Desde que comecei a trabalhar para profissionais de contabilidade, há três décadas, testemunho queixas sobre o que se entende por “desvalorização” do contador em torno de uma sociedade com relativas práticas de mercado. Atualmente as questões mais frequentes dizem respeito aos preços praticados na “contabilidade online” que, no entendimento de muitos, provoca o que denominam de “uberização” de serviços.

Legítimos aspectos éticos são suscitados em torno do assédio a clientes por parte de profissionais. De fato, um código de ética norteando a abordagem com não clientes não deixa de ser imprescindível diante de uma competição natural de mercado, embora muitos pensem que contadores não oferecem serviços sujeitos às leis de mercado. Porém, não raramente, se ignora que a competição, sendo um fenômeno que dá sentido ao mercado, significa que todo indivíduo tem o direito natural de fazer escolhas sobre bens e serviços; não há nenhum problema relevante de ética se um paciente decidir procurar outro médico como forma preventiva diante de um determinado parecer, e assim deveriam entender profissionais de contabilidade que se sentem ofendidos quando um cliente procura outro profissional para fazer uma consulta em torno de uma determinada dúvida ou até mesmo quando decide eleger outro profissional para lhes dar assessoria permanente.

Com preços de determinados serviços cada vez mais em queda, o tabelamento [1]  ainda é uma ideia que de vez em quando observo. Talvez seja um caso para terapia cognitiva comportamental, em se tratando de um “pensamento automático” no controle de preços como “solução”, distorção de entendimento sobre o que é o mercado, algo que, infelizmente, ainda tem relevante espaço entre contadores, de debutantes a mais experimentadoso que não me causa surpresa considerando que estão em uma sociedade sob grande influência positivista, onde questões econômicas se “resolvem” na base da “canetada”, refletindo tão-somente uma mentalidade intervencionista [2] ou de planejamento central (socialismo). Perdoem-me o trocadilho: fixar preços mínimos para tentar resolver um sintoma de desvalorização no mercado é algo tão consistente como dar  uma “marretada” em um balanço. Outros parecem acreditar mais em uma fiscalização dos CRCs mais rigorosa, aplicando o código de ética para combater o que entendem por “aviltamento”  e/ou  “concorrência desleal”, este último termo ligado ao corporativismo inevitavelmente legalista em função do que significam os registros em conselhos profissionais que gozam de monopólio: reserva de mercado.

Com a maior frequência de escritórios oferecendo serviços online por necessidade imposta durante a pandemia, muitos perceberam que o mercado contábil é bem mais amplo, dinâmico, do que imaginavam, pois ficou claro que não importa tanto onde se esteja e sim a capacidade de atender clientes usando ferramentas de vídeo conferência a sistemas na nuvem, externando assim uma verdade que torna mais fácil a compreensão sobre a inviabilidade de controles de preços na imensidão de ofertas e inovações fluindo livremente, queiram os intervencionistas ou não, desapontando quem tem esperança em uma antiga tese coletivista de que “a união faz a força”, vez ou outra lembrada por contadores pensando que podem combinar preços de forma eficaz em uma determinada localidade, ignorando um mundo de concorrentes em uma escala  que torna impossível qualquer planejamento de preços em forma de cartel. Sendo a ideia de se tabelar preços  inviável quando se tem um mercado relativamente livre, lição básica de economia, porém, pensando em uma sociedade sem essa relativa liberdade econômica ou seja, com um grau maior de socialismo onde, parece, muitos defensores do tabelamento desejam viver e impor aos outros, preços fixos para serviços contábeis estariam na cadeia de custos sem existir mais a busca por competitividade natural de preços por parte dos tomadores, ou clientes: então ao determinar um piso x para um serviço y, ofertantes (contadores) estariam dentro de um acomodado esquema de preços mínimos, quando não ainda afetados por efeitos de um “mercado paralelo”, podendo até se pautar no aumento do lucro pela busca contínua de redução de custos (algo duvidoso dentro de uma sociedade pautada em controles de preços que envolvem quase sempre insumos gerando ainda mais tabelamentos), enquanto que o meio produtivo, o tomador dos serviços, ficaria refém de contadores representando sempre um custo fixo cujo dano econômico seria o de não poder se ajustar na necessidade de redução de custos administrativos, visando maior competitividade, coisa que vai se tornando cada vez mais difícil de ser obtida na medida em que a sociedade vai adotando mais planejamentos centrais sobre os mercados.

