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Do alto da montanha, sob a graça dominical da terceira sinfonia de Beethoven, sem ser incomodado com visitantes peripatéticos que só querem consolo com seus políticos de estimação, este velho eremita está a meditar no livro do espirituoso Indro Montanelli [1] ao contar a tragédia da lendária dama romana Lucrécia, senhora esposa de Lúcio Tarquínio Colatino,  filha de Espúrio Lucrécio Tricipitino, prefeito de Roma à época.

Em campo com os soldados, em meio às habituais guerras por conquistas de territórios, Sexto Tarquino, filho do rei Lucius Tarquinius Superbus (535 – 496 a.C.) mais conhecido como Tarquínio, o Soberbo, que adorava confiscar bens de quem não lhes rendia apoio, jogava conversa fora com seu sobrinho, o prefeito da cidade, Lúcio Tarquino Colatino, sobre as virtudes de suas respectivas esposas, cada um, claro se auto proclamando um “bom marido”. Montanelli diz que provavelmente os dois conversavam em uma tenda mais ou menos assim: “a minha é uma esposa honesta. A tua deve te colocar chifres.”. Bem, é o estilo de Montanelli… Decidiram então fazer uma aposta e naquela noite voltaram do acampamento de guerra para tentar surpreende-las quem sabe as flagrando em algum ato de infidelidade. Encontraram a mulher de Sexto se banqueteando com amigos, se aproveitando da “viuvez temporária” (Montanelli de novo ilustra a situação com a ironia italiana peculiar), se desejando cortejar. Já a esposa de Colatino, Lucrécia, como uma exemplar dama romana, foi vista em casa costurando uma roupa para o marido vestir, quem sabe após retornar de uma batalha. Colatino ficou orgulhoso por ter vencido a aposta, mas Sexto não se deu por vencido e passou a seduzir a prendada Lucrécia que tentava resistir às investidas, porém “um pouco com violência e outro pouco com astúcia”, Sexto venceu a resistência. A dama então chamou o marido e o pai, que também era senador, e contou o ocorrido. Em seguida, movida pelo desgosto profundo se matou apunhalando o coração.

Na luta política pelo poder, oportunidade e falta de escrúpulo costumam estar do mesmo lado e tal ocorrência costuma não poupar sequer familiares. E eis que o suicídio de Lucrécia acabou sendo usado para arquitetar um golpe de Estado; a tragédia familiar alimentou uma trama política contra o monarca, movida por um familiar, Lúcio Júnio Bruto, sobrinho do rei, que tinha assassinado o seu pai, viu uma oportunidade para se vingar com a “infâmia” sobre Lucrécia atingindo a cúpula do poder e assim reuniu o Senado, contou tudo e propôs a remoção do rei e a expulsão da cidade de toda a família real (exceto a dele, claro, visto que era sobrinho do rei). O rei então ficou sabendo da trama e tentou restabelecer a ordem na cidade enquanto as legiões, que compunham as força armadas, se rebelaram com a situação ficando caótica, e assim saíram do campo de batalha e marcharam para a cidade. O rei, percebendo que tinha perdido o controle da situação, fugiu desesperado para pedir hospitalidade a Porsena, primer magistrado da cidade de Clusium.

E caiu Lúcio Tarquínio Soberbo, o último rei de Roma; foram sete durante 246 anos. Em seguida, proclamaram a República que assim nascia na Cidade Eterna 509 anos antes de Cristo.

 


Notas:
  1. Obra: Lucrécia (1664) de Rembrand (Países Baixos/Leiden, 1606-1669)
  2. História de Roma, do historiador e jornalista italiano  Indro Montanellim (Itália/Fucecchio (1909-2001), edição em espanhol;

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