Do alto da montanha hoje é dia de ver gente comemorando a secessão de sete de setembro de 1822 com a bandeira da República, aquele movimento de espertalhões que em 15 de novembro de 1889 deram um golpe militar nos descendentes dos que protagonizaram a Independência, movimento político que selou o destino para um “desentendimento”, digamos assim, entre pai e filho acerca dos maiores negócios de uma família real.

A dita “independência” foi um longo processo no curral real da colônia brasilis cujo ápice se iniciou com as instabilidades de um fenômeno natural seguido por fenômenos políticos. Lisboa tinha sido severamente abalada com o terremoto de 1755. Ora, ora, onde buscar recursos para reconstrução? Tem a colônia cheia de ouro [1], embora com custos elevados de frete, com uma travessia oceânica, e com alguns “riscos operacionais” por estar repleta de tribos, algumas violentas que sacrificavam crianças e jantavam literalmente os prisioneiros, convivendo com criminosos da pátria lusitana para lá “convidados” pela Coroa, em alternativa à masmorra, para começarem uma “nova vida” ao lado dos velhos “amigos do rei”, políticos presenteados com o loteamento das terras assim chamadas de “capitanias hereditárias”,  juntamente com as vítimas mais comuns dos arranjos colonialistas à época: tribos pacíficas de nativos e escravos trazidos da África. Toda a ânsia por recursos econômicos para reconstruir e embelezar Lisboa se traduziu naquela palavra que muitos amam até hoje na Banânia: imposto. E haja tributação para pagar a conta da reconstrução portuguesa e dos planos mirabolantes do senhor Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como Marquês de Pombal (1699-1782), lobista do positivismo [2], homem de confiança, primeiro-ministro durante a crise que viu oportunidades na mais recente moda política de uma Europa em decadência, enquanto no “iluminismo”, que mais parecia um caldeirão com revoltas que culminariam com a Revolução Francesa de 1789 e 1799, aquela “maravilha” que virou um banho de sangue e deu mais democracia ao povo preparando o caminho para um tirano: Napoleão Bonaparte (1769-1821), que iria tomar conta do curral francês e aterrorizar europeus da vizinhança, fazendo Dom João VI, um rei frouxo e cheio de subterfúgios, fugir para a colônia Brasil em 1808. No entanto, o estrago político já estava feito na colônia com os impostos e a burocracia, tendo consequência pelo controle da arrecadação gerando nativos revoltados, inspirados pelo modismo europeu das revoltas contra os monarcas; um deles foi o senhor Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), mais conhecido por “Tiradentes”, maior ícone da crescente insatisfação com a exploração tributária dos colonizadores de cada dia no famoso “quinto”, e acabou condenado em meio da diversos interesses [3], usado como “boi de piranha” na Inconfidência Mineira de 1789, executado por enforcamento e depois esquartejado, para dar o exemplo da nobre justiça de uma monarquia “orientada” por uma “distinta” fé cristã. Mesmo após a independência, o sentimento separatista  e resistente ao império “independente” permaneceu forte e o caso mais notório é de outro Joaquim, o da Silva Rabelo [4], mais conhecido por Frei Caneca (1779-1825) que já tinha participado de um movimento pernambucano em 1817 e em 1824, quando o imperador Dom Pedro I dissolveu a assembleia nacional constituinte (um “Vargas” antes de Vargas), as resistências locais aumentaram frente ao poder central e líderes pernambucanos então formaram  a Confederação do Equador, uma república tentando a adesão de outras províncias. Frei Caneca acabou preso, julgado e sentenciado á morte por enforcamento, fato ocorrido em 13 de janeiro de 1825 no Forte das Cinco Pontas, Recife.

Com o tirano da França derrotado e morto, Dom frouxo Joao decidiu retornar à capital lusitana em 1821, o que expandiu uma crise política que se avolumou com nativos cada vez mais dispostos a um enfrentamento e agora apoiados por alguns colonizadores insatisfeitos com a administração da realeza. Pedro, o herdeiro imediato dos negócios se viu entre a cruz e a espada, pressionado para ficar. Na condição de filhinho de papai “raparigueiro” [5], típico das realezas europeias, Pedro pouco poderia fazer diante dos insatisfeitos na corte sem a sorte de ter se casado com uma moça muito acima de seu tempo, inteligente, poliglota, culta, elegante e fiel: Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena (1797-1826), dona Maria Leopoldina de Áustria [6] que se aliou a gente do mesmo calibre intelectual como o senhor José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) para articular politicamente um movimento para que o marido ficasse e desapontasse os conterrâneos do outro lado do Atlântico, assumindo por conta e risco os negócios da família no Brasil, processo político que culminaria na separação dos negócios do pai Dom frouxo João. Bonifácio tinha testemunhado na França o banho de sangue da revolução e temia o mesmo no Brasil. Boa parte de seus esforços pela separação com a conservação de um regime monárquico em melhor relação com interesses locais, se deve a este temor. Se um sujeito quer mesmo comemorar o Sete de Setembro, é justíssimo celebrar dona Leopoldina e o senhor José Bonifácio. No entanto, parte da população celebra o atual inquilino do Palácio, e uma outra prefere cultivar um ex presidiário.

Maria Leopoldina de Áustria

Voltando a Dom Pedro I, a ocupação principal dele era tentar conquistar mulheres; a sua amante mais famosa foi dona Domitila de Castro do Canto e Melo (1797-1867), que atendia por Marquesa de Santos, título dado pelo então imperador playboy cujo relacionamento gerou quatro filhos. Nobres e ricos brasileiros escondiam suas filhas de Dom Pedro I com receio de serem seduzidas; por onde ele passava gerava apreensão e até mesmo com a irmã da amante Marquesa de Santos, Maria Bendita, teve um caso. Então trair era a regra;  Dom Pedro I é o caso do sujeito bon vivant e inconsequente que foi se envolvendo em um processo político que se agigantou e viu esse negócio, de ter o próprio império, uma responsabilidade cujo peso estava muito acima do que poderia suportar. E, além de entender bastante de adultério, seguiu no nascedouro do império brasileiro tomando, talvez, um impulso por ter conhecido um pouco de combate, a “arte” da guerra, o que o ajudou a derrotar alguns devotados gadosos do pai Dom frouxo João,  porém sua inteligência para lidar com políticos raposeiros estava muito abaixo à da esposa e assim foi politicamente um imperador fraco. Dona Leopoldina chegou a ocupar o trono quando o marido precisou dar uma “escapadinha” até São Paulo, pertinho de dona Domitilia. Ao se ausentar do palácio do palácio imperial, foi por alguns dias, o imperador passou interinamente o comando à imperatriz Leopoldina, sendo assim a primeira mulher a governar o Brasil, talvez surpreendendo aqueles que pensam ter sido Mãe Dilma dos Pobres. No dia 2 de setembro então, com o imperador ausente, a imperatriz assinou a separação de Portugal, fato desconhecido por muitos que pensam apenas no grito do Ipiranga, dado cinco dias depois quando o Pedro tomou conhecimento do fato e, em meio a uma viagem em São Paulo, acometido de uma curiosa diarreia, recebeu o termo e decidiu fazer o famoso gesto.

Todavia, com resquícios da frouxidão paterna, Dom Pedro I decidiu abdicar do trono, em meio às intermináveis crises nas disputas políticas de uma realeza que mais parecia com as tretas do atual Congresso Nacional. A esposa fiel tinha adoecido, provavelmente sofria de depressão e assim faleceu em profunda tristeza vendo o marido ocupar um palácio defronte à residência oficial, para acomodar a amante. Pedro, viúvo, se casou de novo para depois ir embora deixando o filho “Pedrinho”, o Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon, na tutela do principal amigo, José Bonifácio. Fato é que, apesar da crise que terminou com a abdicação de Pedro, o até então Brasil colônia estava superado; a separação da Coroa portuguesa estava consumada.

Secessão então é o termo mais apropriado para sintetizar os fatos políticos que resultaram no grito da “independência” do dia sete de setembro de 1822, isto posto por se tratar de uma separação ou divórcio entre colonizadores, simbolizados por pai (Dom frouxo João de Portugal) e o filho príncipe “raparigueiro” Pedro e correligionários (o gado gourmet de apoiadores da época) na coroa que decidiram apoiá-lo contando com a simpatia de nativos na massa de manobra costumeira do jogo político.

E assim encerro este prólogo em uma bela manhã para conferir, pela enésima vez, a história sendo “cultivada”, “amada” neste Brasil varonil, assim como vejo nas manifestações grandes oportunidades para observar o nível geral de QI da população que sai por aí, muitos no fetiche do desejo ardente de serem governados por sujeitos  de farda, clamando por um “homem forte” no poder, com a bandeira da República a comemorar a Independência (secessão), devidamente munida da curiosa aptidão de idolatrar parasitas. A propósito, nada mais trágico e irônico do que uma imagem de escultura que presentearam o tal “mito” (dizem os “crentes”, na cafonice peculiar, que escultura é “idolatria”) feita em madeira no país que destrói suas florestas, enquanto o maior líder extremista de esquerda, nunca antes visto na história da Banânia, agora ex-presidiário apto para “salvar o país”, bancar no melhor estilo “Nelson Mandela” saído da prisão injusta, semeando a “paz” e o “amor” denunciando o discurso do “nós” contra “eles”, na expectativa de ser o grande vencedor nas urnas do curral brasilis do ano que se aproxima.

E nessas histórias pouco contadas nas salas de aula que multiplicam analfabetos funcionais, que vão pensar que sou monarquista, fica a dica aos apaixonados pela pátria: quem leva esse país a sério, aumenta as chances de sofrer um infarto; o Brasil desde quando tio Cabral aportou por aqui, sempre foi como aquele cunhado mala ou, no caso da história de hoje, o príncipe Pedro raparigueiro, que muitos entendem que se deve aturar assim como ficar de olho, pois sempre está aprontando algo.

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Notas
  1. Ver o capítulo 7 da obra História Econômica do Brasil, de Caio Prado Jr: A Mineração e a Ocupação do Centro-Sul
  2. Sobre o impacto da política de Pombal na colônia brasileira, ver o capítulo 2 da obra Pare de Acreditar no Governo, de Bruno  Garschagen: Do Brasil colônia ao fado de Pombal.
  3. Ver Inconfidência Mineira: negócios, conspiração e traição em Minas Gerais, de André Figueiredo Rodrigues
  4. Frei Caneca 1779-1825: Gesta da Liberdade, de Gilberto Vilar de Carvalho, e Frei Caneca – Vida e Escritos, de Frei Tito Figueiroa de Medeiros;
  5. Expressão comum no nordeste brasileiro para um sujeito mulherengo ou “femeeiro”. Sobre essa condição de Dom Pedro I, ver a obra Brasil, Uma História, de Eduardo Bueno, no capítulo 16, Brasil Independente, em Amantes;
  6. Ver a obra D. Leopoldina: a história não contada – A mulher que arquitetou a independência do Brasil, de Paulo Rezzutti.

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