Fato é que muitos contadores parecem cada vez mais incomodados com preços de serviços em declínio, em meio a dificuldades na compreensão de fenômenos econômicos em torno da escassez e da abundância dentro de um mercado consumidor, onde estão aplicadas as leis naturais da oferta e da demanda. Para entender melhor o que está acontecendo, preciso voltar ao início dos anos 1990, quando era normal um contador padronizar o preço de uma “escrita” a partir do “salário mínimo”. Não é raro ouvir de contadores veteranos um certo saudosismo dessa época que começou a ter seus dias contados a partir do momento em que microcomputadores mais avançados, usados nos EUA e na Europa, começavam a ser oferecidos legalmente no Brasil, aumentando fortemente a oferta; era o fim da “reserva de mercado” criada na “Política Nacional de Informática” [3], um socialismo de TI que se tornou herança maldita do final do regime militar (1964-1985). Com a oferta de computadores mais avançados sendo ampliada, muitos escritórios até então abarrotados de máquinas de datilografia e arquivos imensos, se depararam com uma oferta de computadores mais modernos, com preços mais acessíveis. Em seguida se tornou mais frequente o processamento em banco de dados usando sistemas de contabilidade que também se tornaram mais populares, não por acaso em um mercado em forte expansão. O que quero dizer é que a partir do início dos anos 1990 se intensificou um processo de mudança radical nas estruturas de escritórios de contabilidade que foram ficando cada vez mais tecnológicos, ágeis, munidos de computadores mais atualizados, rápidos, com sistemas operacionais mais amigáveis, aplicando escriturações mais avançadas explorando cada vez mais a TI para fazer economia de escala gerando um aumento de oferta de serviços contábeis por meio de uso massivo de tecnologias combinadas. A internet tinha aportado no Brasil em setembro de 1988 mas só se popularizou em 1996 [4], representando o maior de todos os impactos para serviços contábeis: começavam a se popularizar formas de atender clientes por meio não presencial, desde o e-mail, passando por serviços em sites até chegarem os primeiros sistemas na nuvem, expandindo mercados e, consequentemente a visão do que se tinha por oferta de serviços contábeis focada apenas em clientes locais. Em suma, o fim do socialismo de TI, do regime militar, possibilitou um trio revolucionário que consiste na popularização de computadores mais avançados, o despertar do mercado de sistemas de contabilidade bem mais acessíveis por preços e opções diversas, em comparação com os anos 1980 onde havia um punhado de empresa desenvolvedoras e, o terceiro elemento, a internet mais acessível a partir de 1996 que mudou para sempre o conceito de serviços em escritórios que foram aprendendo a processar cada vez mais dados como menos empregados, maior eficiência, menor tempo e menor custo. Escritório de contabilidade se tornou um negócio cada vez mais interessante pelas facilidades que as tecnologias recentes passaram a oferecer, no entanto isso certamente provocou um boom, um aumento de oferta, ainda levando em conta que os que já estavam no mercado ampliaram o potencial de atendimento. No lugar de salas cheias de datilógrafos, operadores de mecanografia e de máquinas copiadoras, ficaram operadores de sistemas, programadores, especialistas em bancos de dados, redes e internet, com contadores cada vez mais trabalhando em níveis de escala e aprendendo a lidar com arquivos digitais. Muitos que reclamam dos preços em queda parecem não perceber que passaram por um mercado em expansão e que a redução de custos  e as facilidades atraíram muitos empreendedores contábeis enquanto trouxe grandes benefícios ao meio produtivo brasileiro na ampliação de oferta gerando mais competição, e preços caindo, apesar de estarmos no país que tem a burocracia fiscal mais insana do mundo.

