Nas manhãs de carnaval, da varanda do segundo andar, diante de uma parcial vista panorâmica, parei para ouvir a cidade e o que encontrei? O silêncio, às vezes suavemente tocado por concertos de bem-te-vis e sabiás e, um pouco mais tarde, por algum som distante de veículos, alguns poucos fogos de artifício; nada que se destacasse diante desta agradável presença em pleno período carnavalesco.

Pensei nos carnavais passados sob a mistura de sons de trios elétricos e carros carregados de caixas produzindo uma vasta poluição sonora ecoando pela cidade, comprometendo leituras, estudos, repousos, atrapalhando aquele velho e bom cochilo, considerando onde moro, um local próximo à Receita Federal, tradicionalmente ocupado pela intensa folia nos dias de Momo.

Tinha notado este silêncio há algumas semanas, especialmente nas manhãs. Durante o carnaval o aproveitei para realizar mais leituras, mais estudos e produzir mais textos que o habitual. Pensei que talvez este silêncio fosse restrito às proximidades e eis que ontem tive que fazer algo raro: sair de casa com o carro no início da noite. Aproveitei para ver a  Mariana Amália e a antiga BR-232, e notei a predominância do mesmo silêncio, rompido por pequenos barulhos do trânsito aqui, acolá, nada que me lembrasse o normal quando usava mais o carro antes da pandemia. Notei também ruas mais limpas, sem aquele fedor típico de dias de folia. É… Vitória de Santo Antão, pelo menos nas suas vias principais, consegue ser uma cidade mais limpa que Paris.

Percebi uma cidade um tanto vazia, quem sabe por muitos que decidiram aproveitar o final do verão em alguma praia. No mais, o silêncio raro foi como se a cidade tivesse decidido entrar em um estado de contrição e por respeito ao luto que a pandemia está provocando.

Não sou folião e não me apetece dar palpite sobre o prazer alheio. Contudo, penso que não haveria clima mesmo para folia, não apenas pela necessidade de se evitar aglomeração, mas também pelas muitas famílias que enfrentam o luto tornando o carnaval uma festa imprópria do ponto de vista social, embora a nossa espécie não esteja poupada de uma grande quantidade de indivíduos infantilizados, regidos pela imaturidade só enxergando o próprio hedonismo que cultivam, incapazes de respeitarem a dor alheia nesta pandemia.

A  tristeza de quem não pôde brincar o carnaval é uma coisa insignificante diante da tristeza dos muitos que perderam entes queridos.

Então parei para pensar mais uma vez e, pela fé, entendo em memória daqueles que foram e por sentimentos aos enlutados, Deus abençoou a cidade com o silêncio durante o carnaval, o mesmo sagrado ingrediente indispensável para se comunicar com Ele: a oração.

 

 

 

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