse Brasil sórdido da “Lei de Gérson” para enfrentar perturbações que ficavam silenciadas lá no fundo de sua alma pelas indiferenças que cultivava e eis que conseguiu, de alguma forma, ouvindo a voz da própria consciência, saltar para uma caminhada espiritualmente desbravadora de si mesma, em passos cada vez mais amadurecidos e ousados.

Josué é o Brasil ingênuo, pobre e de coração forte que procura se encontrar consigo mesmo, jamais desprezando as poucas referências que tem. É o Brasil em um estado limpo de segundas intenções, dos vulneráveis, dos sofridos, enquanto cheio de energia, vibrante, esperançoso que encontra amparo onde menos espera. A consciência e o desejo das próprias raízes em Josué revela um traço conservador nesta obra excepcional dirigida por Walter Salles. O cenário de um interior esquecido ou “fim do mundo”, como se afirma na obra, figurado por um povo modesto, cuja fé simples e reparadora de sofrimentos também segue por uma metáfora remetendo a um Brasil que se espelha através de Josué.

Josué é o Brasil ainda empolgante, destemido, sem os vícios do Brasil da Dora que conhecera Josué e que foi se libertando a partir do instante em que se esvaziou de si mesma dando uma chance para que a vida, por meio de Josué, lhe ensinasse coisas melhores.

Central do Brasil é uma sínteses genial de dois Brasis cujos dilemas existenciais se encaixam poeticamente.

 

 

 

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