Hoje é o dia dela…justamente ela, esquecida, desprezada, abandonada, inclusive em escritório que usam o dome dela, quando não obra de ficção.

Alguns a confundem com burocracia. Outros pensam que ela se resume a calcular impostos e elaborar guias de recolhimento.

Muitos que deveriam cultiva-la estão distantes dela a ponto de perderem a identidade profissional se garantindo em coisas legalistas, aparentes e frágeis tais como um diploma e uma carteira do CRC. Não a vivem, não a praticam, não a celebram, não aprendem todos os dias com ela.

A distância dela é tão oceânica que muitos até se acostumaram com o impróprio termo “contabilista”.  Quando vejo um contador se apresentando como “contabilista” ou um professor dela usando este bisonho termo, quase sempre deslumbrado com coisas que são secundárias no universo dela, me vem à mente Confúcio, citado por Hayek [1]: “Quando as palavras perdem o significado, as pessoas perdem a liberdade”. E essa liberdade de ser parece ter se perdido com a conversão do contador/técnico em instrumento do aparato estatal.

Um sinal desses tempos de exacerbada indiferença com ela consiste em frequentes casos de profissionais que não sabem mais aplicar, com precisão, muito menos defender na sociedade, o caríssimo princípio da entidade, além do clássico caso onde não se consegue mais definir o que é débito e crédito; refiro-me a pessoas diplomadas, “formadas” em nível “superior”.

Então hoje é um dia apropriado para registrar aqui o meu lamento ao ver que ela hoje anda com o ibope tão em baixa na vida de muitos que tomam seu nome por empréstimo, nas denominações de seus escritórios. Fora do universo da bolsa de valores ou de grandes companhias, está cada vez mais difícil encontrar escritório ou contador a realizando de forma plena, além da escrituração, no sentido explicado pelo grande Antônio Lopes de Sá:

Vejo uma alarmante quantidade de contadores, técnicos, não raramente afeiçoados ao termo “contabilista” [2], que sequer querem pensar nela neste sentido. Quando se fala em livro diário, balanço, demonstrações e análises, parecem até coisas ofensivas, e penso que isso ocorre porque estão intoxicados com a ocupação gramsciana do fisco em um ambiente viciado de negócios sob intensos controles do Estado, com empresários temerosos com o contador/técnico instrumentalizado como delator e/ou entregador de segredos comerciais e industriais por meio das “obrigações acessórias” do Sped. Trata-se de um quadro complexo e de difícil superação.

Pergunto: Qual o principal papel do contador em uma sociedade? E pergunto também qual seria o principal papel de um médico no mesmo contexto? Seria se contentar em preencher formulários para o SUS? Bem, muitos pensam que o contador não passa de um “médico” do patrimônio que só preenche formulários ao fisco sendo visto como um “mal necessário”.

Então, mais uma pergunta: Você se consultaria com um médico que não pratica medicina, não sabe diagnosticar com relativa precisão, nem consegue passar uma boa receita, sequer tem a capacidade de desenvolver um tratamento, porque se especializou em preencher formulários para o governo e se distanciou da vivência com a medicina? Tem gente que acha normal contador não praticar contabilidade e viver como despachante do fisco.

Um sintoma grave desse distanciamento pude ver há alguns anos partindo da base, quando um jovem recém formado me disse que trabalharia só com empresas do SIMPLES para não ter que “fazê-la”. Foi triste ouvir isso, a começar pelo equívoco de achar que empresas no SIMPLES não precisam dela, sem aqui pontuar o mérito da obrigação do ponto de vista legal.

Uma sociedade que não a leva a sério está comprometendo as maiores chances de ter progresso na economia porque ela dá às ciências econômicas determinados sinais ou indicadores para orientar a gestão e as análises dos negócios mediante os métodos de cálculo econômico, onde Ludwig von Mises afirma [3]:

Sem ela, quem administra se sente em um avião sem piloto para interpretar os instrumentos, identificar a altitude, a direção, a velocidade e as condições do tempo… Quem entraria em um avião assim? Pois é… Sem ela e sem o contador não dá.

Jogada ao léu para muitos, deturpada por quem ocupa espaço se dizendo defensor dela, conservada com maestria por poucos abnegados, preciosa para mim como investidor e desenvolvedor.

Viva a Contabilidade! Salve 25 de abril!

Bom domingo a todos

 

__________

Notas:
  1. Os erros fatais do socialismo. Capítulo 7: Nossa linguagem envenenada;
  2. Talvez este termo tenha uma certa utilidade em um contexto de indivíduos de contábeis alienados em relação ao que é a Contabilidade;
  3. Ação Humana, Capítulo 13, O Cálculo Econômico como um Instrumento da Ação.

 

Comentar pelo Facebook

Comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *