1. IPCA, IGP-M e curva de juros – A inflação vem se tornando um problema cada vez mais delicado na economia brasileira. O entendimento sobre aumento do risco inflacionário no curto e médio prazo no Brasil, por parte dos que formulam políticas que afetam fenômenos monetários, parece ser uma questão ainda dependente das políticas monetárias anticíclicas adotadas por gestores de bancos centrais nas maiores economias (EUA, bloco europeu ocidental e  na Ásia). No entanto, o Banco Central do Brasil (BCB), por meio do Copom, recentemente elevou a meta da Selic em 0,75 p.p. [1] iniciando uma aparente mudança em sua política (expansionista) mais intensa  em  2020 na forte elevação da base monetária que se verificou em comparação com os anos anteriores:

O resultado do expansionismo pode ser relacionado, entre outros fatores monetários de políticas emergenciais do governo federal, no IPCA acumulando 5,20% nos últimos 12 meses, quando foram observados 4,56% nos 12 meses imediatamente anteriores [2] e, com maior visibilidade, no IGP-M subindo 2,94% em março, acumulando 31,10% nos últimos 12 meses [3] quando em março/20 estava em 6,81%. Parece que não está fechando a conta entre a recessão causada pela pandemia e o remédio neokeynesiano.

https://portalibre.fgv.br/sites/default/files/2021-03/igp-m_fgv_power-point-resumido_mar21.pdf
IGP-M FGV/IBRE

A recente e pontual curva de juros pode induzir a um entendimento impróprio de tendência inadequada do Copom quando entram no debate problemas centrais na economia brasileira. A ideia de políticas anticíclicas no Brasil, por parte de economistas desenvolvimentistas e liberais que apostam em juros reais negativos, carece de melhor sustentação considerando o dilema de uma fraca infraestrutura de capital, dificuldades por uma maior capacidade de atração, falta de uma efetiva melhoria do ambiente de negócios, pobreza de recursos humanos (capital humano) mais sofisticados para gerar riqueza em um mundo cada vez mais tecnológico, fatores que inviabilizam maior capacidade de endividamento de uma sociedade fortemente ancorada em torno do estado. Políticas desenvolvimentistas demandam estrutura de capitalismo ainda carente no Brasil, onde questões de “liberalismo”, “liberdade econômica”, “menos interferência do estado”, ainda geram debates rasos e contraproducentes. O que se verifica como uma constante é uma forte aversão a investimento estrangeiro que repercute no combate às privatizações, a compreensão da riqueza ou do lucro acumulado como um problema e não um sinal de prosperidade  dentro de uma predominante visão de “estado corporativo” em agentes estatais organizados para sabotar esforços em favor da redução de empresas controladas por governos não privados.

2. Dívida Pública, câmbio e reversão da Selic – A dívida bruta do estado brasileiro apurada pelo Banco Central chegou aos 90% do PIB [4], em um nível muito elevado quando comparada como economias emergentes cujas limitações se relacionam com os problemas levantados no último parágrafo do item anterior. Se o Brasil tivesse uma economia rica como EUA, Japão e Reino Unido, cujos capitais acumulados possibilitam financiamento por juros negativos, os 90% atuais não seriam um problema. Os resultados do déficit primário vieram melhores que o estimado em média de mercado, no entanto, a tendência de piora é mais provável por conta do agravamento da pandemia, já refletida nas primeiras medidas de diferimento na arrecadação federal [5],  levando em conta que a segunda onda deve devastar mais empresas além do ambiente tratado inicialmente (micros e pequenas empresas), não sendo um mero problema de fluxo envolvendo adiar recolhimento nos próximos dois meses para ajustar no curto prazo, ainda este ano, sendo mais provável que ocorra mais perda de arrecadação  enquanto o governo federal se vê tentado a reduzir tributação sobre importação de insumos relacionados aos suprimentos da pandemia, assim como a adotar mais diferimentos. As recentes “pedadalas fiscais” aprovadas no Orçamento pelo Congresso, em análise para sanção presidencial, e o retorno do auxílio emergencial sinalizam uma repetição de acúmulo de déficits primários às próximas gerações, apesar de ser um alento importante a indivíduos que se multiplicaram na pandemia sem qualquer fonte de renda. Por outro lado, a pressão no câmbio tende a ser intensa na medida em que o quadro fiscal vai se deteriorando e os juros reais negativos permanecendo. As ações iniciais de reversão da Selic no Copom serão postas à prova inclusive sobre uma pressão que a estrutura da economia brasileira não pode suportar por muito tempo, enquanto o meio produtivo terá que se ajustar a um encarecimento dos juros com um cenário de oferta mais restrita de crédito.

3. Demanda global de commodities e “hedge agrícola” – Commodities tendem a ser decisivas diante de expectativas de bull market estrutural e este assunto tem se intensificado nas análises de mercado. Espera-se maior demanda de commodities no cenário global. Em outra visão, o investimento em commodities é visto como blindagem para recessões domésticas, com pressões externas no câmbio e internas nos juros. Aumentos dos preços das commodities por maior demanda externa na medida em que economia mais avançadas melhoram diante da pandemia, podem repercutir positivamente no Brasil em relação a investidores que estão se posicionando em ativos dessa natureza. Nesse aspecto, commodities agrícolas representam ponto muito favorável como “hedge” ficando o fator de risco concentrado no agravamento da pandemia afetando a produção, por maiores dificuldades de obtenção de insumos, além de problemas de contaminação por empregados e comprometimento de meios de produção. No momento, destaques para a maior safra de soja da história, estimada pelo SAFRAS [6] e a DATAGRO reduzindo projeção do milho, porém mantendo recorde [7]. Se pecuaristas terminadores estão em alerta com o valor de reposição mais elevado  e os insumos mais encarecidos [8], ocorrendo um abalo na demanda interna com o agravamento da pandemia, a demanda externa pode ser o contraponto considerando as expectativas de mercado em expansão nessa visão.

4. Terceira onda de covid-19 Brasil – Faz sentido falar em “terceira onda” de covid-19 no Brasil se estamos na segunda onda sem perspectiva de uma finalização no horizonte? Considerando o aumento da probabilidade de governos locais (estaduais e municipais) voltarem a adotar medidas mais restritivas após as que foram tomadas em março passado, ainda que o governo federal seja resistente a um “lockdown nacional”, a ocorrência de mais restrições sequenciadas em abril e maio poderá gerar um efeito de redução na media móvel de casos confirmados, hospitalizações e óbitos, podendo passar uma sensação ilusória de início do fim da pandemia, sobretudo entre os que analisam apenas fatores recentes e imediatos, erro grave de avaliação cometido no governo federal. Restrições de circulação derivadas da políticas não passam de medidas paliativas se não forem acompanhadas do aperfeiçoamento de medidas sanitárias, fortalecimento da cadeia de suprimentos em serviços de saúde, ampliação da oferta de serviços hospitalares e, sobretudo, vacinação em massa. Os dois últimos fatores estão aquém nessa complexa combinação. Em outras palavras, não adiantará muito adotar lockdown nacional, ou mesmo que pontual, local, regional, se não ocorrerem melhoras nos indicadores de vacinação e nos problemas da rede hospitalar, além do distanciamento social mediante redução de casos de aglomerações, este último ponto demandando comportamento social que, predominantemente, em muitos indivíduos, parece, uma questão alheia à gravidade da situação. Na questão da vacinação pesa negativamente a estimativas de abril sendo revista para baixo com impacto de 46%,  após divulgação de dados pelo novo ministro da saúde [9] comprometendo a meta de 1 milhão de vacinados no volume diário, apesar da recente evolução [10].

Em síntese, a inflação no Brasil, a economia doméstica sujeita a uma crise na demanda, as expectativas de crescimento nas economias mais avançadas por conta de um cenário de pandemia em recuperação este ano, repercutindo no esperado aumento por commodities, reforçam o posicionamento em reservas de valor (ouro, prata) e ativos de renda varáveis ligados à cadeia de suprimentos essenciais no contexto da economia externa, além de criptoativos como fatores dentro de uma estratégia barbell.

Por Leonardo Amorim, Corecon 4942

______

Notas:
1.Nota do Copom em 17/03/2021;
2, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro;
3. IGP-M de março/2021;
4. Estatísticas fiscais;
5. Receita Federal anuncia prorrogação do prazo para pagamento dos tributos que compõem o Simples Nacional;
6. Com a colheita na parte final e apesar dos atrasos nos trabalhos por conta do excesso de chuvas, o Brasil deve encerrar a temporada com safra recorde de soja.
7. DATAGRO estima safra 2020/21 de soja em 135,47 mi t; consultoria reduz projeção do milho, mas mantém recorde. No total das duas safras do cereal, País deve colher 109,30 mi t.
8. Cepea, 1º/04/2021 – Os preços do bezerro seguem em forte movimento de alta no mercado brasileiro, renovando os recordes reais da série histórica do Cepea. Nesta semana, o Indicador do bezerro ESALQ/BM&FBovespa (animal nelore, de 8 a 12 meses, Mato Grosso do Sul) ultrapassou a marca de R$ 3 mil por cabeça. Segundo pesquisadores do Cepea, esse cenário se deve à oferta de bezerros abaixo da demanda por novos lotes de reposição. Ressalta-se que o valor recorde de animais de reposição e as também recordes cotações de importantes insumos da alimentação pecuária – como milho e farelo de soja –, por sua vez, deixam pecuaristas terminadores em alerta.
9. .Ver Ministro da Saúde explica combate à pandemia – 31/03/21 e O ministro Marcelo Queiroga (Saúde) disse na 4ª feira (31.mar.2021) que o país deve receber 25,5 milhões de doses das vacinas contra a covid-19 em abril. O número representa uma redução de 46% sobre o cronograma previamente apresentado para o mês;
10. Ver comparação de 03/03/2021-17/03/2021 com 18/03/2021-03/04/2021 no LocalizaSUS.

 

 

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *