Ouvindo a nona sinfonia de Beethoven me lembrei do matemático francês Benoit Mandelbrot (1924-2010), nos anos 1960 com ideias um tanto perturbadoras para a visão de mundo gaussiana [1] da curva na forma de sino, sobre preços de commodities e ativos financeiros, derivadas de sua ópera matemática que chamou de “Fractal” [2]. É Taleb que conta esta história e, com o senso crítico ácido que lhe é peculiar, viu o evento como mararitas ante porcos  [3]; economistas, e o que o pensador líbano-americano chama de “filisteus construtores de currículos”, rejeitaram as ideias de Mandelbrot porque, diz ainda Taleb, “eram boas demais para eles” [4].

Beethoven, Taleb e Mandelbrot estão em meus pensamentos neste sábado à procura de um bom lugar para ler um livro, aproveitando um silêncio que toma conta da cidade há algumas semanas. Feliz e sem visitantes indesejados, volto-me a Mandelbrot e às novas ideias que foram “boas demais” para um mundo repleto de mentes educadas para pensarem de uma determinada forma. O gênio francês, com raízes judaico-polonesas, apresentou algo fora dos esquemas tradicionais do mainstream a um grupo de “especialistas” do mercado financeiro e da academia europeia que foram incapazes de superar a bolha de conceitos que os envolvia naquele momento. Bolhas são pragas que parecem invencíveis em um mundo muito pautado em ideias e conceitos onde a dúvida sob argumentos consistentes não é bem vinda se os resultados apontados contrariarem crença confundida com “ciência”, assim como interesses de quem vive de certas ideias. Mandelbrot foi alguém que ousou ir  além do invólucro entre pessoas que tinham a matemática avançada como ferramenta habitual, se tornando inconveniente e depois, evitado.

Bolha é um fenômeno individual que pode se tornar social, ou de grupo, por uma tendência “fractal”, se expandindo em um padrão com base na natureza dos envolvidos. A bolha se evidencia em ideias aglutinadas ou em uma determinada “visão de mundo”; é um fenômeno baseado em conceitos sistematizados exercendo um peso de controle no comportamento, seja do indivíduo ou coletivo, de um grupo, mediante valores e crenças, onde há uma perda do mínimo senso crítico resultando em um predomínio de práticas de preconceito e intolerância, seja interna entre membros do grupo ou no foro íntimo de alguém “cheio de convicções”, seja de algum agente externo que faz um contraponto. O domínio da bolha se torna melhor observável quando é exposta alguma falha potencial no sistema de conceitos e valores que lhes dão liga. Na mentalidade de bolha fatos não pesam e sim a crença em narrativa. Um indivíduo dominado por uma mentalidade de bolha não raciocina com imparcialidade diante de resultados, pois foi educado ou melhor, adestrado, a pensar que suas ideias, ou do grupo que milita, estão sempre corretas.

Toda bolha é sedutora; diante de um mundo tão complexo, onde o conhecimento disperso faz muitas certezas caírem por terra, é natural que ocorra uma busca por afinidades em busca de uma segurança em torno de ideias comuns, porém  sem verificar se estão dentro de um sistema cheio de contradições, se deixando levar por ilusões naquele adágio: “muitas pessoas não querem mais saber da verdade e sim de uma boa mentira para poderem dormir melhor.”.

Às vezes me flagro em uma bolha quando identifico o que tinha como certeza não devidamente comprovada ou logicamente frágil, fazendo uso de sistemas de ideias. Sei o quão difícil é identificar e ainda mais complicado se livrar de algo que robotiza o juízo e enquanto produzo este texto, talvez esteja em uma bolha mediante meus vícios ideológicos. É impossível estar totalmente imune a algum tipo de ideia pré-concebida afetando análises e compreensões sobre fenômenos. Quem pensa e procura construir critica, carece sempre de lembrar dessa condição; a espécie humana é inerente a constantes problemas de “pré-conceito” atrapalhando um melhor entendimento das coisas.

A pandemia da covid-19 acabou explicitando problemas mais dramáticos envolvendo bolhas: os mais intervencionistas se apegam a mais controles sociais,  usando de narrativas apelando a “ciência” para aumentar o escopo de socialismo dos estados modernos enquanto parece evitar a mesma “ciência” para expor com algum esforço de imparcialidade,  causas e efeitos, custos e viabilidade econômica das medidas restritivas que defendem, além do uso de lockdowns em grande escala, carentes de comprovação científica. Bolhas dos assim chamados “negacionistas” subestimam a gravidade do vírus, os impactos da doença nos sistemas de atendimento médico, super estimam fatores econômicos e desprezam o problema de governos intervindo na vida privada como reflexo de crenças que muitos dos grupos afins propagam a começar pela fé na socialização de serviços “essenciais”. “Negacionistas muitas vezes raciocinam como progressistas/socialistas, não se atendo que pensam enganosamente que o estado funciona como “loja” onde se entra, se paga por bens e serviços, tudo voluntariamente, e isso ocorre quando adotam a narrativa da crença no e “retorno de impostos”, que só retroalimenta o estado glutão de recursos e de parasitas, todos vivendo da coerção, enquanto ocorre em paralelo a infantilização dos assim chamados “contribuintes”.  Intervencionistas e “negacionistas” implicam em conceitos de “esquerda”, “centro”  e “direita”, terminologias que não me parecem apropriadas ao mundo político atual, refletindo o que há de mais tóxico em termos de bolhas pois o que defendem acaba atingindo a sociedade de forma mais abrangente quando alcançam a poder, gerando custos e danos socializados.

De rodas de doutores a iletrados, bolhas universitárias, não menos nocivas ao espírito humano que as políticas, não permitiriam que Einstein (1879-1955) produzisse os cinco artigos [5]  em 1905.  Muitas vezes, saltos científicos para ocorrerem, carecem de um distanciamento dos esquemas convencionais de educação que também comprometem o mundo do empreendedorismo. Bill Gates e Steve Jobs (1955-2011) certamente não teriam existido, no que representaram para o mundo tecnológico, se tivessem permanecido em suas carreiras em faculdades como indivíduos incompreensíveis diante do que os modelos educacionais ofereciam à época (anos 1970).

Dentro de um contexto em mercados acionários, bolhas representam “oportunidade” de quem investe à espreita de estímulos por intervenções de governos que inflacionam ativos e os fazem lucrar mais rapidamente enquanto repassam custos dos maiores danos a quem não tem noção do que fazem em termos de iatrogenias [6] na medida em que bancos centrais emitem dinheiro gerando inflação  e diversos efeitos colaterais incompreensíveis a quem acha que está sendo amparado pelo governo. Uma resposta fora dessa bolha foi o bitcoin: Por que será que o “Satoshi Nakamoto” decidiu permanecer, como diria Sartre, “secreto na própria comunicação”, ao revelar o que foi o primeiro modelo de blockchain que se tem notícia e a derivação do criptoativo “bitcoin”, projetados em um paper [7] de 2008? No contexto dos mercados financeiros com seus engravatados à espera do próximo pacote de “estímulos”, penso nas bolhas que envolvem os mais “simples”, vistos em qualquer esquina, onde ninguém presta atenção, controlados por conceitos progressistas que os alienam na demagogia da política  com coisas do tipo taxar mais os ricos esperando que o estado (controlado por ricos ou por ex-pobres socialistas profissionais que enriquecem nessa corporação de parasitas) distribua aos mais pobres, como se bens e serviços, consumidos pelos mesmos pobres, não fossem encarecidos através de custos tributários embutidos nos processos produtivos.