Em paralelo a essa revolução dos anos 1990, um fenômeno correu silenciosamente, para a maioria, enquanto foi concebido como um negócio altamente lucrativo para uma minoria de lobistas: o fisco se aproveitou das tecnologias massificadas com computadores, sistemas e internet, para intensificar um processo de transferência de muitas tarefas burocráticas, até então realizadas por fiscais nas repartições, para escritórios de contabilidade fazerem, acelerando assim a conversão de contadores em despachantes. Dentro de uma sociedade que está gravitando em torno do Estado, o fisco tratar o contador como despachante é uma coisa antiga; as tecnologias avançadas entraram no contexto para acelerar esse processo. Não por acaso, obrigações acessórias em meio digital aumentaram bastante a partir desse período, tais como o Sintegra, o SEFIP substituindo o REMAG, o aumento da complexidade de declarações de IRPF, IRPJ, outrora em meio físico; multiplicaram-se leiautes para atender exigências dos fiscos e a apoteose desse manicômio travestido de  “progresso” se deu na criação do Sped em 2007, o Big Brother Fiscal, não por coincidência lançado por um governo petista [5], que vem se expandindo desde então, apesar da mudança para um governo de “conservadores nos costumes”  e “liberais na economia”Se por um lado a popularização do trio revolucionário (computadores/sistemas/internet) trouxe benefícios ao meio produtivo, reduzindo custos com a burocracia, onde serviços contábeis se situam, por outro lado apressou a ida de contadores para uma armadilha na medida em que as obrigações acessórias foram ficando cada vez mais intensas, complexas, os alienando da contabilidade propriamente dita, para servirem mais como fiscais terceirizados dentro das empresas, atendendo a interesses dos fiscos municipais, estaduais e, principalmente do federal. No entanto, para conseguir isso, a estrutura dos fiscos usou, ardilosamente como linhas auxiliares, entidades como CFC e CRCs, que só existem por causa dos privilégios que possuem através do Estado, em respeito aos monopólios para regular, fiscalizar e arrecadar (anuidades) [6] em um sistema de parasitas similar ao do funcionalismo dito “público” consumidor de impostos; então, não surpreende que tais entidades passaram a disseminar processos de conversão de contadores em despachantes, subservientes aos fiscos, e é neste ponto que começa o maior drama da desvalorização de profissionais de contabilidade na sociedade brasileira: estão perdendo a identidade. O contador, vulgarmente chamado de “contabilista”, na visão burocrata de Estado, não passa do que Gramsci chamava de “instrumento”.

Na medida em que profissionais de contabilidade foram se ocupando cada vez mais com dificuldades criadas pelo aparato do Estado, a percepção do meio produtivo da relevância de contadores foi se ofuscando. Ocorreu um aumento da distorção de entendimento do leigo sobre o que faz um contador de verdade, agora mais concebido como um profissional explorador da burocracia que pode ser encontrado em qualquer esquina munido de um CRC; um elaborador de guias de recolhimento que passou a ocupar um espaço de um profissional essencial para toda sociedade que queira prosperar economicamente, ajudando agentes produtivos a conhecerem melhor os resultados de seus negócios. Juntem-se nesse processo a massificação de tarefas burocráticas cada vez mais próximas do conceito de commodities ou seja, padronizadas, com larga oferta de TI para realizá-las, além dos próprios entes fiscais oferecendo aplicativos formando um conjunto de fatores que ampliaram enormemente a oferta de serviços provocando abundância no mercado, derrubando preços de commodities da burocracia. A padronização e a coerção (obrigação de fazer) inevitavelmente impulsionam mais competição por preços.

Não se deve confundir preço com “valor”, pois este segundo elemento se forma na percepção do tomador em analisar e estimar a capacidade de retorno se consumir determinado bem ou serviço. O preço é um fator à parte. Os preços em queda são sintomas da desvalorização do que se entende, de forma distorcida, por “contador”, mas não significa uma desvalorização geral entre esses profissionais. A desvalorização do contador é um fenômeno sociológico que envolve uma confusão de entendimento de quem toma serviço e não diferencia quem faz contabilidade de quem realiza tarefas meramente burocráticas convertidas em commodities de serviços fiscais. Em outras palavras, o contador está desvalorizado quando é visto, tratado, concebido apenas como um despachante ou, usando um termo mais antigo, “darfista”. O contador que faz contabilidade [7] segue valorizado e está cada vez mais raro, podendo ser visto em companhias que demandam contabilidade para múltiplas finalidades, e não apenas ao fisco, muitas encontradas na bolsa de valores.  Os preços de determinados serviços padronizados fazem parte de um outro problema, secundário, de mercado que está sob larga oferta diante da demanda, algo que se agrava ainda mais em tempos de recessão. Neste contexto, muitos concebem o termo “mercado” como se fosse uma personalidade, com vontade própria, ou até mesmo uma divindade em um “ser pessoal que se revela”, interpretando equivocadamente a “mão invisível” (Adam Smith): o mercado é uma infinidade de combinações entre agentes econômicos ofertando e demandando bens e serviços, sendo naturalmente volátil, um tanto imprevisível, produtor de momentâneos resultados por combinações de interesses sob “dispersão de conhecimentos”, aqui tomando por empréstimo um termo caro à F. A. Hayek.  Em suma, o mercado nos diz, instante a instante, como estão as relações de oferta e demanda através dos preços praticados.

Menciono “determinados serviços” porque se trata de um fenômeno que não é genérico. Há serviços que, observo, estão em viés de alta na precificação. No bojo da questão dos preços em queda está a massificação de tecnologias que reduzem a necessidade de recursos humanos, sobretudo às de baixa demanda de capital (humano); refiro-me às atividades que se concentram em tarefas onde há muita repetição, tais como escrituração de registros fiscais, contábeis e trabalhistas, elaboração de arquivos digitais ao fisco, emissão de guias de recolhimento, cálculos de impostos, folhas de pagamento e até relatórios gerenciais por meio de algoritmos. Os ganhos de escala são formidáveis quando se tem sistemas integrados captando dados em múltiplas plataformas, possibilitando que mais serviços sejam realizados com menos recursos financeiros, humanos e de tempo. Então, combinando o avanço tecnológico com um mercado relativamente livre de interferências diretas nos preços, cuja concorrência mesmo sendo comprometida com a reserva de mercado dos conselhos regionais, levando em conta a grande oferta de empresas e profissionais de contabilidade, se torna possível começar a compreender certos elementos que implicam na tendência de queda de preços. Digamos que a empresa de contabilidade x oferece realização de tarefas de burocracia fiscal, consultorias, análise de finanças e cálculos de retorno de investimentos,  enquanto outra empresa contábil y se pauta apenas em tarefas de preenchimento de guias de recolhimento ao fisco. Dependendo da forma como o lado tomador analisa a utilidade ou capacidade de retorno de serviços, se for um gestor que preza por adequados controles contábeis e boas práticas administrativas, seu perfil será pelo escritório x, onde o preço se torna menos relevante diante dos benefícios estimados, no entanto, se for um empresário comum, mais fácil de ser encontrado, que não tem apreço por controles contábeis e entende que o contador é apenas um “darfista” registrado no CRC, não verá sentido em ter os serviços do escritório x, e certamente ficará mais interessado no escritório y, assim como todo “contador” que tiver o mesmo perfil, resumindo a decisão mais se baseando no preço. Determinados serviços oferecidos pelo escritório x são mais escassos, oferecidos por profissionais mais qualificados, mais raros, e assim na relação de oferta e demanda tendem a ter preços maiores. No caso dos serviços do escritório y, há uma vasta oferta; em qualquer esquina podem ser encontrados e os recursos humanos aplicados estão em um nível de qualificação muito inferior. Em outras palavras, quando o assunto é “desvalorização do contador”, jamais se deve colocar todos no mesmo pacote. Há profissionais em alta de preços, experts que podem ser encontrados em consultorias para gestão tributária, assessoria econômica, análise  de dados, integração de sistemas por diferentes banco de dados, além do outro lado da contabilidade, por sinal pouco praticado; a interpretação de peças produzidas (demonstrações). Então, o lado que opera em preços sob viés de alta, forma uma oferta por demais escassa, o que explica a  valorização pelos preços enquanto o “contador” que reclama é o despachante ofertante de commodities fiscais e trabalhistas que está no lado da “manada” do mercado, lidando com concorrências que exploram tecnologias cada vez mais redutoras de custos, voltadas para serviços de pouca relevância para o setor produtivo em um cenário bem mais agressivo em termos de competição sob baixa qualificação.

Quanto a profissionais que se concentram apenas na exploração de commodities, cabe mencionar um estudo de Oxford (setembro/2013) que estimou (Gaussian process) em 99% [8] a total substituição de operadores humanos por métodos de automação computacional em serviços de preparação de guias de impostos (tax preparers).

Contadores foram estimados sob 98%. Os assistentes contábeis que operam com documentação, planilhas e bancos de dados, também foram estimados em 99%. Fatalismo dos autores do estudo (Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne)? São estimativas, probabilidades que devem ser consideradas sempre com as devidas ressalvas de que vivemos em um mundo altamente sujeito a aleatoriedades, no entanto, servem de alerta para os que estão deslumbrados com a TI e o aparato criado pelo fisco, enquanto ignoram a contabilidade voltada ao meio produtivo.

Um outro problema diz respeito a um desdobramento do Big Brother Fiscal: os contadores foram transformados também em delatores, sendo um problema que agrava a desvalorização no mercado. Muitos empresários escondem dados de contadores com receio de que os profissionais, ao notarem evolução patrimonial, venham a pleitear maiores honorários, contudo este problema aumenta bastante quando se tem profissionais de contabilidade que entregarão dados de transações comerciais, muitas sigilosas, por meio de escriturações no âmbito do Sped. Penso que são problemas éticos que cabem aos profissionais da área uma avaliação constante.

O “caminho das pedras” para a tão desejada valorização entre contadores está na reflexão profunda sobre o papel do contador em uma sociedade produtiva e o que o aparato do Estado está fazendo com os profissionais. Os preços de determinados serviços são sintomas periféricos diante de um sintoma maior pouco levado a sério, quanto à percepção da sociedade acerca do que faz um contador, apontando a uma doença grave que está matando a identidade do profissional de contabilidade, colocando em seu lugar o despachante com CRC.

______________________________

Notas:
1. CFC. Aviltamento de Honorários;
2. Quando se fala em “preços de mercado”, é comum ver o problema ligado apenas aos preços para o consumidor final. O “mercado” envolve inúmeros mercados sequenciados, na cadeia de produção, e tentar regular preços na ponta de consumo, é desconsiderar que a cadeia de custos opera sob diversas relações de oferta e demanda precedentes às do consumo final.  Fixar arbitrariamente um preço x para um serviço y, não tendo como determinar preços de todos os fatores da cadeia de custos, iniciará um processo de travamento e destruição da cooperação produtiva com base na divisão do trabalho. Cabe ressaltar que a analogia do “tabelamento” de preços com o que o governo Sarney impôs nos anos 1980, sem dúvida, é algo impróprio ao caso da crença no tabelamento de preços mínimos, observada no meio contábil. O que era atribuído à antiga e extinta Sunab estava em função de um limite (teto) para preços ao consumidor e no caso contábil, a ideia consiste em fixar pisos para honorários. No entanto, o tabelamento de Sarney serviu para enriquecer manuais de economia com casos práticos sobre receitas socialistas que provocam o desastre chamado “desabastecimento”. Quando uma autoridade central determina preços, agentes econômicos se voltam a reavaliação de custos e a viabilidade de manter a produção e a distribuição. Como o planejador central não tem como saber todas as variáveis que formam os preços na “microeconomia” e entre os múltiplos fatores de produção,  sem o  “cálculo econômico” feito em “tempo real” em cada etapa, agentes ofertantes e insumos ficam desnorteados com a informação do preço final tabelado limitando os processos, algo que impacta todo a  avaliação e tomada de preços de insumos, e sem ver sentido econômico para o negócio, tendem a interromper a produção para conter prejuízos, quando não, buscam outros mercados onde os preços são livres. Tais agentes se comportam assim porque visam retorno econômico de seus negócios (em meio a cooperação baseada na divisão do trabalho), pois caso contrário, destruirão patrimonialmente os negócios e a si mesmos. A falta de preços nas relações de oferta e demanda, inviabiliza o acesso a um conhecimento essencial sobre custos em cada elemento da cadeia produtiva. A falta dessa referência vai inviabilizando o cálculo das margens de lucro, de maneira que resulta em falta de agentes dispostos a ofertar insumos na suficiência da demanda de produção, e então o processo descamba na ponta de oferta ao consumidor final, ocasionando desabastecimento, forçando o fenômeno vulgarmente conhecido por “inflação” (preços em viés de alta desvalorizando a moeda), dado o aumento da escassez de bens de consumo, selando finalmente o ciclo de fracasso do tabelamento. A ideia de um “tabelamento” de preços partindo de pisos para serviços, embora diferente da ideia do socialismo de Sarney nos anos 1980, é também uma forma de tentar subverter o funcionamento do mercado cujos preços se formam em ordem espontânea de uma sociedade baseada na cooperação entre agentes econômicos que visam os próprios interesses servindo uns aos outros. Preços funcionam como termômetros da economia ou seja, sinalizadores na oferta e na demanda; são faróis em um imenso oceano de negócios para empreendedores e demandantes de bens e serviços tomarem decisões;
3. Ver Lei 7.232/1984;
4. A obra “Internet: O que é, o que oferece, como conectar-se”, de Érico Guizzo, traça um histórico do desenvolvimento da internet no Brasil. A Bitnet em 1981 foi uma predecessora que conectava a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) ao Fermilab, laboratório de física especializado em partículas atômicas, Illinois/EUA;
5. Ver Decreto 6.022/2007;
6. O estímulo maior nos conselhos é agradar mais aqueles que fazem parte da estrutura que lhes concede o monopólio para regular, fiscalizar e arrecadar. Os pagadores de anuidades estão em um nível muito inferior, vitimados pela coerção (das anuidades)  como condicionante para exercerem a profissão legalmente. Para mais detalhes: Sobre os conselhos profissionais
7. Perdão pela redundância, mas em minha vivência diria que contabilidade não é uma coisa muito popular em escritórios de contabilidade;
8. Ver THE FUTURE OF EMPLOYMENT: HOW SUSCEPTIBLE ARE JOBS TO COMPUTERISATION?∗Carl Benedikt Frey†and Michael A. Osborne‡ September 17, 2013.

Comentar pelo Facebook

3 Replies to “Valor em serviços contábeis”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *