Do alto da montanha vejo uma sombra de coisas em que se é possível encontrar imediata e fatal distração se convertendo em alienação. Na antiga Roma, ir ao Colosseo era a diversão mais útil para o Imperador manter o povão no cabresto e inibir o contrapeso virtual de opositores no Senado. Então, no Colosseo literalmente era distribuído o alimento (“pão”), ficando o “circo”  em uma arena sangrenta com gladiadores se matando, quando não cristãos jogados às feras e às espadas, no tempo em que a fé em Cristo se convertia em crime contra o estado.

E da antiguidade até nossas dias, não mudou muita coisa na essência: meliante mirando uma vítima vai procurar distraí-la para em seguida furtá-la e políticos fazem a mesma coisa com as ideias perante eleitores. Isto posto, as distrações mais comuns continuam advindas do mundo político de governos que aprimoraram as narrativas alienantes, a corrupção e o corporativismo. Panem et circenses na terra brasilis costuma ter o rótulo de “futebol e carnaval”, outrossim tal fenômeno vai longe desta caricatura e pode ser obtido por outros pares, digamos bem mais eficientes e um tanto mais ideológicos, em ideias de “justiça e igualdade social” e no trato da “Constituição Cidadã” como obra sagrada, a mesma que sacraliza a democracia e o sufrágio universal os confundindo com liberdade, formando gerações de brasileiros positivistas, progressistas, socialistas que, paradoxalmente, muitas vezes dizem ser contrários a tais abstrações quando não acusando os outros de sê-los partidários delas quando entram em contradição. Essa educação é um processo de perversão planejada que se impõe pelos controles do estado regulando o ensino para preparar as mentes a permanecerem nas distrações em torno de ideias de políticas “públicas” que são disseminadas no intuito de fazer parecer “boas” as intenções, conclusivas e impreteríveis, por discurso corporativo colocado em evidência, sendo os resultados não necessariamente importantes, dependendo das conveniências de quem está promovendo o estelionato ideológico e dá as cartas no poder. O típico bem formado cidadão doutrinado pelo panem et circenses hodierno se torna então protagonista de acaloradas discussões, sobretudo nos maiores centros de encontros de imbecis inventados pela humanidade, mais conhecidos como “redes sociais”, com seus patrulheiros de plantão para cada espaço de ideias; são formadores de opinião, talibãs digitais com rótulo de “doutores”, entre outros editores da sociedade, cada um tomando conta de suas respectivas bolhas ou currais de seguidores, conduzindo seus infantilizados sobre temas diversos tais como renda básica universal, taxar os mais ricos, criminalizar a homofobia,  estatização, privatização, criminalização da ofensa ou da opinião,  regulamentação de inúmeras atividades regendo adestrados de esquerda, direita, centro, , liberais, (neo)conservadores, libertários no jardim da infância, não importa, todos em movimento por um cercadinho que os faz se sentirem mais seguros, uns crentes em “coerção do bem”, outros ingênuos defensores da liberdade com políticos “liberais”, como se os dois termos pudessem ser conciliados, tudo compondo uma imensa distração formando batalhões de idiotes a serviço do aprimoramento do poder de políticos que devem se divertir muito os assistindo em uma espécie de “Colosseo digital” em pleno século XXI.

Todavia, não conheço panem et circenses mais eficiente para aprofundar a estupidez e a escravidão de um povo que os programas de “benefícios sociais” do tipo “bolsa família”, e agora o tal do “Auxílio Brasil”.  Primeiro, prendem os “cidadãos” na ideia de que o estado pode custear suas despesas sem onerar a vida econômica enquanto os aprisiona em mais controles sociais na fiscalização dos recursos alocados, pelo que representa o aparato estatal sustentado por pagadores de impostos naquela ficção dita por Claude Frédéric Bastiat [1]. Segundo, os benefícios sociais transmitem a aceitação em massa de uma forma de deseducação sistemática em economia elementar, no sentido de passar a ideia de que o estado gera riqueza, dando um sentido moral à distribuição de dinheiro. Terceiro, a prática ajuda a outra distração não menos nociva: a de que déficits orçamentários do estado são necessários e meramente “administráveis” sem causar sérios dados a quem sustenta o estado enquanto beneficia quem empresta recursos ou seja, investidores que se aproveitam rapidamente da expansão monetária (outra prática de panem et circenses) para  adquirir títulos do tesouro. Então, todo político raposeiro sabe que distribuir dinheiro por benefícios sociais é a arma mais poderosa para corromper e distrair o povo conservando o próprio poder. Diga-se de passagem que a própria atividade política tem enorme utilidade para distrair multidões em torno de ideias que implicam esperanças em soluções imediatas para complexos problemas da sociedade. A massa distraída pelas ideias enquanto com supostas “boas” intenções, acaba cedendo à concepção de que políticos são mais importantes do que realmente são.Para que a crença em um “homem forte” no poder se consolide é um passo não muito distante; é  o que ocorre com um típico militante bolsonarista, lulista, petista, psolista, cirista ou qualquer outro “ista” esperançoso em conceitos personalistas que intoxicam ainda mais suas mentes de panem et circenses enquanto seguem em uma manipulação no jogo de poder.

Um outro panem et circenses pode ser verificado, sendo muito mais pontual, setorial e , até certo ponto, imperceptível para muitos; diz respeito ao meu amigo de infância e àqueles que vivem em torno das coisas criadas pelo aparato estatal para impor dificuldades a quem efetivamente gera riqueza, para que sejam vendidas facilidades por quem vive da hiperburocracia que se tornou uma neoplasia maligna na vida econômica deste país. Essa ocupação se torna alienante nas mentes na medida em que vai fechando o ângulo de visão de quem se envolve com as coisas do aparato governamental e, infelizmente, acomete muitos contadores, afins e profissionais de TI que dedicam quase toda a parte do tempo dito “profissional” para lidarem com demandas de burocracia forçadas por governos (públicos). E eis que se torna comum nesse meio encontrar pessoas ocupadas ao extremo, que não fazem outra coisa com a massa cefálica a não ser coloca-la a serviço desse mundo de normas, controles sociais, terrorismo fiscal e muitas obrigações acessórias. Para averiguar tal debilidade mental que acomete esses profissionais, basta observá-los no cotidiano para atestar que não falam e fazem outra coisa na profissão a não ser se dedicarem a questões ligadas ao aparato do fisco. Até mesmo a Contabilidade, ciência caríssima à civilização, se tornou coisa rara entre eles, devidamente distraídos ou “ocupados” com baboseiras do tipo “Sped” e “eSocial”, inúteis, onerosas e inibidoras do meio produtivo, e eis que assim ficam sem tempo para aprimorarem uma formação humana que diria mais intelectual, que possa lhes capacitar como contadores de verdade, munidos com uma disposição para ler o mundo e não ficarem como “papagaios” do fisco, repetindo tudo de cima para baixo. Neste panem et circenses tão sutil, contador que encontra tempo para ler obras clássicas e meditar sobre questões econômicas, filosóficas, psicológicas, sociológicas, entre outras coisas, passam a categoria de alienígenas ou soam como pessoas que não têm o que fazer.  O deus estado consome o contador-massa lhe tirando o potencial de inteligência a ser desenvolvida, o colocando em uma condição de irrelevante no debate sobre os reais problemas da sociedade. Alguns inclusive ficam tão enfermos mentalmente que , embora reclamem o tempo todo que estão “enlouquecendo” com as exigências do fisco, adentram em finais de semana intoxicando ainda mais as suas mentes alienadas com “serões”, cursos para “capacitações” ampliando a já imensa escuridão que os atinge sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo. O panem et circenses deles se fortalece então na crença de que o que estão fazendo é essencial à sociedade; nada mais comum de encontrar a tosca ideia de que sem contador (diga-se de passagem, despachante), o Brasil para como se a burocracia tivesse um fim em si mesma naquela triste confusão de sociedade com governo, enquanto vão se distanciando cada vez mais do mundo real que diz respeito à sociedade produtiva baseada na cooperação livre econômica. O contador-massa hoje está na arquibancada da Arena do fisco, distraído no panem et circenses da que a burocracia é o que lhe dá o sentido de existência. Perigosamente está perdendo a conexão com a ciência chamada Contabilidade.

Porém, nem tudo está fadado a tal perdição na sociedade do eterno panem et circenses, e para começar a se liberar de suas medonhas distrações, nada melhor do que se rebelar quebrando a rotina imposta pelas conveniências do cotidiano profissional intoxicado pelo sistema de poder, mediante um despertar do intelecto para leituras, meditações, reflexões, buscando sempre o conhecimento não o confundindo com informação, em um ato de coragem de ser e estar muito além de bolhas ideológicas em que esta vida terrena pode nos envolver.

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Notas:
  1. “L’État c’est la grande fiction à travers laquelle tout le monde s’efforce de vivre aux dépens de tout le monde”, em “L’état maudit argent”, edição de 1849, página 11.

 

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