Do alto da montanha, como se não bastasse Pernambuco ser um grande centro de comunistas na Banânia, agora vejo duas cidades disputando o “honroso” título de população com o menor QI do estado, enquanto prossigo conferindo a obra “Historia de Roma” [1] do camarada espirituoso Indro Montanelli e eis que me veio à mente o fetiche de “educação militar”, não por coincidência muito comum entre sujeitos que disputam o tal prêmio e que têm o curioso hábito de promover “motociatas”.

Ora, ora, e se para essa tribo de trogloditas políticos a “educação militar” pode ser sinônimo de melhor disciplina para meninos e meninas, vos apresento então um sucinto resumo do modelo suprassumo da coisa, o romano desenvolvido bem antes da formação do império. Para entender um pouco melhor a militar educação romana, preciso mencionar novamente o dito de que “Rome ne fu pas faite toute en un jour” [2] (Roma não foi feita em um dia) e que essa longa construção foi realizada no modo mais comum na antiguidade em função das “guerras de conquista”, que se intensificaram de 343 a 273 antes de Cristo refletindo sobre uma sociedade que se viu na missão de ser devotada a um modelo de poder político cujo estado se modernizou forjado por uma mentalidade de guerra, militarista e isso, obviamente, se refletiu na educação das crianças, em especial dos meninos.

“Viver é um grande perigo” dissera um velho pregador que ajudou a formar este velho eremita e vos digo: as crianças romanas sentiram isso na pele de forma extrema, assim como às de Esparta e de outras culturas da antiguidade baseadas na mentalidade de guerra e escravidão. Um recém nascido em Roma junto com a mãe, na qualidade de mulher casada, ambos eram vistos como propriedades do pai ou líder da família ou seja, um típico chefe de família romana poderia colocar um filho para vender como escravo. Naqueles tempos, nascer com o sexo masculino já dava uma certa posição melhor, menos dramática, em comparação em ser do sexo feminino. Se uma criança nascesse com algum problema físico, seria imediatamente descartada, desprezada pelo pai, ficando à mercê, sem as proteções habituais, abandonada até a morte inevitável. Convém lembrar que a caridade com os mais vulneráveis só seria uma realidade em Roma a partir de quatro séculos mais adiante, com o surgimento de uma fé muito estranha aos costumes romanos: a cristã. Isto posto, um filho varão e saudável então era bem visto pelo pai que, orgulhoso, reunia a família em torno de oito dias de nascido e fazia uma celebração aos deuses. Porém, uma filha saudável não gerava a mesma empolgação. A menina, na medida em que crescia, se envolvia em afazeres domésticos com a mãe até se casar;  o pai de toda moça romana abdicava do direito de propriedade sobre ela, ficando então este exercício com o marido.

Uma família próspera romana funcionava como uma unidade militar, o domus, ou o lar, era uma espécie de quartel familiar e os filhos varões eram tidos como recursos para fortalecer negócios que envolviam uma rígida formação para produzir cultivando a terra e, claro, servir às forças armadas. Como já mencionei, a esposa era propriedade do marido e se fosse flagrada fazendo algo que o desagradasse,  dependendo do entendimento de gravidade que se tinha à época, poderia ser legalmente morta pelo seu proprietário, o marido, sem haver necessidade de um processo judicial de terceiros, pois havia o entendimento de que o marido estava apenas tratando do que era dele, da mulher,  objeto que poderia se desfazer (matar) sem dar maiores satisfações. Adultério era sentença capital na certa. Obviamente que o adultério do marido não tinha qualquer peso em uma sociedade assim.

Entre os meninos não havia mimos. Deviam absoluta obediência ao pai que fazia o papel de professor, senhor de escravo, sacerdote e tudo o que demandava poder, autoridade suprema. O pai também atuava como professor para ensinar as primeiras letras e números, quando não tarefa destinada a escravos. O pai era senhor de escravo para comandá-los no arado da terra; a infância na beira da adolescência significava muita malhação de músculos no cultivo da lavoura. O pai também fazia um papel de chefe religioso, sacerdote, pois estava à frente dos rituais de sacrifícios no lar aos deuses. Uma típica casa romana tinha paredes decoradas com ladrilhos ou adobe, com gravuras ou ícones de deuses e símbolos dos antepassados. Séculos antes da fé Católica cultivar um santo para pedidos específicos dos fiéis, romanos tinham deuses específicos para determinadas ocasiões ou necessidades. Júpiter era cultivado como o rei das divindades, dos deuses, do céu, cuja esposa, Juno, era a rainha de todos, cujo nome foi dado a um mês (Junho, em português). Ela costumava ficar fixa na porta da casa com suas duas faces “vigiando” dentro e fora. Minerva era associada à sabedoria, a guerra e às artes. Na imensa lista, encontramos uma deusa especial para os primeiros passos dos filhos, Pamona; para quem procurava ajuda no aprendizado das primeiras palavras dos meninos, tinha Fabulino. Já a Stérculo, um deus um tanto desconhecido, se pedia por um gado mais produtor de estrume. Para abundância de recursos em geral, se ofereciam “prendas” a Saturno. Como alternativa a pedidos mais específicos, tinha a deusa Ceres; das plantas, dos grãos. Da mesma forma que há São Longuinho no catolicismo para ajudar o fiel a localizar objetos perdidos para em seguida dar três pulinhos, como se vê, os antigos romanos tinham um cardápio religioso bem variado para pedirem auxílio ao sobrenatural em problemas específicos, com sacrifícios ou “prendas” de maneira também similar a rituais que se voltam a entidades em diversas confissões da atualidade. Quando um membro da família adoecia, obviamente aos deuses também se apelava em um tempo em que medicina era uma coisa esquisita dos gregos, sendo as enfermidades vistas como sinais dos deuses indicando que se deveria lhes prestar melhor culto ou mais sacrifícios, visando agradá-los ou acalmá-los, tudo conduzido pela liderança ritual do chefe do domus.

Na formação dos filhos, a complexa religião politeísta romana, que depois seria chamada de “paganismo” no contexto monopolista cristão, tinha a função de ajudar na disciplina. Os pais educadores, quando senadores, eram comumente vistos levando os filhos de sete ou oito anos ao Senado para assistirem ao senatoconsulti. Meninos que sequer tinham chegado à adolescência já discutiam entre si problemas militares, questões do estado quanto à administração, as alianças políticas e militares e, claro, as guerras, que eram intensas. Se os meninos de hoje ficam  no Tik Tok ou discutindo sobre  Messi e Neymar no PSG, os da Roma antiga certamente conversavam sobre quantas legiões seriam necessárias para invadir uma determinada cidade e neutralizar as forças inimigas. Quando chegavam á adolescência, aos 16 anos,  iam aperfeiçoar a educação se alistando no exército. Na Roma antiga os ricos pagavam impostos em regime de proporção; os mais ricos pagavam mais impostos e também na mesma proporção tinham quer passar pelas forças armadas. Um rico tinham que ter no currículo mais tempo no exército que um cidadão menos abastado ou pobre. Se alguém quisesse entrar na carreira “pública” (política) tinha que, obrigatoriamente, passar pelo exército com experiência comprovada de, no mínimo, 10 anos. Para votar também era necessário ter passagem pelas forças armadas com a experiência mínima de soldado. Na estrutura de estado romano republicano, só os mais ricos chegavam ao topo enquanto também ocupavam as altas patentes militares, pois era obrigatório bancar a carreira militar se alguém quisesse subir nos níveis de comando, além de ter que bancar os armamentos pessoais mais caros e se dedicar a estudos e treinamentos que ocupavam muito tempo, enquanto que os mais pobres não podiam se dedicar tanto assim, pois lutavam para não passarem fome em uma sociedade onde a escravidão era um negócio vasto e ameaçador a quem desagradasse o corporativismo em torno do estado. Este velho eremita precisa comentar, não abordado por Montanelli na obra: não foi à toa que Mussolini tinha grande admiração por essa antiga estrutura de estado e combinou muitos elementos na criação do movimento fascista que, em um certo sentido, é um saudosismo ao antigo modelo da república militarista romana.

Por fim, a função do exército não era orgânica e sim baseada na absoluta disciplina. Um covarde ou um subalterno que cometesse algum ato considerado impróprio que desagradasse o comandante, não era tolerado; o general poderia decapitar indisciplinados para dar exemplo aos demais. Desertor e ladrão no exército romano tinha a mão direita decepada como punição. A disciplina no treinamento era tão rigorosa que “todos preferiam o combate”.  A Roma antiga, republicana, aristocrata, de estado corporativo, regida por uma fortíssima mentalidade militar, foi uma construção política para o império e um fetiche para quem tem tesão hoje de ser governado por homens de farda.

 

 

______

Nota:
  1. História de Roma, do historiador e jornalista italiano  Indro Montanellim (Itália/Fucecchio (1909-2001), edição em espanhol;

Comentar pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *