Meditações Inconvenientes XXI

Quando vejo um “recém-formado” às pressas neste carnaval para contratar serviço de TI porque precisa fechar balanço “até o final do mês”, após firmar contrato para atender a uma empresa no lucro real (no primeiro exercício advinda do presumido) com meia dúzia de filiais, faturando acima de R$ 40 milhões no ano, quando o livro diário não tem sequer um lançamento migrado na sua plataforma, não tendo a menor ideia de como vai integrar dados de vendas, compras, controles financeiros, registros de estoques, entre outros de diversas bases em meio a uma troca de contador que, por tabela, ocasiona em uma troca de sistema contábil… Então paro para mais uma meditação inconveniente.

A maior parte das tarefas que observo em profissionais de contabilidade altamente gabaritados está no hábito de planejar bem as ações e isso está longe de ser algo que comentam visando algum marketing pessoal tentando se passarem como mais competentes que os outros. Planejam porque aprenderam o valor da humildade diante de inúmeros fatores e neste aspecto, elaborar e executar um bom plano de ação diante de um novo contrato, de complexidade maior que a usual, é a regra básica para passar bem na transição ou seja, avaliam recursos, tempo a ser gasto, ambiente corporativo, custos, plataformas de TI do cliente e as possibilidades de integração com a plataforma contábil que adotam. Porém, noto que essa ´prudência é rara entre profissionais que estão “saindo do forno” das faculdades., munidos de uma visão um tanto diferente: no lugar de analisarem bem antes de agir, avaliar riscos, apurar limitações próprias, identificar pontos críticos dos clientes (e de si mesmos), assim como ponderar  escassez de recursos (envolvendo pessoal) para realização de determinadas tarefas de migração, os mais novos, tirando as poucas exceções que consigo perceber, se comportam como imediatistas tentando mostrar uma agilidade que muitas vezes fica apenas no discurso. Estão quase sempre afobados não pesando riscos, não avaliando bem a carência e a carestia de recursos que impactarão serviços de migração. Também há um certo desprezo sobre um conhecimento mais depurado de como os clientes conduzem os negócios do ponto de vista dos controles contábeis. Muitos inclusive tentam adaptar a contabilidade aos vícios administrativos dos clientes e isso sempre resulta em peças contábeis que parecem mais com  volumosas obras de ficção. Infelizmente, no lugar da tecnicidade, da temperança e da serenidade que cabem a um contador, se pautam pelo “fazer”, meio que na ideia de que fins justificam meios,  sem ter noção de como funcionam certas rotinas que se envolveram, crentes de que basta instalar um “bom software contábil”, ter o suporte em SQL, apertar uns botões e assim “tudo será resolvido”. Muito mais que parecer apenas uma geração de “apertadores de botões” deslumbrados e super dependentes de TI, seus adeptos demonstram uma desinteresse por um auto conhecimento  sobre aptidões concernentes ao que cabe ao contador, não fazendo ideia sobre para onde estão indo enquanto pensam que são “especialistas” de alguma coisa considerada relevante por dominarem cartilhas de empresas de TI, confundindo conhecimentos de operação de aplicativos e bases de dados com contabilidade.

Não acompanhar informes de interesse, não ler na profundidade necessária determinadas normas técnicas, sejam contábeis ou do fisco, ficando apenas na superficialidade das manchetes de sites afins ou meramente seguindo opiniões de influencers, abdicando de um senso crítico próprio, são outros problemas que percebo se avolumando nesta geração tão bem conectada enquanto desconectada do que entendo por “contabilidade raiz”, onde o contador faz parte do universo de figuras respeitadíssimas entre empresários bem preparados, investidores detalhistas e economistas sérios, por ter o parecer técnico da situação patrimonial das entidades de interesse.

Em outro caso, ouvi de uma deslumbrada contadora, também debutante, uma frase de efeito que me lembrou um conhecido palestrante dos tempos em que muitos contadores iam à Disney se inspirar em supostos modelos “disruptivos” para seus escritórios: “nosso trabalho se baseia em encantar o cliente”. Encantar o cliente? Cuidado com isso! Tem gente confundindo “encantar o cliente” com “fazer tudo o que deseja” um empresário amador, mimado, viciado em buscar favores na política em vez de cultivar eficiência econômica. Tem gente confundindo “atender bem o cliente” com se submeter a caprichos sem olhar aspectos técnicos e éticos. Depois de alguns meses “encantando” o cliente, a contadora perdeu a empolgação pois não conseguiu encerrar adequadamente o exercício porque o cliente, por demais “encantado”, não tinha um controle financeiro minimamente eficaz para atender aos controles contábeis; faltava-lhe também um controle de insumos e produtos, impossibilitando que os saldos dos estoques refletissem a realidade da fábrica. Indícios de “caixa dois” e total desprezo pelo “princípio da entidade” onde apareciam na contabilidade, para se ter noção do que estou abordando, notas fiscais do tipo um sofá de grife comprado para a esposa de um dos sócios, todos incentivados com a visão “flexível” que conseguiam ter com a contabilidade. Despesas com marketing contábil? Parece-me ironicamente apropriado e ficará melhor se mencionar algum enunciado do CPC. Moral da história: é preciso tomar muito cuidado com essa ideia de “encantar o cliente”, pois a contabilidade tem normas à prova de “jeitinhos” ou “encantamentos”; não tem como fechar decentemente um balanço de uma empresa que despreza controles fundamentais para a gestão e a contabilidade.  Por isso que compreendo muitos contadores que não aceitam determinados clientes quando percebem a bagunça e o desprezo dos próprios administradores em relação ao padrão de se ter controles sérios.

Diante dessas corriqueiras experiências, não raramente, me flagro pensando sobre o que andam ensinando nas faculdades. Se é para se comportar como  leigo, amador, marqueteiro, despachante, repetidor de influencer sem senso crítico, sem o hábito da leitura qualificada, apenas “apertando botões”, penso que ter diploma e carteira do CRC não vai fazer a menor diferença além de servir para massagear o ego e decorar parede com uma bela moldura. no entanto, no mundo corporativo de alto valor, saber de fato é o que pesa para o reconhecimento da excelência profissional que se traduz em elevados honorários. Quem nesta pauta vive está em um mundo seleto, restrito, requintado, onde os títulos pesam bem menos que o saber em uma condição onde  poucos conseguem chegar.

Certa vez me perguntaram por que não demonstro interesse em ingressar em uma faculdade para “dar aulas”. Por dois motivos:

  1. Não tenho qualificação mínima para ser professor universitário e;
  2. Se, hipoteticamente, ingressasse em uma faculdade para “dar aulas”, temo que não teria mais tempo disponível para fazer uma das coisas que mais aprecio: estudar.

O segundo motivo resume o que penso sobre a pergunta que intitula este artigo.

 

 

 

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