A bolha da “terra plana” é um caso que demonstra o quanto espécie humana consegue adaptar a estupidez através dos  tempos; perdura desde a antiguidade cuja visão divergia com a de sujeitos inconvenientes que decidiram furar a tal bolha, entre os quais figuram  Aristóteles (384 a.C-322 a.C)  [8] e Eratóstenes (276 a.C.-194 a.C.). Um bom terraplanista vai achar que eu esteja aqui na minha bolha particular dizendo que o credo da “terra plana” é uma dessas dissonâncias que se fortaleceram durante um período de intolerância religiosa no medioevo, amparada na  política cristã predominante no Ocidente (católica-romana),cujo perversidade do aparato sobre quem contrariava as “doutrinas oficiais” só foi superada pela ideia islâmica de jihad. Após a retomada do controle político pelo viés católico romano na Europa, quantos foram literalmente queimados por ousarem sair de convenções sem determinadas proteções políticas de padrinhos ou mecenas à época, digo, reis, duques e outros fidalgos que gostavam de bancar gênios, entre os quais figurava um tal de Leonardo da Vinci (1452-1519)? O capítulo macabro desta bolha de terror, mais conhecida como “Santa Inquisição”), se esvaziou quando o fideísmo deixou de ter utilidade para servir a interesses da política na Europa, entrando em evidência a exploração de uma visão laica e não monárquica do estado, em movimentos travestidos de portadores da suposta verdadeira “luz” da razão, emergindo assim a  “Revolução Francesa”, cuja bolha produziu banhos de sangue, desta vez não mais pelas fogueiras e sim pelas guilhotinas do laicismo. O que o catolicismo romano medieval fez, em matéria de intolerância e desumanidade, foi então superado pala bolha do positivismo revolucionário. A Revolução Francesa foi um fenômeno de bolha em escala “fractal” deixando de ser coisa isolada de um grupo de progressistas da Assembleia Nacional; tornou-se um divisor de águas na humanidade alimentando o dragão da mentalidade socialista adaptada a um parâmetro parlamentarista que viria a ser o grande fator determinante no século XX regendo valores, normas, regulações, superando os fideísmos islâmico e da ortodoxia cristã medieval, para disseminar uma colcha de retalhos marxista onde coerência com fatos é um detalhe e o desprezo à ordem natural um pilar. para dar vazão a poderes que se tornaram ainda mais tirânicos: URSS, China, Coreia do Norte, Itália de Mussolini, Alemanha de Hitler e Cuba de Fidel, todos consequências de bolhas “fractais” que produziram atos concretos de comunismo, fascismo e nazismo, irmãos de uma mesma mentalidade coletivista-coercitiva com expertise de confundir partes com um todo; pós-verdade.

Firmados uma base ideológica que acreditam ser bem consistente, a mentalidade de bolha se notabiliza pela repetição de termos celebrados pelos principais articulistas ou “influencers”, que se disfarçam como abertos ao “contraditório”, porém na prática não se confirma na medida em que sempre voltam a “fundamentos” como se fossem elementos incontestes; dentro de um absolutismo, não apresentam disposição a colocá-los em dúvida. Ideias em economia são tratadas como dogmas. Em grupos ou redes sociais de economistas austríacos, o pensamento segue um padrão que é, obviamente, avesso a qualquer proposição que soe a “intervencionista”. Esse padrão começa a ser um problema cognitivo quando impede uma investigação que esteja disposta a colocar em dúvida determinadas teorias. Por mais razão que se possa ter, a bolha austríaca repete a fragilidade de evitar interação por uma dialética destemida, prevalecendo o uso de estereótipos que comprometem uma melhor compreensão, não tendo paciência com quem foi educado por séculos a apenas enxergar o intervencionismo como resposta. Em grupos de desenvolvimentistas ou intervencionistas, esse problema parece ocorrer de forma ainda mais agressiva: se um austríaco ou liberal contra argumentar, mesmo que bem fundamentado, não haverá debate, diálogo, e sim uma militância repleta de respostas enlatadas dentro da cartilha de “verdades”; são comuns ofensas pessoais desviando o foco necessário aos problemas em discussão. Nos dois casos, austríacos e intervencionistas agem como reféns de suas convicções quando se deparam com oponentes ideológicos quase sempre provocando confusão entre crenças e o que pode ser genuinamente classificado por ciência. Em grupos de bolsonaristas, petistas, psolistas, esse fenômeno se revela ainda mais agressivo. A blindagem da bolha fica reforçada com um arsenal de narrativas que, não raramente, se tornam bases para disseminação de fake news.

Quem decide evitar bolhas acaba assim em um empreendimento perigoso; as chances de desprezo aumentam consideravelmente e em casos mais extremos se tornará alvo constante de perseguição e ódio por quem se julga portador da verdade. Já para quem escolheu uma ou mais bolhas para viver, estará em um certo conforto, com algumas comodidades diante de um cardápio para evitar determinadas perturbações ou dúvidas. A bolha é um lugar de proteção da ignorância, um templo para celebrar achismos, ilusões e meias verdades, feito para que o mundo se pareça mais seguro e consolidado do que realmente pode ser. Bolhas sedimentam ingredientes que dão um tipo de liga a movimentos grupos, igrejas, associações, institutos, partidos políticos, clubes ou instituições quando se tornam com um fim em si mesmas, na medida em que vão se pautando apenas em busca de poder, se fechando  em radicalismos e ficando avessas a se auto avaliarem mediante suas originais “razões sociais”, desprezando qualquer esforço de auto reforma; nesse processo de radicalização, vão se convertendo em meios de ideias megalomaníacas muito além da cooperação social para as quais normalmente foram fundadas, se tornando centros de líderes arrogantes dispondo de uma militância cada vez mais agressiva, em meio da narrativas de “boas intenções” para apenas aumentarem o poder de quem os manipulam, todos voltados a uma visão coletivista que tende a se ligar, cedo ou tarde, ao estado para se privilegiar cada vez mais na sua cúpula enquanto vai se tornando mais intolerante, violenta e destrutiva diante de quem se contrapõe a seus valores, exercendo liberdade defendendo uma ética voltada ao indivíduo e à liberdade em diversas concepções. Bolhas “fractais” comunistas, nazistas e fascistas começaram em pequenos grupos ou movimentos políticos que tomaram os respectivos estados e se consolidaram como um reino de terror. A Igreja Romana foi um exemplo, desde a antiguidade, de ligação de um organismo religioso  que virou uma bolha e se juntou ao estado aumentando sua radicalidade, se tornando intolerante na medida em que foi se envolvendo no jogo de poder, inclusive permanecendo em outras associações durante o medioevo com reinos pulverizados no pós encerramento  do Império Romano do Ocidente. Durante séculos a Igreja Católica viveu de relações políticas e, por tabela, anticristãs com a política dos estados medievais, contudo esse padrão foi se deteriorando. Como já mencionado. a Revolução Francesa foi um marco de ideias progressistas que superaram o ancien régime trazendo a implementação do conceito de “estado laico” consolidado no final do século XVIII, inaugurando um ciclo de poderes coercitivos estatais sem a Igreja tendo destaque, desta vez disfarçadas com o selo da “democracia”, contudo, na medida em que foram se aprofundando, as novas bolhas políticas foram influenciadas por ideias de Marx que se tornaram convenientes e entraram em “mutações”, gerando “cepas” comunistas, nazistas, fascistas, gramcistas, da Escola de Frankfurt, neoliberais e de social-democracia, todas no século XX.

Bolha é um objeto de estudo sobre a essência da “metafísica do coletivismo”, fenômeno intrínseco no tocante ao que rege um conjunto de valores predominantes que mantêm indivíduos em constante evolução de submissão a uma determinada visão de mundo, interconectados por um sistema de sinais e valores que os impede de olhar além do ambiente que os envolve, formando assim agentes cada vez mais agressivos diante de tudo que contesta os valores que cultivam.

O visionário Leonardo da Vinci, o isolado Einstein tentando cavalgar um raio de luz em um escritório de patentes na Suíça, o misterioso Nakamoto com sua matemática subversiva no bitcoin, Maldelbrot destruindo as ilusões de modelos baseados na curva na forma de sino, são alguns exemplos de “marginais” ou de agentes “antibolhas” na nossa espécie, que, enquanto pela história revela ter uma tendência a se fechar em padrões que formam sistemas ideológicos que se tornam avessos a auto crítica e geram bolhas, é a mesma que pode ousar, ir adiante, se repensar, produzir um contraditório disruptivo, por um espírito alheio ao complexo de “rabo preso”. Nietzsche (1844-1900), outro inconveniente que gostava de ridicularizar sistematizações e foi notável por estourar bolhas, penso, chamou essa empreitada de coisa para “Übermensch” fazer, ou  o “além do homem” [9].

No final, o que possibilita saltos de conhecimentos na nossa espécie é a coisa mais ameaçadora para qualquer bolha e por isso mais perseguida ao longo da nossa existência: a liberdade. E assim encerro com Ludwig von Mises (1881-1973):  “Freedom is indivisible. As soon as one starts to restrict it, one enters upon a decline on which it is difficult to stop.”

_________________________________

Notas:

1. Como se o mundo estivesse apenas sujeito a explicações e ajustes quantitativos, alinhados com modelos estatísticos sob aleatoriedade branda, moderada, minimizando a possibilidade de grandes eventos além da curva. Um mundo aparentemente em paz com o “establishment”, sem ponderar a ameaça de “Cisnes Negros”;
2.
3. “Pérolas aos porcos”. Por Nassim Nicholas Taleb em “The Black Swan”, 2007;
4. Na mesma obra da nota 3, no capítulo 16;
5. Ver “1905: Um Ano Miraculoso” por Ildeu de Castro Moreira, Instituto de Física, Universidade Federal do Rio de Janeiro
6. Efeitos colaterais inesperados e indesejados após uma intervenção.
Bitcoin: um Sistema de Transação de Dinheiro Ponto-a-Ponto
8 Em “Sobre o céu”
9. Friedrich Nietzsche em “Assim falou Zarathustra”

 

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *