Editado em 09/10/2021 21h28

Aprendi o significado do “viver o que se ensina” pela dor da indignação, lá pelos idos de 2003-2006 quando notava em alguns professores e alunos do seminário teológico, certas incongruências quando, na sala de aula pareciam estar de “mente aberta” abordando com entusiasmo determinados assuntos mas, tendo oportunidade de vê-los nos púlpitos de suas igrejas, se transformavam em exímios pregadores fundamentalistas. Diante de discentes, se faziam passar por promotores da liberdade de expressão, do livre pensamento, mas diante da congregação dominical, viravam extremistas da fé, condenando o mesmo espírito “liberal” que adotavam em sala de aula.

Seria na terminologia deste mundo tão moralista, digo religioso, a grosso modo, algo próximo de “você vive o que prega?”. Penso em Leon Festinger no conceito de “dissonância cognitiva”, como a falta de coerência entre o que se conceitua como “correto” e o que é de fato praticado. Uma questão ética de “idolatria do abstrato” e não somente isso; cavando um pouco mais, posso ver a falta de coerência sobre o que foi idealizado acerca da “realidade” ou do cotidiano com as próprias ideias que podem ser, se colocadas em prática, o extermínio da própria existência do pensador. Indo para uma experiência mais próxima do que vivenciei, se um professor que dá uma de “liberal” em sala de aula para expressar uma suposta intelectualidade pela liberdade de pensamento, fizer o mesmo no púlpito e adotar seus mirabolantes arranjos abstratos no trato de problemas concretos de uma comunidade, não me causará surpresa se passar por apuros e no final for demitido do executivo de uma igreja, não raramente controlada por diáconos fundamentalistas. Indo para uma exposição mais abrangente, neste último ponto penso também no conceito mais acabado de “paralaxe cognitiva” na abordagem de Olavo de Carvalho, como sendo “o hiato entre o eixo da experiência pessoal e o da construção teórica”. A paralaxe ocorre por uma construção com uma incongruência que compromete gravemente a base do pensamento o tornando insustentável enquanto aparentemente lógico, no entanto, um sujeito nessa empreitada costuma incrementar arranjos para fazê-la parecer viável e irrefutável; funciona como um falsário que atira uma flecha e depois, indo até o ponto em que ela penetrou, desenha o alvo em torno dela para em seguida apresentar tudo como “prova” da consistência do conceito que desenvolveu.

Não é necessário fazer muito esforço para notar que o campo da política é um “´prato cheio” para se observar os problemas que mencionei, sobretudo o da dissonância. É aquela história de que não adianta argumentar com lulistas, bolsonaristas, ou quaisquer outros adoradores de políticos, pois sempre apresentarão “justificativas” que apenas incrementam mais dissonâncias nas contradições. Na política, supostas intenções são super estimadas e os resultados são relativizados; super dimensionados quando interessam à exploração das ideias, e minimizados, quando não omitidos, quando contrariam as supostas intensões originais.

Voltando à dupla personalidade de professores, alunos e pastores que observei no seminário, o problema me atingiu. Cheguei a pensar se estava posando de “livre pensador” com toda disposição diante de uma comunidade, enquanto realizava um papel contrário em outra, que tem a inteligência subestimada. O que me ajudou a superar o problema foi o alerta “De Deus não se zomba”, dado por São Paulo aos Gálatas (6:7). Após essa experiência, o caminho que encontrei foi me afastar de um mundo corporativo religioso controlado por quem gasta o dinheiro dos “dízimos” com a própria ostentação; pastores que enriquecem o patrimônio pessoal com salários e benefícios exorbitantes, cercados por lobistas que organizam viagens e hospedagens de luxo para fazer “missões” e participar de “conferências” evangelísticas em lugares onde sobra glamour. Finalmente, pude perceber que o Evangelho não deve ser confundido com “igreja”, “doutrina” ou qualquer tipo de arranjo ideológico e institucional que ignore o significado do Reino que “não é deste mundo”.

Foi meditando no conceito de “paralaxe cognitiva” que comecei a ter muitas restrições ao ensino formal, dito “superior”. Tive um professor de “mercado de capitais” nos anos 1990 que nunca tinha operado em uma mesa, tampouco assumido responsabilidades em uma corretora. dava aulas sobre derivativos onde se declarava “expert” por ter lido várias obras e portar um certificado de pós-graduação, mas se enrolava para responder questionamentos de um aluno que tinha feito um estágio em uma corretora. Pensei, como este homem poderia contribuir em minha formação na área se não tem vivência de como a coisa é na prática?

Cansei de ver professores de “contabilidade de custos” que nunca desenvolveram um trabalho sequer nesta especialidade em alguma organização, se assemelhando ao famigerado “empreendedor de palco”, uma epidemia hoje em dia.  Conheci “administradores” dando aulas, mas que nunca administraram empresas. Mestres e doutores que se apresentam como mentores que nunca viveram as coisas que ensinam. Indivíduos que vivem dissociados da realidade, distantes de um entendimento sobre o mundo volátil diante de desafios concretos sobre a complexa e imponderável dimensão da dispersão de conhecimentos e subjetividades, onde entram no fogo várias certezas, teorias, hipóteses e vaidades intelectuais.

Economistas que não entendem ou subestimam problemas de escassez? Confundem a ciência da escassez com ideologia e assim querem melhorar o mundo com intervenções governamentais incessantes que se apoderam do bolso alheio e vão destroçando a chance de leigos entenderem melhor problemas de economia com leituras keynesianas e marxistas. Alguns enaltecem (o nada pioneiro) Adam Smith, e até consideram alguns conceitos do sábio Mises, mas vivem sob o setup de Marx. São os mais intensos em moral hazard para distorcer a compreensão da cataláxia [1].  

Contadores que não sabem aplicar conceitos elementares de “débito” e “crédito”, mas querem inovar em gestão empresarial? Especialistas em direito que não advogam ou não trabalham exercendo juízo em algum tribunal? Administradores com ideias revolucionárias, prontos para inspirar um novo unicórnio, mas que não administram empresas? Especialistas que não colocam a “mão na massa”. Experts que falam sobre algo pelos quais não lidam diretamente na carreira profissional?

O problema do viver o que é ensinado em salas de aula me remete também a uma questão abordada por Thomas Sowell, chamando de “fatos e falácias acadêmicos” [2], considerando que “os interesses dos professores superam as necessidades educacionais dos alunos” [3]. Tais interesses estão na separação que há no meio acadêmico em relação à lógica de mercado, pelo fato de que a relação de consumo é afetada pelo desconhecimento do aluno (consumidor) sobre o produto vendido (formação), enquanto que, em um mercado, normalmente, atender aos interesses do vendedor e desvalorizar o do comprador pode significar maior risco de perder o cliente, na faculdade o professor (vendedor) está em uma posição onde se é em mais complicado para o aluno (comprador) avaliar se foram bem transmitidos os conteúdos previstos no contrato de ensino. Pensando no corporativismo em torno de regulações onde a política se sobrepõe à realidade que vem do mercado, encontra-se um escudo para que professores incompetentes continuem destroçando mentes.

Essa estrutura distanciada da realidade da vida, entenda-se “mercado”, típica da atividade de ensino dito “superior” no Brasil, ajuda professores a construírem uma blindagem contra questionamentos acerca do que estão, de fato, oferecendo a seus alunos em termos de conteúdo e efetividade do saber. Então, para para pensar se o professor tem experiência concreta sobre o que está supostamente ensinando  ajuda a desmascarar um doutrinador enrustido. O professor tem experiências profissionais diretamente relacionadas com o que ensina em sala de aula? Se tem, quais os resultados obtidos ao longo da carreira ou seja, qual o conceito que tem no mercado de trabalho do ponto de vista da aplicação profissional e de teorias que tem se dedicado?

Quando um professor “não vive o que prega”, não coloca em jogo conceitos que defende, não se submete às aleatoriedades que a assim chamada “ciência” deve se pautar, não testa na própria vivência o que “ensina” em sala de aula, merecerá algum crédito? “Viver o que se prega” é assumir responsabilidades na propagação do conhecimento; significa colocar a própria “pele em jogo” [4], como sugere Taleb. “Viver o que se prega” implica em correr riscos de afetar a própria credibilidade junto com interesses materiais. 

Não se deve dar ouvidos a quem dá opinião e está imune a resultados sobre aquilo que opina; a quem não sofrerá com as consequências das coisas que ensina ou defende ideologicamente. Quem não tem o que oferecer além das próprias análises “despretensiosas” ou “isentas”, atuando só na base da epistemologia, tratando o conhecimento apenas como algo que se inicia por teoria até a prática, subestimando a ação de experimentar e aprender no processo de teoria e prática, sobretudo, sem assumir ganhos e perdas no exercício do saber, sem reconhecer falhas e acertos, não tem vivência do saber brotando como “verdade que ensina interiormente”, como afirma Santo Agostinho de Hipona.

Aqui encerro com uma breve síntese de São Tomás de Aquino:

Al ioquin si nudis auctoritatibus magister quaestionem determinet, certificabitur quidem auditor quod ita sit, sed nihil scientiae vel intellectus acquiret , et vacuus abscedet  [5].

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Notas:
1. Teoria da economia de mercado difundida na Escola Austríaca de Economia.
2. Fatos e Falácias da Economia. Ed. Record, 2017.
3. Obra da nota 2. Página 128.
4. Ver Antifrágil de Nassim Nicholas Taleb.
5. “Se o professor resolver a questão somente por meio de argumentos de autoridade, quem o escuta ficará, sem dúvida, convencido de que as coisas são assim, mas não adquirirá nada em ciência e intelecto, e irá embora vazio”. (Tomás de Aquino, Quodl. IV a. 18.).  Esta tradução consta na introdução da obra “À escuta do outro”, do teólogo italiano Bruno Forte.

 

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