Do alto da montanha, vejo os que têm fetiche em ser governado por homem de farda, clamando para que generais tomem o poder e nada mais mítico que o general Caio Júlio César (100 a. C – 44. a.C), lendário comandante de legiões e protagonista de uma sólida trajetória militar [1]. César foi a encarnação plena do combatente extraordinário, do conquistador insaciável e do político inescrupuloso (desculpem-me o pleonasmo).

César general construiu uma carreira típica para quem aspirava os altos escalões no estado romano combinando um histórico de conquistas e um consistente capital político, incrementado por apoio financeiro de Marcus Licinius Crassus (Crasso, 114 a.C –  53 a.C ) e pelos laços de amizade com o general Gnaeus Pompeius Magnus (Pompeu, 106 a.C – 48 a. C), sogro de César que tinha negociado a filha, Júlia, em casamento para sedimentar uma aliança política, coisa comum à época, tendo em vista que os filhos eram propriedades do chefe da família e, no caso de César, recurso para conchavos no Senado, onde conseguiu ser nomeado para o cargo de governador da Espanha, garantindo assim certa imunidade processual mediante inimigos políticos; buscar ocupação executiva no Estado para obter alguma proteção na justiça é uma artimanha antiga na cartilha dos políticos profissionais.

Muitos conservadores no Senado percebiam as tendências megalomaníacas do general César com as legiões. A lealdade das tropas sinalizava perigo aos senadores enquanto César se estruturava militarmente para conquistar a Gália, uma espécie de passaporte para chegar ao topo do poder em Roma. Estrategista aprimorado, o general estudou minunciosamente as tribos da Gália, suas classes sociais, os litígios internos, procurando promover mais intrigas entre comandantes gauleses de cidades conquistadas, enquanto sabia que anda contava com um exército de quatro legiões apenas, no começo das campanhas, muito inferior para uma conquista de um território tão vasto e desejado na província italiana. Na medida em que os acertos políticos se avolumavam, recursos chegavam para mais legiões. E César foi empoderando suas tropas. Acrescente ao general a figura de um político depravado, mulherengo; sua amante mais famosa foi Cleópatra. As aventuras sexuais de César refletiam um homem pragmático com o prazer e as relações com a política: foi um mestre do oportunismo, um raposeiro que sabia o significado da conquista da Gália para explorá-la com o grande apoio popular em Roma. Assim trabalhou para submeter os senadores à opinião pública, acuando ainda mais a instituição do Senado,  de maneira que com seus dois aliados formou o primeiro triunvirato. Tão antiga é a estratégia de colocar o povo contra um parlamento visando, claro, mais poder concentrado….Os bolsonaristas que o digam. Mas César queria mais…

César percebeu que estava em uma condição de ser mais aclamado pelo povo por suas batalhas vitoriosas, enquanto idolatrado pelas tropas com suas histórias de milhares de homens que teria matado pessoalmente em combates na Gália, seguindo um roteiro comum na vida de outros heróis militares de Roma que se repetiram ao longo dos séculos em contextos de outras culturas de “guerras de conquista”; um homem forte na política, de formação militar, grande conquistador e benevolente com o povo. Em Roma, ao perceberem no Senado o monstro que estava se tornando, tentaram contê-lo. Um deles foi Pompeu que, após a morte da esposa, Julia, a filha de César, durante um parto, decidiu se casar com a filha [2] de um dos adversários políticos mais ferrenhos do general César, outrora parceiro de negociatas: Metelo Cipião. Era o início de uma crise política em uma guerra aberta que eclodiu entre César e os conservadores do Senado, agora com o apoio de Pompeu, transformado em um inimigo mortal. A política como ela é, de alianças a traições… O tempo passa e só os métodos são ajustados enquanto a essência é a mesma: o poder sedutor que corrompe absolutamente.

Pompeu ordenou que César retornasse à Roma o acusando de traição, mas não contava com o ex-aliado juntando sua legião favorita, a 13a, para fazer o que estava proibido pela lei romana: um general não poderia entrar na cidade eterna com suas tropas, mas César já não era mais um general comum e estava acima da lei, sabia  que as tropas o viam como um deus, e invadiu Roma dando início a uma guerra civil. Perseguiu Pompeu, fugido para o Sul; e foi avançando, vencendo as batalhas, humilhando os traidores. Não teve como pegar pessoalmente Pompeu, mas se contentou (alguns diriam que lamentou) com a cabeça de seu ex-aliado à mostra. Vitorioso da guerra civil, em uma primeira negociação para ser nomeado ditador, o Senado ainda teve forças para ganhar um tempo e impedi-lo, mas ao se aproveitar do medo da fome pela escassez de trigo, César usou o abastecimento da Espanha para conquistar de vez o povo; Roma é a plebe, e assim o Senado não tinha mais como rejeitar: o general conquistador de povos e mulheres, nascia em 49 a.C como ditador da República que se tornaria um vasto império, aclamado pelo povo, algoz dos conservadores, homem forte  como o desejo de muitos até hoje, e cercado por conspiradores…

 

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Notas:
  1. História de Roma, do historiador e jornalista italiano  Indro Montanellim (Itália/Fucecchio (1909-2001), edição em espanhol;
  2. Cornélia Metela

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